(por João Duque, em Boletim Português – Sociedade de S. Vicente de Paulo, agosto/setembro 2014)

 

Grande parte das culturas antigas orientava o seu modo de organização social pela mística do herói. O poder e a glória eram concedidos àqueles que os conquistavam, manifestando força e coragem para isso. Os mais débeis – os fracos da história – eram, em parte, considerados culpados pela sua derrota na vida e eram, por isso, atirados para as margens da sociedade ou, muitas vezes, mesmo eliminados. Por isso dizemos – embora certamente com outro sentido, mas… – que “dos fracos não reza a história”.

Grande parte das sociedades actuais – sobretudo as consideradas “capitalistas” em sentido radical – e grande parte do mecanismo da cultura dita global continua a seguir, basicamente, o mesmo esquema. Não incentivamos nós mesmos os nossos filhos a formarem-se para “vencer na vida”, considerando que a vida só vale a pena ser vivida se for acompanhada de êxito? E não consideramos, cada vez mais, como indigna uma vida em que somos derrotados – pela velhice, pela doença, pelo desemprego, pelo fracasso?

Nietzsche acusou o Cristianismo de ser a religião dos fracos e de estar, por isso, condenada ao fracasso. E em parte tinha razão. Não quanto ao fracasso do Cristianismo, mas quanto a colocar os “fracos” no seu centro; é claro que não completamente no sentido que lhe dava Nietzsche, mas sem dúvida como marca do modo como os cristãos veem o mundo.

Certa tradição judaica afirma, interessantemente, que o “êxito” não é nenhum dos nomes de Deus. Porque a vitória de Deus, em Jesus Cristo, não é a vitória do êxito e da heroicidade, mas a vitória do fracasso (aos olhos humanos). É na nossa debilidade que somos fortes, porque é aí que Deus oferece a sua salvação. Aos ricos, que já se consideram salvos pelo seu êxito, Deus nada precisa de dar, porque eles também não aceitariam. Para ser cristão, é preciso ser pobre, enquanto modo de estar na vida, na consciência da nossa condição débil de humanos e na consciência de que tudo o que temos é sempre dádiva imerecida.

Ora esta dinâmica fundamental cristã marca, necessariamente, o modo como nos relacionamos com os considerados “fracassados” na vida, a que podemos chamar genericamente pobres. Em primeiro lugar, na consciência de que, neles, se manifesta a própria condição humana, sem que sejam verdadeiramente culpados do seu fracasso. É certo que podemos encontrar muitas justificações e mesmo culpas pessoais para não terem vencido na vida. Mas, em última instância, qualquer humano, qualquer um de nós poderia estar nas mesmas condições (aliás, a presente crise tem mostrado muitos exemplos disso mesmo). Não sendo os pobres, em última instância, mais pecadores por serem pobres, são humanos como todos os outros (e todos são pobres, de certo modo), com a diferença de serem eventualmente mais castigados pela vida.

Daí surge o dinamismo da compaixão, muito próprio do espírito cristão. Não a compaixão enquanto sentimento de pena pelos “coitadinhos” dos mais fracos, mas enquanto profundo sentimento de sofrimento com o sofrimento dos outros, que é o sofrimento de nós todos, enquanto irmãos participantes de uma mesma humanidade. E assim como a condição sofredora de um meu irmão de sangue me afecta, o mesmo acontece com todo o humano, meu irmão em humanidade.

Assim sendo, a caridade não é um adorno do meu modo cómodo de viver, para me conferir alguns pontos perante Deus. A caridade é a única atitude verdadeira de um humano que claramente vê, sente e partilha a condição de todos os outros humanos, também ou sobretudo daqueles que estão mais próximos e que mais são atingidos pelo sofrimento. A dedicação aos pobres é, portanto, uma pragmática resultante da nossa própria verdade, se a entendermos em termos cristãos. O Cristianismo é, pois, a religião daqueles que, em verdade, se consideram débeis e fracos e que, na sua fraqueza, estão permanentemente abertos aos que ainda parecem eventualmente mais débeis (um pobre dá sempre algo a um pobrezinho, como dizia Guerra Junqueiro).

A prática deste modo de vida acontece, no quotidiano, sem grande alarido ou grandes campanhas de solidariedade. Cada um é chamado a cuidar do seu próximo (família, vizinho, colega de trabalho, mendigo…), não propriamente do mundo inteiro – o que seria outra forma de tornar esse cuidado irreal e abstracto (mais fácil, portanto). Cuidar do próximo mais débil, sobretudo quando esquecido pelas próprias estruturas sociais, é o que nos compete, em primeiro lugar. É aí que cada cristão realiza a sua vocação primordial.

Neste contexto, seja-me permitida uma observação em relação a certa solidariedade contemporânea. Somos permanentemente envolvidos por campanhas planetárias de solidariedade. Seremos nós, entusiastas dessa solidariedade mediática, solidários com o pobre real que vive ao nosso lado?

E as campanhas são, muitas vezes, apoiadas por figuras públicas – do género de uma rainha, como noutros tempos. Só que agora tudo se concentra em mostrar gestos solidários, em exibi-los mediaticamente, não tanto pelo seu efeito em relação aos pobres, mas sobretudo pelo contributo que dão para uma construção favorável da imagem da figura pública em questão. É certo que se trata de gestos que podem valer milhões (para quem…). Mas serão gestos de caridade simples, ou gestos interesseiros, ao serviço de outros poderes?

Em vez de mostrar, a Rainha Santa teve que esconder o seu gesto – esconde-lo do marido, como quem o esconde do público (que condena ou que louva, tanto faz). Porque a sua prática caridosa era simples e natural, como o ar que respirava. Essa sim, é a verdadeira caridade.

 

In “Mensageiro do Coração de Jesus”