Por Fátima Malça, publicado em Voz Portucalense, dia 3 de junho de 2015

 

1 – A vida é o dom mais precioso concedido pelo Criador. Daí que ela tenha um carácter sagrado e inviolável, tornando-se sempre indisponível, quaisquer que sejam as circunstâncias envolventes e os protagonistas em causa. Acontece que, às vezes, da vida concebida em condições adversas e estranhas, pode nascer uma pessoa perfeitamente normal e dotada dos melhores sentimentos. Tenho presente aquela jovem, portadora de grave anomalia psíquica. Completamente dependente, lá ia vivendo na pacatez da sua aldeia. Certo dia, com surpresa de todos, começaram a aparecer nela sinais de maternidade, o que provocou uma compreensível reacção negativa e, até, alguma indignação por parte de familiares e amigos. Apesar de ter surgido a tentadora mas enganosa solução do aborto, venceu a opinião mais sensata, a que, com determinação, se opunha a tal prática. Completado o tempo de gestação, nasceu uma encantadora menina, sã e escorreita, fazendo jus ao adágio bem conhecido “Deus escreve direito por linhas tortas”.

E assim, lá foi crescendo, rodeada apenas do carinho dos avós e demais familiares, na linha materna, já que sobre ela caía o labéu, então consagrado na lei, “filha de pai incógnito”. E aquela criança, que mais parecia um anjo, tornou-se, mais tarde, o amparo de sua mãe. Era comovente ver a ternura com que ela sempre a acompanhou!

2 – Mas não é só a vida nascente que carece de protecção. Também aquela que se aproxima do seu termo precisa de cuidados especiais e redobrados. A pretexto da salvaguarda da chamada qualidade de vida, que os defensores da eutanásia invocam para legitimar os seus inconfessáveis intentos, muitos julgam poder dispor, a seu bel-prazer, sobre o tempo da sua duração. Todavia, aquela não é determinada pela ausência de sofrimento físico mas pela capacidade de aceitação, que gera paz interior, de modo que esta possa coexistir com aquele. “Nunca é lícito matar o outro, ainda que ele o quisesse, mesmo se ele o pedisse; nem é lícito saber quando o doente já não está em condições de sobreviver”. (Santo Agostinho)

3 – Além destas, também há outras situações em que as pessoas se encontram deprimidas por circunstâncias diversas, sendo, muitas vezes, tentadas a pôr termo à vida. Este pensamento tenebroso tem a sua origem na falência das seguranças de apoio afectivo e material. No entardecer da vida, vai germinando uma dor lenta, coberta pela cortina da saudade de quem lembra o passado longínquo, repleto de entusiasmo dinâmico. E são estas pessoas que também é necessário acompanhar, com o carinho e a ternura de quem aponta para um novo alvorecer, que desponta no interior da própria morte, na certeza de que “não nascemos para morrer mas morremos para viver”, deixando que seja Deus a marcar a hora.