Bispos chegaram a ser “acusados” de não apoiar o evento que reuniu 1 milhão de cidadãos em Roma contra a ideologia de gênero e a relativização do conceito de família

Cidade do Vaticano, 23 de Junho de 2015 (ZENIT.org)

Nos bastidores da conferência de imprensa em que foi apresentado o Instrumentum laboris do sínodo de outubro sobre a família, ZENIT conversou com dom Bruno Forte, arcebispo de Chieti-Vasto e secretário especial do sínodo.

Pedimos que ele comentasse sobre o evento realizado em 20 de junho por iniciativa da recém-criada Comissão “Defendemos nossos Filhos”, que reuniu em Roma cerca de um milhão de pessoas. A manifestação protestou pacificamente contra o projeto de lei Cirinnà, que pretende equiparar as uniões homossexuais ao matrimônio natural, e reiterou um sonoro “não” à ideologia de gênero, que, sutilmente, tenta se infiltrar nas escolas e na educação das novas gerações.

O ilustre teólogo apontou dois aspectos “positivos”, tendo em vista também a assembleia de outubro. O primeiro “é que foi um evento de leigos e famílias. Eu acredito que isto é coerente com a declaração de hoje, ou seja, de que o protagonismo deve ser dos leigos e das famílias quando se trata de questões que os afetam diretamente. E isto não significa que os bispos não concordem com o valor da família, e sim que é preciso redescobrir a ‘eclesiologia total’, o protagonismo de todos os batizados, que é um aspecto belo e positivo da Igreja”.

Segundo, “este evento não é ‘contra’ algo, e sim ‘a favor de’ algo. É a favor da família, que é um valor precioso para todos, inclusive para quem não crê; e a família tem um valor social, além de espiritual e humano. Como tal, ela deve ser apoiada com leis adequadas, que favoreçam a sua estabilidade, solidez, tantas vezes ameaçada por problemas cotidianos como a falta de trabalho, por exemplo”.

Para o arcebispo, o evento na Piazza San Giovanni foi “um grande sim à família como dom para todos”. Aos católicos que, em certo sentido, se sentiram “abandonados” pela Conferência Episcopal Italiana, dom Forte respondeu dizendo que, “em primeiro lugar, precisamos sempre lembrar a todos que ninguém é abandonado por Deus”. Além disso, “a CEI fez a escolha de respeitar o protagonismo dos leigos, o que, pessoalmente, eu considero uma escolha madura, de crescimento”.

Recordamos em seguida ao secretário especial do sínodo as palavras do cardeal Pietro Parolin após o referendo sobre o casamento gay na Irlanda. Falando sobre o resultado de 62% dos votos a favor do casamento homossexual, Parolin declarou: “Acho que podemos falar não só de uma derrota dos princípios cristãos, mas de uma derrota da humanidade”.

As declarações fortes despertaram polêmica e parecem contradizer o tom do Instrumentum laboris, que adota palavras suaves como “acolhimento” e “acompanhamento” de todos, especialmente dos que vivem situações familiares feridas ou anômalas.

Dom Bruno Forte nos respondeu: “Aprofundando as coisas, percebemos que não há disparidade alguma. São simplesmente modos diferentes de dizer a mesma coisa: que a família natural, fundada no matrimônio entre homem e mulher abertos à procriação, é a boa notícia que hoje queremos repropor ao mundo. Outras situações trazem consigo o reconhecimento de certos direitos, mas isto é um problema da sociedade civil e do Estado e não significa a equiparação dessas situações à família”.