Se a palavra “heterossexual” foi inventada ou está sendo usada para definir e legitimar moralmente a centralidade da identidade humana em qualquer desejo sexual pelo sexo oposto, como se a relação sexual, o mero prazer sexual, fosse o centro legitimador da família, ela está sendo usada de forma profundamente errada, de fato. Traz em si a marca da ideologia de gênero. Mas isto não diz nada sobre a legitimidade do próprio matrimônio, nem sobre a verdade da vida célibe consagrada a Deus.

Por Paulo Vasconcelos Jacobina

 

Brasília, 22 de Julho de 2015 (ZENIT.org)

A perda de critérios para o pensamento, que está ocorrendo na nossa vida diária, tem trazido grandes angústias e sofrimento para todos; a insegurança nas formas de relacionar-se e viver, somada à crise econômica e política que o país atravessa, tem colaborado para uma sensação generalizada de desânimo, seguida de uma alta agressividade da parte de quantos oferecem um falso conforto, uma falsa segurança, na radicalização de posições.

A angústia é real. Por toda parte, vejo-me cercado de amigos que estão se divorciando, de colegas de ambos os sexos discutindo os meios anticoncepcionais mais seguros para evitar a gravidez ou a transmissão de doenças sexualmente transmissíveis, de defensores ou praticantes do aborto, de amigos devastados por um filho que assumiu a sua homossexualidade, ou de jovens que, tendo-se reconhecido como pessoas com fortes inclinações homossexuais, experimentam o desamor e desenvolvem uma raiva surda de Deus, de si mesmo e da sua família, que não é curada, senão muitas vezes agravada, pelo eventual “assumir-se gay”, ou “sair do armário”. Tudo parece banalmente normal. Além disso, vejo tantos adolescentes que se orgulham das suas próprias inclinações heterossexuais, e vivem-nas sob o incentivo aliviado dos pais, sexualizando-se em tenra idade – seja numa relação estável que eles chamam de “namoro”, mas que envolve as práticas sexuais mais diversas e constantes, conduzidas em meio à anticoncepção artificial e o aborto, seja no jogo de conquistas e desprezos em que o “poder sexual” de ambas as partes é louvado em conversas, em festas e em canções de péssima qualidade musical, mas aparentemente onipresentes. A programação da TV e dos cinemas parecem apostar num entusiasmo incessante com a “quebra de tabus”, sexuais ou não, e os únicos palavrões cuja pronúncia está absolutamente vedada são o pudor e a castidade, vistos como sinônimos de puritanismo, repressão e intolerância. Em toda parte, a discussão centra-se na necessidade de “educar as crianças e os jovens” para conviver de modo supostamente mais tolerante e menos preconceituoso com a sexualidade, própria e alheia, em tempos de “rompimento de tabus”. A busca de felicidade é rebaixada à busca de prazer sensorial e qualquer tipo de compromisso ou relação com o outro que não se apresente como manifestamente sexual, ou que implique algum compromisso que de algum modo impeça essa busca com outra ou outras pessoas, é denunciada e desmascarada como hipocrisia.

Por outro lado, nunca houve tanta oferta e consumo de sexo no mercado econômico. A prostituição é banalizada no cinema e na TV, a pornografia gira bilhões de dólares. Num tempo em que paradoxalmente o acesso ao sexo casual é simplesmente banal, é surpreendente que o ato sexual mais regularmente praticado seja, sem dúvida, a masturbação – a ponto de ser opinião quase unânime, nas conversas que ouço, a dos que duvidam que existam seres humanos que não se masturbem ao menos casualmente.

Os filhos são, então, submetidos a uma suposta necessidade de submeter-se a uma educação escolar que lhes ensine a “conviver com as diversas propostas de família” para que nenhuma criança se sinta discriminada ou infeliz, e ensinados bem cedo quanto aos “cuidados” antirreprodutivos ou sanitários que devem adotar nas suas próprias vidas sexuais precoces; estão, em verdade, sendo ensinadas, na maioria das vezes, a lidar com a desordem sexual dos seus pais, ou a de viver desordenadamente a sua própria sexualidade.

Isto enquanto juristas e juízes de diversas matizes sentem-se cada vez mais justificados com a própria consciência quando defendem a diluição da situação matrimonial em favor de outras relações, similares ou não, em nome do avanço institucional do direito, do ordenamento jurídico. Qual a próxima vanguarda? Em pauta, estão o poliamor, o incesto, a pedofilia e a zoofilia, esta última agudizada pela recente propagação, na mídia, em tom de festejo, de que há mais animais domésticos do que filhos nos lares do país, e que provavelmente estes animaizinhos estão recebendo uma parcela do orçamento familiar maior do que os filhos.

Esta é uma situação que tornou as pessoas mais felizes? Não me parece. Mas há um certo discurso que equipara “felicidade” com “autenticidade”, e que declara que os nossos antepassados eram meros hipócritas reprimidos, enquanto nós estamos caminhando para uma sociedade mais “autêntica”, mas “sincera”, e portanto mais verdadeira. Mas sinceridade nunca foi sinônimo de verdade, e autenticidade nunca foi a pura e simples antítese da hipocrisia: podem ser, e na maioria das vezes o são, meros sintomas de psicopatia.

