2015-10-27 L’Osservatore Romano – Uma acção para um desenvolvimento que se quer chamar sustentável deve orientar-se para o serviço das populações mais desfavorecidas e a preservação de bens como a água, os solos, as diversidades biológicas que – como adverte a Laudato si’ – limitam a esperança de vida de milhões de pessoas e correm o risco de se tornar causa de conflitos. Foi uma das principais conclusões às quais chegaram os participantes no debate realizado em Roma no dia 26 de Outubro por iniciativa da Fao e da missão permanente da Santa Sé junto daquela organização.

 

Quase que a confirmar a intenção do Papa Francisco, que vê a encíclica como uma «ponte» aberta para acolher a reflexão de muitas vozes, inclusive não eclesiais, o encontro realizou-se na presença dos representantes dos Estados membros e dos funcionários da Fao, com as intervenções do director-geral José Graziano da Silva, dos cardeais Tauran e Turkson, presidentes dos Pontifícios Conselhos para o diálogo inter-religioso e «Justiça e Paz», e do observador permanente da Santa Sé, monsenhor Chica Arellano. «As questões da Laudato si’ face ao programa para o desenvolvimento pós-2015»: foi o tema do encontro, colocado no âmbito da iniciativa da Fao «Comunicar para suscitar a mudança». De resto, o objectivo do «cuidado da casa comum» devido à sua amplidão e dimensão técnica e pela direcção exigida da acção política é totalmente relevante para a dimensão internacional, sobretudo para uma instituição como a Fao que trabalha pela preservação dos diversos ecossistemas (solos, água, florestas, plantas) cujo uso racional é essencial para favorecer o desenvolvimento agrícola e para libertar a humanidade da fome. Desta forma, à luz da encíclica, as intervenções evidenciaram que naquelas situações nas quais é evidente a falta de desenvolvimento, são cada vez mais complexos os choques ambientais e as transformações sociais e culturais, e aumentam cada vez mais os riscos para a conservação dos recursos naturais. O que na dimensão internacional significa trabalhar para que os frutos da criação beneficiem deveras a família humana e cada homem, mas isto exige uma acção concertada. De facto, o desenvolvimento agrícola, a crise alimentar e a especulação financeira que não poupam o sistema agro-alimentar requerem intervenções específicas que não podem fazer-se esperar. São situações que, como recorda o Pontífice na encíclica, dizem respeito aos «pobres mais abandonados e maltratados», muitos dos quais vivem nas áreas rurais e pedem condições de vida capazes de superar as injustiças efectivas . Isto requer intervenções adequadas para unir numa acção comum as instituições públicas, os governos, as associações de camponeses, o sector das empresas agrícolas. «Não será a fome em abstracto – disse monsenhor Chica Arellano – que moverá os corações e as vontades para pôr fim a esta chaga que devasta a humanidade. Quantos a sofrem não são um simples objecto de estatísticas nem de balanços. Os indigentes, os famintos, os que sofrem mais pelas inclemências e pelos desastres climáticos, são pessoas». E, acrescentou, «mesmo que se tente calar o seu grito e que seja cansativo ouvi-las, não param de gritar, porque a única coisa que os pobres possuem é o grito. Estes gritos exigem um olhar para os seus rostos dilacerados, que nos pedem com urgência para sair da nossa passividade e da nossa indiferença. Os excluídos deste mundo não admitem esperas nem prorrogações a longo prazo». Também o cardeal Tauran interveio, tirando inspiração da cultura islâmica, citando o célebre sufi Ali al-Khawwaç, segundo o qual «o misticismo está presente em todas as coisas, inclusive no rosto de um pobre». Além disso, o purpurado garantiu que «os políticos podem contar com a colaboração dos cristãos para uma conversão ecológica que inicia com a educação».