O pontificado de Bergoglio, a renúncia de Ratzinger, os desafios da Igreja hoje, o Sínodo de outubro: tudo na entrevista com o prefeito da Casa Pontifícia

Roma, 20 de Julho de 2015 (ZENIT.org)

As salas do vaticano impressionam. Ao contrário do que acontece com os aparelhos de televisão, lá tudo é maior do que se vê nas imagens: a porta de Santa Ana, o Palácio Apostólico, as majestosas escadarias, o Átrio de São Dâmaso… Magnificência histórica – com cantos de mais de 500 anos –; esplêndido, mas – diferentemente do que alguns insistem em dizer – sem ostentação: eu diria que exatamente o oposto. Mons. Georg Gänswein (1956) nos recebeu em uma dessas salas: não muito grande, vermelha, bem iluminada, antiga, elegante. Como elegante é sempre o comportamento desse monsenhor.

Perguntei se o incomodava o fato de alguns o conhecerem como o “George Clooney do Vaticano”, e riu: “Sinceramente, no começo tive que procurar na Internet quem era e falei pra mim mesmo: ‘Oh!’. De qualquer forma, não exageremos…; sim ouço coisas, mas deixo passar e, com o tempo, desaparecem”. Sem a arrogância que talvez se esperaria de alguém com a sua posição, tão próximo de duas das pessoas mais influentes do mundo. Simples. Pedi desculpas pelo meu itanholo, mas ele me disse que o seu é italemão. Na minha opinião ele fala a língua de Dante com grande distinção e que os mais de vinte anos na Cidade Eterna – chegou em 1993 – certamente são causa disso. Em 1996, colocou-se nas mãos de Joseph Ratzinger, na Congregação para a Doutrina da Fé e, desde 2003, como seu secretário pessoal, cargo que manteve quando o cardeal virou o Papa Bento XVI. Em 2012 foi nomeado prefeito da Casa Pontifícia, e com o novo pontificado, Francisco o confirmou no cargo. Era o ano 2013, bem no mês do intenso calor para Roma, mas não para o Papa Bergoglio: 31 de Agosto. Então, Mons. Gänswein é, hoje, a única pessoa na história da Igreja que serve dois papas ao mesmo tempo. Digamos que mora com o alemão – celebram Missa juntos, rezam o terço, caminham trinta minutos todos os dias… – , e, pela tarde, trabalha com o argentino. 

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Como é que você faz para colaborar com dois papas? Sem dúvida não é tão fácil adaptar-se a duas personalidades tão diferentes.

Mons. Georg: Realmente são muito diferentes; e, para mim, passar de uma longa experiência como secretário do cardeal Ratzinger, e Bento XVI depois, a trabalhar com o Papa Francisco, não foi nada fácil. Digamos que, usando uma linguagem informática, tive que “fazer-me compatível”, porque realmente foi uma mudança muito intensa. Recebi o cargo de prefeito, que depois Francisco quis confirmar, e o que fazemos – meus colaboradores e eu – é servir. E é isso. Como? Depende muito das coisas e da forma em que cada Papa guia a Igreja. No entanto, devo dizer que há uma grande vantagem em tudo isso: viver e colaborar com dois papas, esta diversidade, ajudou-me e me ajuda a crescer, a trabalhar-me: humana e espiritualmente.

Por acima das diferenças físicas – sapatos, cruz, etc. – , às vezes parece que até mesmo no que dizem pode haver distâncias.

Todas essas historinhas do início do pontificado – se usava os sapatos pretos, se a cruz peitoral era de prata,…; são secundárias: coisas externas, modos de fazer. Se olhamos um pouco melhor o conteúdo, vemos que na forma de exercício do munus petrinum há uma grande continuidade com seu antecessor. E assim tem que ser. Falamos de um sul-americano e um alemão, muito diferentes entre si. O primeiro foi educado e formado em uma espiritualidade jesuíta e é lógico que o seu modo de fazer, de pensar e também de exercer o seu mandato seja diferente do de alguém que teve uma formação sobretudo acadêmica e universitária.