Curiosamente, nestes mesmos dias, um dos meus bons amigos, que circunstancialmente é homossexual assumido, jogou-me na cara o fato de que o termo “heterossexual” tem, filologicamente, a mesma origem e a mesma idade que o termo “homossexual”: nasceu nos finais do século XIX, no contexto das ciências sociais e psicológicas, para designar as pessoas que, permanente ou primariamente, identificam-se como portadora de desejo sexual por outras de sexo diverso; pesquisei, e ele está certo, linguisticamente. De fato, não é um termo que existe na Bíblia, nos Concílios, nos escritos dos Padres e Doutores da Igreja, como tampouco o é o termo “homossexual”. Assim, ele me disse, de modo razoavelmente agressivo que essa “heteronomia”, entendida como o poder hegemônico das pessoas heterossexuais nas nossas sociedades e nas nossas religiões, é um construto ideológico, burguês e capitalista, e um construto bem recente, e que merece, na opinião dele, ser destruído.

Eu apenas disse ao meu amigo que a palavra “heterossexual”, com a denotação que ele trouxe, não representa de fato nenhuma doutrina bíblica ou eclesial sobre a retidão no sexo. Nem representa uma “postura santa” frente ao sexo, se ela serve simplesmente para descrever alguém cuja identidade consiste em desejar ou relacionar-se majoritariamente com pessoas de outro sexo, ainda que mediante fantasias autoeróticas. De fato, para nós, o sexo santo, no sentido genital, existe apenas como circunstância de um sacramento específico, um sacramento de serviço, que é o matrimônio. É certo que existe uma realidade natural boa de família, para os não-cristãos, fora do sacramento (o que se explica pelo princípio escolástico “gratia non destruit naturam sed perficit”, mas a graça só pode aperfeiçoar aquela natureza capaz de receber o aperfeiçoamento, e o simples fato de poder ser aperfeiçoada pela graça aponta para a conclusão de que a natureza, mesmo quando objetivamente ordenada, traz em si uma imperfeição, quando não dirigida a Deus). E cujos objetivos cumulativos são a complementariedade, a exclusividade e a estabilidade para a abertura, mesmo potencial, à vida, ou seja, a fecundidade capaz de ao menos potencialmente ensejar uma prole, para o bem de todos. Fora disso, qualquer desejo sexual, de natureza homo, hetero ou autossexual, traz a marca da desordem, e não pode receber consentimento. Porque é incapaz de encaminhar a pessoa à felicidade.

Se a palavra “heterossexual” foi inventada ou está sendo usada para definir e legitimar moralmente a centralidade da identidade humana em qualquer desejo sexual pelo sexo oposto, como se a relação sexual, o mero prazer sexual, fosse o centro legitimador da família, ela está sendo usada de forma profundamente errada, de fato. Traz em si a marca da ideologia de gênero. Mas isto não diz nada sobre a legitimidade do próprio matrimônio santo, natural ou sacramental, nem sobre a verdade da vida célibe consagrada a Deus.

A palavra “heterossexual”, se usada para legitimar a ideia de que simplesmente desejar prazeres sexuais com pessoas de sexo diverso é, de qualquer modo, superior moralmente a desejá-lo com pessoas do mesmo sexo, é enganosa, falsa mesmo. Não tem conteúdo cristão. Quem não está numa situação matrimonial de complementariedade, exclusividade e potencial fecundidade, unida pelo vínculo sacramental, é chamado à continência e à castidade. E mesmo numa relação assim, a centralidade nunca esteve no desejo sexual, mas na complementariedade que implica essencialmente abertura, potencial acolhimento fecundo à vida como um serviço prestado à humanidade.

A santidade, como sinônimo de sanidade, de saúde, de “sanité”, consiste em submeter seus impulsos ao domínio consciente de sua vontade, de sua prudência; fazem-no os que são livres. E podem ser livres os que têm inclinações neste ou naquele sentido. Não são as meras inclinações que determinam o valor da pessoa humana. Este fato, que a Igreja proclama desde sempre, deveria servir para diminuir a dor de quantos descobrem em si mesmo, ou em seus filhos, inclinações neste ou naquele sentido.

Mas os que, inversamente, submetem pura e simplesmente sua vontade aos seus desejos são, em alguma medida, escravos, e sua alforria só pode vir pela graça. E todos nós o somos, em alguma medida. No entanto, a liberdade jamais será alcançada pela mera ideia de que a elevação de um ideal é a causa da hipocrisia, e por isso os altos ideais seriam, em si mesmos, detestáveis. Isto é o que parece subjazer em toda desconstrução de ideais em nome do combate à hipocrisia. Não há, aí, nenhuma sanidade, e portanto nenhuma santidade.