REDAÇÃO CENTRAL, 27 Mar. 16 / 09:00 pm (ACI).- A Igreja Católica nos Estados Unidos perdeu neste 27 de Março, Domingo de Páscoa, a Clarisa pobre que mudou o rosto do catolicismo nos Estados Unidos e ao redor do mundo, Madre Maria Angélica da Anunciação, fundadora do grupo Eternal World Television Network (EWTN) de comunicação católica, faleceu hoje às 19h p.m. depois de 15 anos lutando com as sequelas de um derrame cerebral. Ela tinha 92 anos. O funeral da Madre Angélica será na próxima sexta-feira 1 de abril no Alabama (EUA), onde morava.

 

 “A Madre sempre personificou e sempre personificará a EWTN, a rede de comunicações que Deus pediu que ela fundasse”, afirmou o Chefe Executivo da rede Michael Warsaw. “Suas realizações e legados na evangelização através do mundo foram praticamente miraculosos e isso só pode ser atribuído à divina Providencia e sua incessante fidelidade a Nosso Senhor”.

Em 1981, Madre Angélica deu início ao canal de televisão Eternal World Television Network (EWTN), que hoje transmite 24 horas por dia a mais de 258 milhões de lares em 144 países. O empreendimento que começou com cerca de 20 funcionários hoje tem mais de 400. A rede oferece transmissões de rádio e televisão ao longo do mundo todo em inglês e espanhol, opera um catálogo de material católico e se encarrega da publicação do jornal impresso National Catholic Register, além de chefiar as agências de notícias do grupo ACI, incluindo ACI Digital.

“A Madre Angélica conseguiu algo que os próprios bispos norte-americanos não conseguiram”, afirma o Arcebispo da Filadélfia Dom Charles Chaput, que esteve na diretoria da EWTN desde 1995. “Ela fundou e expandiu uma rede que apela aos Católicos do cotidiano, entendeu suas necessidades e alimentou suas almas. Ela teve muita ajuda, certamente, e mesmo esta foi parte da sua genialidade”.

Sua vida

Nascida e batizada com o nome Rita Rizzo no dia 20 de abril de 1923, poucos teriam afirmado que uma garota nascida em um lar turbulento em Canto, Ohio, viria a fundar duas ordens religiosas, hoje repletas de vocações, mas que também daria um profundo “Sim” a qualquer coisa que ela sentia como um pedido de Deus.

“Meus pais se divorciaram quando eu tinha 6 anos de idade. Foi aí que começou um inferno para mim”, disse a Madre em uma entrevista ao National Catholic Register em 2001. “Minha mãe e eu estávamos desesperadas – mudando de lugar a lugar, pobres, famintas e mal sobrevivíamos”.

As sementes da vocação da Madre vieram quando ela obteve a cura para dores severas no estômago quando era ainda adolescente. Com sua mãe, foi visitar uma mulher chamada Rhoda Wise, a quem os cidadãos atribuíam curas milagrosas. Ela deu para Rita uma novena a Santa Teresinha do Menino Jesus. Após nove dias de oração, a jovem estava curada, as dores desapareceram.

“Neste dia eu percebi o amor de Deus por mim e comecei a ter sede de Deus”, disse Madre Angélica.

“Tudo que eu queria depois de ser curada era me entregar a Jesus”. E assim o fez. No dia 15 de agosto de 1944, com 21 anos de idade, Rita ingressou à ordem das Clarissas Pobres da Adoração Perpétua em Cleveland e tomou o nome pelo qual viria a ficar conhecida no mundo todo: Irmã Angélica da Anunciação.

Uma promessa a Deus

Um evento que mudou a vida da religiosa daria início à sua inabalável confiança na Providência Divina.

“Em 1964, eu fui escolhida uma das irmãs que fundaria um novo mosteiro [chamado Santa Clara] em minha cidade natal, Canton, Ohio”, disse a religiosa na sua entrevista de 2001 ao Register. “Um dia, na década de 50, meu dever era encerar o chão do mosteiro”.

“Ao contrário de Santa Teresinha, eu decidi usar uma enceradeira elétrica. Em um determinado momento a máquina ficou fora de controle. Eu perdi o equilíbrio no chão encerado e fui lançada de costas contra a parede”. Dois anos depois, a lesão causada piorou e Angélica mal conseguia realizar as tarefas do cotidiano. Hospitalizada e aguardando cirurgia, ela soube que havia 50% de chance de que jamais voltasse a andar.

“Eu me enchi de pânico e fiz um negócio com Deus”, disse a religiosa. “Prometi que, se ele permitisse voltar a andar, eu construiria um mosteiro no Sul dos Estados Unidos. Deus manteve a sua parte do negócio e, pela Divina Providência, eu também”.

Logo após, ela apresentou seu desejo à sua superiora. Madre Verônica, que foi mestra de noviças de Madre Angélica, tinha dois pedidos de duas freiras da sua congregação para iniciar fundações individuais de mosteiros da sua ordem. E ela teve uma brilhante resposta. Escreveu uma carta da parte da Irmã Maria da Cruz ao bispo de Saint Cloud, Minesotta; e outra, da parte da Irmã Angélica da Anunciação, ao Arcebispo de Mobile-Birmingham, Alabama, Dom Thomas Toolen. Por obra da Providência, o Arcebispo Toolen respondeu primeiro, “casando-a” para sempre com o estado do Alabama.