Muitas vezes, Francisco me lembra João Paulo II

Mons. Georg: Sim, pode ser. Os dois, apesar de terem chegado à Sé de Pedro com vinte anos de diferença, vinham com uma experiência pastoral enorme, embora em um contexto político e cultural muito diferentes. O Papa Francisco, tendo guiado uma diocese tão grande e nada fácil, com Buenos Aires, e São João Paulo II, à cabeça de uma Igreja de Cracóvia que, naquele momento, era o único lugar que era possível expressar-se com liberdade. Acho que nisso poderemos compará-los. Também em alguns aspectos da sua personalidade.

Como quais?

Mons. Georg: Francisco, por exemplo, fala muito da ‘cultura do encontro’: encontrar-se com as pessoas, quanto mais melhor. João Paulo II não falava explicitamente desta cultura, mas colocava-a constantemente em prática. Neste contato com os demais, também o contato físico, que comove dos dois papados.

Certa vez escutei: “João Paulo II é o Papa da esperança; Bento XVI, o Papa da fé; Francisco, o Papa da caridade”. Você acha que, embora simples, pode ser uma boa análise da realidade?

Mons. Georg: Bem … é difícil resumir um pontificado inteiro. Sempre que se tenta contrair uma palavra um pouco complexa corre-se um risco. Eu diria que o Papa Francisco é o papa dos gestos e o papa da misericórdia, não? Ainda estamos em plena viagem, mas, tendo passado dois anos, parece-me que o “Papa dos gestos”, pelo menos dá uma certa ideia.

Com esta perspectiva temporal que você fala, o que significa realmente, para Bento XVI, ser “peregrino na terra”?

Mons. Georg: “A fase final da peregrinação terrena”, disse ele em seu último discurso como Papa em Castel Gandolfo. E antes tinha dito que nem descia da cruz e nem abandonava o Senhor. Subiu ao monte para rezar, e continua rezando pela Igreja e o seu sucessor. Seu papel, agora, é espiritual: rezar pela barca de Pedro. Acho que seja importante lembrar que a Igreja não é governada só com decisões e estratégias, mas, especialmente, com a oração. Na Igreja somos uma equipe de oração – um time de oração – , e somos conscientes de que quanto mais pessoas rezem, melhor, porque isso guia a barca de Pedro. Como ‘peregrino’, o Papa emérito tem um papel especial neste ‘time’. 

Alguns ainda não entendem a renúncia e a veem, sim, como uma estratégia para bloquear tentativas de causar qualquer dano

Mons. Georg: Poderíamos escrever um livro inteiro de hipóteses e teorias sobre o assunto!… O Papa Bento XVI, naquele 11 de fevereiro, leu uma breve e claríssima declaração, na qual expunha os seus motivos. Tudo que esteja fora daí, tudo o que se falou, é isso: hipóteses que não têm nenhum tipo de fundamento. Se houveram pessoas ou correntes contra Bento, não tem nada a ver com a renúncia. É óbvio que uma pessoa como ele tenha refletido muito e por muito tempo em uma questão de tal magnitude. Não se deixou intimidar por ninguém. Foi muito claro na entrevista com Peter Seewald: “Quando existem lobos, quando há o perigo, o pastor não deve deixar seu rebanho”. Não o fez, portanto, e não o fez nunca; não é uma fuga. Esta é a verdade, e é a única explicação sobre o porquê da sua renúncia.

Alguma vez você falou dos frutos desta renúncia. Quais podem ser?

Mons. Georg: O Papa Bento viu que, para guiar a Igreja de hoje, é preciso força espiritual e também força física. É um ato de grandíssima humildade renunciar o papado para dar o lugar para outra pessoa mais jovem e mais forte. Parece-me que é um grande exemplo de amor ao Senhor e à sua Esposa que é a Igreja; um exemplo que nem todo o mundo pode ou quer compreender. Depois, olhando um pouco o pontificado do Papa Francisco, vemos que a imagem da Igreja mudou para melhor. Bento XVI deu o primeiro passo em direção a esta mudança: abriu a porta dessa maneira. Acho que já dá pra ver os frutos, e acho que veremos mais no futuro.

