O lema que se tornou ícone da crise estudantil de França, na década de 60, que teve como um dos ideólogos, o existencialista ateu francês Jean Paul Sartre e o alemão Cohn-Bendit, está condensado na frase “É proibido proibir”, agora bandeira e estandarte que alastrou a muitos mundos, a este país também, influenciando a crise de 69 e o próprio 25 de Abril, incluindo o meio militar e aqui, essencialmente, os oficiais do quadro, porque os feitos à pressa, vulgo milicianos, de há muito tempo antes estavam de costas voltadas para o regime derrubado.

A partir daí a pirâmide da obediência e hierarquia esboroou-se, progressivamente, começando pela base e nunca mais o mundo foi o mesmo; as instituições tradicionais, como a família, desagregaram-se, e, tempo após tempo, desfizeram-se em estilhaços em todas as direcções.

Todos os tipos de autoridade foram contestados, uns de forma suave, mas outros da raiz ao topo.

A autoridade parental, esfumou-se e a figura dos pais passou a ser encarada como fonte de opressão e de constrangimento, antiquada face ao fervor da ideologia a esvoaçar, à espera de entrar em cada lar, como o vento cortante, frio e dilacerante do norte em plena quadra de invernia severa pela frincha da parede de sustento.

O cenário de crise de autoridade foi potenciado pelos fautores de opinião, para quem o poder parental – agora chamado de responsabilidade parental – é sinal de trauma e que faz estiolar o desenvolvimento da personalidade dos rebentos; é preciso explicar-lhes, quase peticionar em jeito de súplica, pedir-lhes perdão amiúde, para a presença dos progenitores ser, no máximo, tolerável. E na escola o mestre, agora com a missão de ensinar, e não já de co-educar, com os pais, tornou-se na mente dos fautores de opinião, os ditos intelectuais, vale e é apreciado na medida da máxima liberdade que consente, bem podendo encetar a preparação para ataque selvagem e sem distinção, porque não há diferenças, dos progenitores, tão aturdidos como aqueles.

Claro se torna nessa hipocrisia metastizada que os ditos intelectuais não permitem no seio do aparelho familiar aquilo que apregoam; controle sistemático e constante dos caminhos que os seus meninos seguem, amigos que possuem, horários supervisionados, proibição de frequência de ambientes deletérios, tudo isto envolto numa voragem de promoção ilimitada e desejo de serem ocupantes dos picos de excelência.

Entretanto, os pais cederam às exigências materiais dos filhos, vergaram-se perante a autoridade que em crescendo foram incrustando inspirando-lhes temor e cumularam-nos de honrarias e benesses na expectativa, cómoda, de conviverem, ao menos, à margem de maior conflitualidade.

E essa juventude, que é a quase totalidade de hoje, erigiu-se em tiranete, que se não vergasta os seus progenitores, não pára de exigir, voltada exclusivamente para si, cultora de um egoísmo feroz, de um exacerbado narcisismo, de um sentimento de impotência face à frustração, que ajoelha face à dificuldade como o touro na arena depois de recebido a estocada de morte, voltada cegamente para o imediatismo e para o prazer, o sexo, álcool e droga, que os destrói e família, sem ética, nem princípios e nem valores de referência.

Tudo é permitido desde que não permitido, mas a proibição, se for de admitir, há-de reconduzir-se ao mínimo dos mínimos.

E essa anomia, por exemplo, justifica muito da violência no namoro, o que ainda há uns anos era impensável, mas que hoje se pratica em larga escala, de forma absolutamente condenável, como justifica a encoberta violência física e psíquica dos filhos sobre os pais.

E essa dispersão qualitativa daqueles elementos desvaliosos no contexto personalístico de deriva, faz dos nossos jovens seres insatisfeitos, sem rumo à vista, tristes, desiludidos, rebeldes, incapazes de compromisso, dúbios, apáticos oscilando à moda e à influência como uma cana flagelada pelo vento mordaz do deserto.

Mas, anote-se que, agora, de há uns poucos anos a esta parte, aquele axioma do trauma para os meninos, muito baseado no estandarte da crise estudantil dos anos 60 em, França, de que é proibido proibir, começa a diluir-se. Agora nos “media” já surgem os cultores de sentido inverso, quiçá bebendo nos iluminados do país vizinho, também eles flagelados pela desgraça.

E agora já se afirma à boca cheia que à tibieza do passado deve soerguer-se um braço forte, uma voz firme que não contemporiza quando o não deve, que tronitrua para fazer chegar a sua mensagem, que não teme, não arqueia as pernas e nem vacila perante os jovens que lhe são confiados.

À tibieza opõe-se, agora a firmeza; ao medo a coragem, mas tudo num clima de humanidade, compreensão, perdão e de afecto sem limite.

Mas se assim é, se nessa mudança lógica, racional e ética se pensa estar a construção de um mundo melhor pelos nossos jovens, se a ideologia livre e sem regras conduziu ao descalabro em que se está mergulhado, que nos quebrou a espinha e a vontade de protesto, parece que chegou a hora de desmascarar quem atirou os nossos combalidos pais para um fosso tantas vezes intransponível, eles já cansados por um pós-guerra, sem oportunidades para muitos, fome e censura absoluta, uma guerra do Ultramar, com milhares de mortos e estropiados, por uma Revolução de 25 de Abril, mal orientada por alguma gente que devia ter prestado contas à justiça.

A ver vamos. Mas denunciar é, mais do que nunca, preciso.

 

 

 

Escrito por Armindo Monteiro e publicado em Jornal da Família, maio de 2015