Pelo Pe. Duarte da Cunha, Secretário-Geral do Conselho das Conferências Episcopais da Europa

Artigo publicado em Voz da Verdade, 11 de Maio de  2014

 

A família é de tal maneira importante para cada pessoa que abraça todos os aspectos da vida humana. Num momento em que se está a preparar o Sínodo dos bispos sobre a família, e pouco depois de o Papa Francisco ter recordado, no dia da canonização de João Paulo II, que este novo santo gostava de ser conhecido como o Papa da família, são importantes duas coisas. Em primeiro lugar cada um deve levar mais a sério e com mais atenção as suas relações familiares. Por outro lado, recordar e aprofundar o magistério sobre a família que a Igreja, ao longo dos séculos, tem cimentado e que teve em São João Paulo II um dos mais intrépidos e entusiasmados apóstolos.

Claro que recordar o magistério é muito mais do que discutir teorias ou regras. Conhecer o plano de Deus para viver e ajudar a viver bem a família, eis aquilo que penso ser o renovamento que se espera ganhar com os próximos Sínodos (Outubro de 2014 Sínodo extraordinário com os quase 150 presidentes das Conferências episcopais de todo o mundo; Outubro 2015 Sínodo ordinário com cerca de 300 bispos delegados).

Um primeiro ponto a ter bem presente é a importância de que a teologia e a doutrina estejam sempre em sintonia com pastoral. Não há boa teologia sem relação com a realidade, não há boa pastoral se não for orientada pela doutrina da Igreja.

Quando olhamos para a doutrina, devemos antes de mais alicerçar o que dizemos sobre a família numa verdadeira antropologia. Não se percebe bem a família se não tivermos um olhar sobre o homem e sobre a mulher correspondente ao plano de Deus. Mas também não se percebe a pessoa sem a família. A pessoa é um ser familiar. Esta “antropologia adequada” teve em São João Paulo II um mestre imprescindível. A Teologia do Corpo, com a qual o Papa polaco iluminou a antropologia e a doutrina sobre a família, é a síntese mais importante da teologia dos últimos tempos.

Além da antropologia, a teologia da família precisa de ter presente o significado e a eficácia do sacramento do matrimónio. Há muitas graças neste sacramento que integram o amor humano no âmbito do amor divino, e que ajudam os esposos a viverem o seu caminho de santidade. Pensar que o matrimónio é só um acordo entre pessoas humanas é esquecer que nele Deus se compromete também e que é Ele que une os esposos para sempre. Acho mesmo imprescindível estar atento a todas as graças deste sacramento para se poder viver quotidianamente os desafios da vida familiar.

Tudo o que se diz sobre a família, porém, deve pressupor e desembocar numa doutrina sobre o amor. É fundamental que na nossa cultura haja uma compreensão do amor à imagem do amor de Deus. “Amai-vos uns aos outros como Eu vos amei”. Este é o novo mandamento. Este é o ideal do amor vivido e ensinado por Jesus: o dom total de si e o acolhimento do outro tal como é; é assim que surge entre os que se amam uma comunhão de vida à imagem do amor que une as três Pessoas da Santíssima Trindade. Este é o amor que está na base da doutrina cristã sobre a família e é ele que gera e pede a fidelidade, a indissolubilidade, a fecundidade, a criatividade, o perdão, o sacrifício, a partilha e o diálogo.

As questões morais decorrem desta doutrina como consequências do amor. Se elas são importantes não se pense que podem ser compreendidas sem o enquadramento doutrinal. A doutrina da Igreja é antes de mais a explicação do plano de Deus e da Sua vontade que é também o que melhor corresponde aos desejos humanos, é daí que decorrem as exigências morais, por exemplo:

a)      a importância da fidelidade, entendida como a responsabilidade diária dos esposos em tudo fazerem para que o outro esteja acompanhado e seja feliz;

b)      a castidade conjugal que une no acto conjugal o amor dos esposos com a disponibilidade de gerarem filhos;

c)      a responsabilidade educativa que prolonga a fecundidade do casal e implica tantos sacrifícios aos pais – não esqueçamos que só o amor gera educação!

d)      o trabalho para sustentar a família;

e)      a solidariedade com os outros mais necessitados;

f)       a atenção aos idosos na família.

É certo, que nem tudo é fácil na família e que muitas vezes há zangas. É importante que a comunidade familiar alargada e a Igreja estejam perto, porque será essa presença a poder dar algum alento e a iluminar a situação. Nem sempre se consegue evitar os problemas, mas podemos muitas vezes atenuar as consequências das rupturas.

Finalmente uma nota: não esqueçamos que ninguém aprende a ser família do nada, e que por isso a pastoral juvenil deve ser capaz de preparar os jovens para reconhecerem a própria vocação e constituírem família.

A pastoral da família é central na vida da Igreja. Aproveitar este tempo, em que toda a Igreja está a pensar a família, e aproveitar a canonização do São João Paulo II, o Papa da família, é um imperativo.