De qualquer forma, para você, esses dias de fevereiro de 2013 não devem ter sido precisamente tranquilos: muitos sentimentos encontrados

Mons. Georg: Sem dúvida. Para mim, foram dias muito difíceis, mas já do momento em que o Papa me disse o que ele queria fazer, muitos meses antes. Naturalmente, tive que ficar em silêncio e, como você pode imaginar, exigia um grande esforço da minha parte. Aquele famoso 11 de fevereiro e, depois, o 28… Vinham-me sentimentos de gratidão, mas também de…, de… tristeza, de…; também de algo comparado a uma espécie de duelo. Mas, a decisão tinha sido tomada pelo santo padre e era uma decisão consciente, coram Deo, e, portanto, que eu só podia respeitar e seguir.

Por que você acha que Joseph Ratzinger o escolheu como secretário?

Mons. Georg: Que pergunta! Ele tinha 75 anos e estava convencido de que João Paulo II iria aceitar a sua renúncia… Eu já trabalhava na Congregação para a Doutrina da Fé e o seu secretário recebeu um novo cargo na Congregação para a Vida Consagrada. O cardeal precisava de alguém que fosse o seu secretário e me escolheu. Nunca me explicou porquê e nunca o perguntei. Me surpreendeu, sim; mas tomou essa decisão e eu aceitei.

Suponho que você ficou mais surpreso ao ver que o seu cardeal virava papa…

Mons. Georg: Sim Sim. Claro. Eu nunca teria imaginado, e acho que menos ainda o próprio cardeal. Escolheram-no. Ele queria retirar-se, mas o seu futuro mudou completamente! Aceitou a eleição como Papa porque viu nisso a vontade de Deus. E eu me transformei no secretário do Papa. Também esses dias foram para mim como um tsunami. Momentos muito “movimentados”, como você pode imaginar.

Com o novo papa, em algum momento você pensou que deixaria de ser prefeito da Casa Pontifícia e, portanto, sua vida seria um pouco mais “calma”?

Mons. Georg: Na verdade não. Não porque tivesse a certeza de que ele me confirmaria no cargo, mas porque não estava preocupado. Por isso, nem sequer pensei nisso, nem tive medo da mudança. É normal que o Papa, quando queira, quando veja oportuno, mude a sua equipe. Em 2013 decidiu manter-me no cargo, e aqui estou. Agora só penso em servi-lo da melhor forma possível.

Na sua opinião, assim como o Papa Ratzinger deu muita importância à luta contra o relativismo, qual é o ponto mais importante do papa atual?

Mons. Georg: A questão da verdade é sempre importante e acho que o papa Francisco também vê dessa forma. Não é que não esteja interessado pela luta contra o relativismo, mas vê claramente que Deus, no seu pontificado, pede que se concentre em outros pontos, em outros desafios. Ele gosta muito de falar de uma ‘Igreja missionária, pobre’; de uma Igreja como ‘hospital de campanha’ ou ‘igreja que em saída’. É nestes ambientes que o Papa Francisco está atualmente lutando.

Outra das questões que têm presente é da família. Por que você acha que deram tantas notícias confusas sobre o último sínodo e daquele que será celebrado em outubro?

Mons. Georg: Há pessoas que escrevem ou escreveram sem estar bem informadas ou preparadas e, existem ‘correntes’ nesta linha. Por isso é tão importante que os pastores da Igreja e todos os fieis tenham as ideias e o conteúdo claros, e o expliquem com franqueza e sinceridade. O sínodo de outubro deve partir não de um problema particular, mas da temática principal, a evangelização e a família. Está claro que a Igreja não fecha os olhos perante as dificuldades dos fieis que vivem em situações complicadas. No entanto, deve fornecer respostas honestas orientadas, não pelo espírito dos tempos, mas do Evangelho, da Palavra de Jesus Cristo e da tradição católica.

Onde estão os desafios atuais neste campo?