No dia 3 de fevereiro de 1961, após diversas dificuldades e obstáculos, Roma concedeu à Irmã Angélica a permissão de fundar um mosteiro no Alabama. O nome viria a ser Mosteiro de Nossa Senhora dos Anjos em Irondale, Alabama. Uma cidade cuja população católica era de apenas 2%.

O Apostolado na Mídia

Sendo uma carismática palestrante, suas palavras sobre a fé chegaram aos ouvidos dos encarregados de uma rádio e depois de uma televisão. Em 1969, começou a gravar suas palestras espirituais para distribuição massiva. Gravou seu primeiro programa de rádio em 1971, uma apresentação de 10 minutos para a rádio WBRC, segundo relata sua biografia Mother Angelica: The Remarkable Story of a Nun, Her Nerve and a Network of Miracles (Madre Angélica: a incrível história de uma freia, sua persistência e uma rede de milagres),  escrita por Raymond Arroyo, apresentador do show The World Over, no canal EWTN.

Animada por seu amigo e patrocinador do seu apostolado, o advogado Bill Steltmeier de Nashville, ela gravou em 1978 seu primeiro programa de televisão, uma apresentação de 30 minutos chamada “Our Hermitage” (Nossa Ermida). E não demorou muito para que viesse a acalentar a ideia de um apostolado fiel à doutrina Católica na mídia. Usava um estúdio secular para produzir programas para um canal de TV a cabo cristão ainda em 1978. Nessa época, a Madre Angélica escutou que o estúdio viria a produzir e transmitir um programa que ela considerava blasfemo. 

“Quando eu soube que a estação transmitiria um filme blasfemo, eu confrontei o diretor do estúdio e fiz minha objeção”, disse Madre Angélica. “Ele ignorou a minha queixa e eu disse para ele que iria gravar em outro lugar meus programas. Ele me disse: ‘Se você sai deste estúdio, você está fora da televisão’”.

“Então eu vou construir meu próprio estúdio”, respondeu Madre Angélica.

“Esta decisão viria a catalisar o processo fundacional da EWTN”, narra Raymond Arroyo. “Isto levou à sugestão das irmãs de transformar a garagem do mosteiro em um estúdio de televisão”.

E assim foi. Na solenidade da Assunção de Maria, 15 de agosto de 1981, foi lançado o canal EWTN. Aquela garagem viria a ser seu primeiro estúdio e centro de operações – o núcleo nevrálgico – para a programação global da EWTN.

 

Legado espiritual

“Primeiramente, a coisa mais importante que fez a Madre Angélica foi viver sua vida contemplativa”, disse a Irmã Marie Andre, das Clarissas Pobres. “O canal é fruto disso”.

A Ordem da Madre Angélica, as Clarissas Pobres da Adoração Perpétua, que começou em Irondale com cinco freiras, expandiu-se a outro mosteiro no Santuário do Santíssimo Sacramento em Hanceville, Alabama, além de duas novas casas em Houston, Texas, e no estado do Arizona. Foi a Madre quem construiu o mosteiro em 1999 e mudou o mosteiro de Irondale para Hanceville.

Em novembro de 2015, a comunidade de Hanceville cresceu com a chegada de freiras do Mosteiro de São José, de Charlotte, Carolina do Norte, sob a liderança da Madre Dolores Marie.

Madre Dolores, antes de ser freira, trabalhou na EWTN e descreve o legado espiritual da Madre Angélica como um constante esforço por responder diariamente à vontade de Deus.

“Quando a Madre teve seu primeiro derrame [em 2001], muitas pessoas disseram que era uma pena, pois ela era a voz da fé Católica que propagava a verdade”, diz Madre Dolores. “Mas, a fé nos ensina que estes anos não foram em vão de forma alguma. Provavelmente, seu trabalho mais profundo transcorreu neste lapso de tempo, no seu silêncio e sofrimento. Eu acredito que isto é certo. Nosso Senhor lhe deu este tempo para ser verdadeiramente enclausurada em seu leito e teve um tempo de oração e intercessão e sofrer como um modo de oferenda pela Igreja e pelo mundo inteiro, pela nossa Ordem, pelo canal, por tantas coisas. Sobretudo pelas almas. Só saberemos na eternidade o valor destes últimos anos”.

A Irmã Marie Andre, uma das cinco freiras que iniciaram a comunidade das Clarissas em Phoenix, Arizona, também reconheceu a dedicação total da Madre no cumprimento do Plano de Deus.
“Ela nunca teve medo de fracassar, mas sim deixar de cumprir a vontade de Deus”, diz Irmã Marie.
“A Madre descrevia o cumprimento do Plano de Deus como um trem com vários vagões. O “Sim” era a locomotiva, todo o restante vinha atrelado a este. Se ela não tivesse dito este “Sim”, nenhuma das casas nem o canal teriam sido fundados. 

