VATICANO, 03 Nov. 15 / 12:40 pm (ACI/Vatican Insider).- O Secretário da Comissão referente de Estudo e endereçamento sobre a organização das Estruturas Econômico-Administrativas da Santa Sé, Mons. Lucio Angel Vallejo Balda, e Francesca Immacolata Chaouqui foram presos no Vaticano.

 

A investigação conduzida pela Delegacia e a magistratura do Vaticano os identificou como os suspeitos do novo vazamento de documentos nos quais estão baseados dois novos livros que não foram publicados: “Avareza”, do jornalista italiano Emiliano Fittipaldi, e “Via Sacra” do seu colega do grupo Mediaset, Gianluigi Nuzzi.

 

Tanto o sacerdote espanhol Vallejo Balda como a italiana Chaouqui faziam parte (o primeiro como secretário e a segunda como membro) da Comissão de Estudo e endereçamento sobre a organização das Estruturas Econômico-Administrativa da Santa Sé (COSEA), instituída em julho de 2013, a fim de avaliar os documentos e as contas de todos os dicastérios e para sugerir reformas para a racionalização dos gastos e melhorar a gestão em conjunto.

Foi justamente Mons. Vallejo Balda, o número dois dentro desta Comissão que teria desaparecido depois da reforma da Cúria, quem propôs incluir Chaouqui nesta comissão. E, logo após a sua nomeação pontifícia, surgiram polêmicas e dúvidas com relação a sua pessoa: recordavam-se alguns “tuits” que haviam sido publicados sobre uma inexistente “leucemia” do Papa Bento XVI, e outras mensagens muito mais graves contra o então Secretário de Estado, Cardeal Tarcisio Bertone, e sobre o ex-ministro da economia, o italiano Tremonti. Chaouqui se defendeu dizendo que era vítima de falsas acusações, devido às invejas que foram suscitadas pelo seu novo cargo, e denunciou a violação da sua conta de Twitter.

Particularmente significativo, à luz da escandalosa notícia divulgada ontem, apareceu a conversação de Chaouqui com a jornalista Denise Pardo, publicada na página do jornal italiano “L’Espresso”, em 17 de setembro de 2013. Chaouqui dizia que tinha acesso “aos documentos mais reservados” e falou acerca da sua amizade com o jornalista Gianluigi Nuzzi. No final do trabalho da COSEA, foram criados dois novos órgãos a fim de centralizar, tornar mais transparente e otimizar a gestão econômico-financeira da Santa Sé: a Secretaria para a Economia e o Conselho para a Economia. Como encarregado da Secretaria, o Papa Francisco nomeou o Cardeal australiano George Pell, que até então era Arcebispo de Sidney e membro do “C9” (Conselho de Cardeais que ajudam o Papa na reforma da Cúria e no governo da Igreja universal). Como número dois do novo dicastério econômico, diziam que a nomeação de Vallejo Balda era fato. Inclusive, ele havia falado a respeito do argumento em uma entrevista radiofônica com uma emissora espanhola.

Surpreendentemente, no dia 3 de março de 2014, no lugar de Mons. Vallejo Balda, Francisco nomeou como membro da Secretaria para a Economia, o seu segundo secretário particular, o maltês Alfred Xuereb, que o novo Papa herdou do anterior e que serviu a Ratzinger ao lado de Dom Georg Gänswein durante o último período do seu Pontificado. Além disso, ao novo Conselho para a Economia, composto igualmente por leigos e cardeais, confluíram cinco dos membros da comissão COSEA (o maltês Joseph F.X. Zahra, o francês Jean-Baptiste de Franssu, que depois foi convertido em Presidente do IOR, o espanhol Enrique Llano Cueto, o alemão Jochen Messemer e o ex-ministro do Exterior de Singapura, George Yeo). Francesca Immacolata Chaouqui ficou excluída.

Mons. Vallejo Balda, definido por Francesca Chaouqui como “o melhor ecônomo” da Igreja, depois de que fecharam a COSEA tinha voltado para seu cargo de secretário da Prefeitura de Assuntos Econômicos, que na ocasião era dirigida pelo Cardeal Giuseppe Versaldi, que depois foi renomeado Prefeito da Congregação para a Educação Católica. Vallejo Balda e Chaouqui voltaram a chamar a atenção em abril de 2014, quando organizaram uma recepção no terraço da Prefeitura de Assuntos Econômicos da Santa Sé para 150 celebridades, convidadas a fim de poder seguir do alto a canonização de João XXIII e João Paulo II.

A respeito deste tema, a Santa Sé emitiu um comunicado ontem:

O quadro das investigações da polícia judiciária realizadas pela Gendarmaria vaticana e iniciadas há alguns meses a propósito da subtração e divulgação de notícias e documentos reservados, sábado e domingo passados duas pessoas foram convocadas para ser interrogadas a partir dos elementos que vieram à tona e das evidências alcançadas.

Trata-se de um eclesiástico, Mons. Lucio Angel Vallejo Balda, e da Dra. Francesca Chaouqui, respectivamente, ex-secretário e ex-membro da COSEA (Comissão referente de Estudo e endereçamento sobre a organização das Estruturas Econômico-Administrativas da Santa Sé, instituída pelo Papa em julho de 2013 e sucessivamente desfeita após o cumprimento do mandato).

Após interrogatório, as duas pessoas em questão foram mantidas em estado de detenção em vista do prosseguimento das investigações.

Ontem o Escritório do Promotor de Justiça, nas pessoas do promotor de Justiça Gian Piero Milano, e do promotor de Justiça adjunto Roberto Zannotti, convalidaram a detenção dos mesmos, providenciando a liberação da Dra. Chaouqui, em seu caso, não apresentando exigência cautelar, inclusive por motivo de sua colaboração nas investigações.

A situação de Mons. Vallejo Balda permanece sob apreciação do Secretaria do Promotor de Justiça.

Deve-se recordar que a divulgação de notícias e documentos reservados é um delito previsto pela Lei n. IX do Estado da Cidade do Vaticano (13 de julho de 2013) art. 10 (art. 116 bis c.p).

Quanto aos livros anunciados para os próximos dias, deve-se dizer que também desta vez, como no passado, são fruto de uma grave traição da confiança do Papa e, no que tange aos autores, de uma operação para voltada a obter vantagem de um ato gravemente ilícito de entrega de documentação reservada, operação cujos desdobramentos jurídicos e eventualmente penais são objeto de reflexão por parte do Escritório do Promotor em vista de eventuais ulteriores providências, recorrendo, se for o caso, à cooperação internacional.

Publicações dessa natureza não contribuem de modo algum para estabelecer clareza e verdade, mas a criar confusão e interpretações parciais e tendenciosas.

É preciso absolutamente evitar o equívoco de pensar que este seja um modo para ajudar a missão do Papa.