D. Jorge Ortiga não aceita uma Igreja impedida de fazer política

O Arcebispo de Braga não aceita a ideia de que a Igreja não possa fazer política, no sentido de se abster de assumir publicamente posições que apontem para soluções e consequências sociais que têm por objectivo último o bem-comum. Esta foi uma das ideias centrais da intervenção que D. Jorge Ortiga proferiu, no dia 9, na qualidade de presidente da Comissão Episcopal da Pastoral Social, na abertura do XXIX Encontro da Pastoral Social, que hoje encerra em Fátima.

 

D. Jorge Ortiga defendeu a ideia de que a missão da Igreja tem de se vincular a um compromisso social para que assim possa atingir a plenitude.

Citando a exortação apostólica “Evangelli Gaudium”, o Arcebispo Primaz recorda que a proposta da Igreja “é o reino de Deus (cf. Lc 4, 43); trata-se de amar a Deus, que reina no mundo. Na medida em que Ele consiga reinar entre nós, a vida social será um esforço de fraternidade, de justiça, de paz, de dignidade para todos. Por isso, tanto o anúncio como a experiência cristã tendem a provocar consequências sociais”.

Por isso, acentua o presidente da Comissão Episcopal da Pastoral Social, “a missão da Igreja não se esgota na proposta de uma relação pessoal com Deus. Ela é, decerto, a raiz de uma árvore frondosa. Tudo parte de um centro mas não se encerra nesse centro. Abre-se e exige que o amor de Deus seja considerado incompleto e inconsequente se não se expressar nas obras do mesmo Deus: as pessoas e o mundo criado”.

No entendimento de D. Jorge Ortiga “uma perspectiva legalista (da Igreja) que força o Homem a praticar determinadas acções para tranquilizar a sua consciência é manifestamente insuficiente e até indesejada”. É que, sustenta, “ninguém se encanta com uma caridade por receita”. Antes, o Evangelho “reclama a criatividade de algo capaz de abraçar a vida como um todo e não apenas alguns aspectos singulares, como as circunstâncias de carência material”.

E porque a mensagem cristã tem por finalidade “construir o Reino de Deus pela contínua transformação das realidades terrestres e pela promoção inclusiva da dignidade humana”, D. Jorge Ortiga sustenta que tal pressuposto “responsabiliza ainda mais a Igreja e impele-a a incidir a sua mensagem sobre todas as situações complexas da vida hodierna”.

  Por isto mesmo, o Arcebispo Primaz afirma não aceitar que se “diga que a Igreja não pode fazer política”. Até porque considera que “usam este argumento para impedir que ela intervenha nos problemas reais das pessoas”.

D. Jorge Ortiga assevera que a Igreja “nunca será fiel ao Seu fundador se não for capaz de edificar um Reino através de palavras e de diversas iniciativas e de colaborar com todas as forças do bem presentes na sociedade”. “Não somos os únicos, é certo. Somos parceiros nesta construção de um mundo novo”, acrescenta.

Dirigindo-se aos participantes do XXIX Encontro da Pastoral Social, o prelado recordou o desafio que se coloca a cada cristão para que seja “presença irradiante da perspectiva evangélica no meio do mundo, na família, na cultura, na economia, na política”. “O Evangelho nunca será Boa Nova sem esta visibilidade”, declarou D. Jorge Ortiga indicando que a mensagem cristã não pode ser colocada como “doutrina que favorece simples meditações intimistas” mas como sendo “uma força orientada para gerar uma sociedade nova”.

“Difícil? É a estrada para o hoje da Igreja”, concluiu o Arcebispo Primaz.

 

 

(Publicado em Notícias de Beja, em 18 setembro de 2014)