O mosteiro do Santíssimo Sacramento, assim como a EWTN, continuam atraindo milhares de visitantes anualmente.

Madre Angélica também fundou uma ordem masculina, os Missionários Franciscanos do Mundo Eterno (Eternal World Franciscan MIssionaries), que hoje conta com 15 frades envolvidos amplamente no trabalho apostólico da EWTN.

Segundo o Padre Josph Mary Wolfe, um dos primeiros membros dos Missionários, o legado espiritual da Madre se resume no seu amor esponsal por Jesus, centrado na Eucaristia, sua grande confiança na Providência e seu forte espírito de família. “Ela estava sempre dizendo às pessoas: ‘Jesus te ama’”, relata o frade que também revelou que a Madre “nunca preparava os seus shows”. Segundo Fr. Wolfe, que trabalhou como engenheiro na EWTN, a Madre “simplesmente rezava com a equipe e depois ia ao ar na televisão com a confiança de que Deus lhe daria as palavras”.

Em um especial pelos 90 anos da Madre Angélica, o sacerdote jesuíta Mitch Pacwa, apresentador da EWTN, falava também da autenticidade da religiosa. “Para mim – relata – um dos aspectos mais importantes sobre a Madre Angélica é que o que você via na TV era o que você via fora do estúdio. Não havia diferença”.

Custodiando a Igreja

Comentaristas afirmam que além das fundações das ordens religiosas masculinas e femininas da Madre Angélica, ela teve ainda um legado de proteger a Igreja nos Estados Unidos.

“A Madre Angélica foi comparada a uma poderosa abadessa medieval. Mas, os instrumentos de mídia que ela criou estenderam sua influência no anúncio do Evangelho além de qualquer abadessa medieval, maior até que a dos bispos americanos mais proeminentes do último século”, afirma Mark Brumley, presidente da Ignatius Press.

“Sua contribuição de longo prazo é difícil de ser medida, obviamente, mas não há dúvida de que a Madre Angélica ajudou a enraizar mais profundamente a Tradição Católica na Igreja nos Estados Unidos; ao mesmo tempo, ela ajudou a Igreja a inovar no método de transmitir a Tradição. Todos os católicos dos Estados Unidos deveriam agradecer a Deus pela Madre Angélica”.

“A Madre Angélica teve dois importantes legados”, afirma Arroyo. “Para o mundo lá fora, ela foi a primeira mulher na história da televisão que fundou e liderou um canal por mais de 20 anos. Ninguém mais fez isso”.

“Ela foi um grande apoio para João Paulo II e seu Sucessor”, acrescenta Arroyo. Seu ativo ministério decorreu em paralelo com o de João Paulo II e ela o apoiou em um tempo que muita gente estava minando a autoridade da Igreja, distorcendo a história e a natureza da liturgia e da devoção popular e confundindo a educação Católica. Mostrou que a aproximação com sentido comum dos católicos era a correta. Normalizou a verdade da fé em um tempo que esta estava vulnerável.

No dia 12 de fevereiro, no avião papal, durante sua visita a Cuba, o Papa Francisco enviou uma saudação à Madre. “Saúdo a Madre Angélica com a minha bênção, e peço que reze por mim, eu necessito”, disse o Santo Padre. “Deus a abençoe, Madre Angélica”.  

Retiro da liderança

A Madre Angélica se afastou da liderança da EWTN em 2000. Ela teve um derrame na noite de Natal de 2001. Como consequência, passou boa parte dos seguintes anos sem a capacidade da fala. Segundo Raymond Arroyo, isto não impactou sua eficácia.

“Ainda que sem a possibilidade de falar com extensão e calar as controvérsias e confusões dos tempos, o que ela conseguiu através da oração é formidável”, diz Arroyo. “Certamente não foram nossos esforços que mantiveram a EWTN no ar e permitiram que alcançasse pessoas das mais impressionantes formas. Eu atribuo tudo isso ao sofrimento desta mulher em Haceville”.

Warsaw, por sua parte, afirma que ela foi um inspirador modelo de fé cristã.

“O mais importante, como nos mostra a vida da Madre Angélica e de outros tantos santos, é ser fiel e perseverar”, destacou. “Uma vez ela disse: ‘Você foi criado por Deus e conheceu Jesus para um único fim: para dar testemunho da fé, da esperança e do amor diante de um mundo que não acredita’”.

“A vida de Madre Angélica foi uma vida de fé”, diz Michael Warsaw. “Sua vida de oração e obediência a Deus são dignas de serem imitadas. Tudo para ela é um ato de fé”, diz o atual Diretor Executivo da EWTN.

O Arcebispo Chales Chaput concorda com esta afirmação. “Ela inspirou outras pessoas dotadas a unirem-se a ela no trabalho sem comprometer sua própria liderança e visão”, afirma. “Eu a admirava muito, não apenas como uma talentosa líder e comunicadora, mas como uma amiga e uma mulher de uma religiosa generosidade, intelecto e Fé Católica”.

Tim Drake escreve em St. Joseph Minnesota

O texto contou com a contribuição do National Catholic Register

Tradução: Agência ACI Digital