Mons. Georg: Um muito claro são os cristãos que estão em situação matrimonio, falando teologicamente, ‘irregular’. Ou seja, pessoas divorciadas novamente casadas civilmente. Devemos ajudá-las, certamente, mas não de forma reducionista. É importante aproximar-se delas, criar e manter o contato, porque continuam sendo membros da Igreja, como todas as demais: não foram expulsas e nem sequer excomungadas. Isso não implica que não exista problemas com relação à vida sacramental. A Igreja tem que ser muito sincera, também com os fieis que vivem nesta situação. Não se trata de dizer: “podem ou não podem”; é um tema que teria que ser visto de forma positiva. A questão do acesso à vida sacramental deve ser enfrentada sinceramente, sobre a base do magistério católico. Espero que nos meses de preparação do sínodo se apresentem propostas que ajudem e sirvam para encontrar as respostas necessárias para estes duros desafios.

Algumas dessas controvérsias vêm da sua terra natal, Alemanha. Por quê?

Mons. Georg: Bem… É verdade que nem todos os erros vêm de lá estão lá, mas sim, concretamente neste ponto que estamos tratando: há vinte anos, João Paulo II, depois de um diálogo longo e trabalhoso, não aceitou que os cristãos que casaram novamente pudessem ter acesso à Eucaristia. Agora não podemos ignorar o seu magistério e modificar as coisas, sem mais. Por que alguns pastores querem aceitar o que não é possível? Não sei. Talvez cedam ao espírito dos tempos, ou se deixem levar pelo aplauso humano que provocam os meios de comunicação…; não sei. Ir contra-corrente geralmente é mais desagradável. Mas um pastor não deve tomar decisões baseadas nos mais ou menos aplausos que possa receber dos meios de comunicação; a medida é o Evangelho, a fé, a sã doutrina, a tradição.

Por que você acha que esses meios de comunicação que cita se expressam pouco ou nada com relação aos cristãos perseguidos? O Papa está sozinho?

O papa tem sido muito claro sobre este ponto e, apesar de tudo, as grandes instituições não dizem nada ou, se dizem, fazem-no com pouca força. E isso é muito grave. Trata-se de um comportamento inaceitável. No momento, o papa é a única voz que tem a coragem e a força para falar e dizer as coisas como são, e não acho que tenha medo, nem que busque o aplauso das pessoas. Como São Paulo, intervém oportuno et importune.

O dia a dia do Papa é intenso e, portanto, deduzo que o seu também; já não tem tempo para jogar tênis, que é o que você gostaria, ou dedicar-se à universidade… Teria desejado outra vida?

Mons. Georg: Devo dizer-lhe que eu nunca me fiz esta pergunta. Porque nunca pedi: “quero fazer isso, isso, ou isso…”. Se recebi um trabalho, o aceito. O Papa Bento pediu-me algo, então eu o aceitei e o faço de bom grado. E o mesmo com o Papa Francisco.

Você está ciente do momento histórico que está vivendo?

Mons. Georg: Percebo que a minha situação é, de fato, bastante particular. Mas não vejo isso como algo extraordinário. É um desafio particular, mas vivo-o com naturalidade e tranquilidade. Procuro viver com coerência e responder os desafios cotidianos com grande confiança em Deus. Isso não tira, claro, que ás vezes tenha que conviver com alguma “pulsação” a mais…, mas sempre com serenidade.

Daqueles dias de juventude – você com cabelo comprido (risos) – até hoje, o que diria Georg Gänswein de sua vida?

Mons. Georg: Quando olho em perspectiva, também rio um pouco de tudo…; teria 18, 19 anos e, naquela época – último ano de instituto e começo do seminário – estava de moda: não era o único! O meu pai não gostava e provocava pequenos momentos de tensão… Mas, pessoalmente, sempre me serviu um princípio de vida: ‘confia, mas olha quem’. E outro, que em alemão se diz: Tue Recht und Scheue niemanden. Isto é, ‘Faça o que você acha certo e não tenha medo de ninguém’.

A entrevista com mons. Gänswein foi publicada em espanhol e catalão em  www.sumandohistorias.com/author/jaumefv/ . A tradução ao português é de ZENIT.