As histórias de encantar terminam com um casamento e «foram felizes para sempre…». Mas na vida concreta é normal vacilar, ter medo e duvidar de que seja mesmo para sempre. A FAMÍLIA CRISTÃ foi à procura de apoios para os casais.

 

Manuel e Celina Marques são o casal presidente da Pastoral Familiar nacional. Estão casados há mais de 50 anos e sabem bem a importância do acompanhamento dos casais. Manuel admite que esta é uma das preocupações para o mandato que agora começam. «É importantíssimo, porque todos nós vamos para o casamento com uma ideia dele ou dela que depois não corresponde à realidade. Há desajustes, há desconsolos, há desconformidades. E se não tivermos um grupo de casais amigos com quem possamos partilhar e falar dos problemas, das nossas dificuldades e das nossas desilusões, entramos numa espiral de sofrimento, de dor». Manuel sabe do que fala. Experimentou na pele esta espiral «durante alguns anos». Por isso, o responsável da Pastoral Familiar reforça que tudo se resolve e atenua quando «temos ao nosso lado alguém, uma equipa que nos possa ajudar a rezar, a perdoar, a compreender».

O casamento é só feito de tristezas e dificuldades? É possível fazer crescer o amor e viver feliz para sempre? Sim, mas exige trabalho e vontade. O Papa Francisco diz que «um desafio da pastoral familiar é ajudar a descobrir que o matrimónio não se pode entender como algo acabado». Na Exortação Amoris laetitia, o Santo Padre salienta que os esposos não são perfeitos e, por isso, o matrimónio deve ser construído dia a dia. No documento que saiu do Sínodo dos Bispos, o Papa pede empenho das paróquias e dos fiéis no acompanhamento dos jovens casais. Sugere «reuniões de casais vizinhos ou amigos, breves retiros para casais, conferências de especialistas sobre problemáticas muito concretas da vida familiar, centros de aconselhamento conjugal, agentes missionários preparados para falar com os casais acerca das suas dificuldades e aspirações, consultas sobre diferentes situações familiares (dependências, infidelidade, violência familiar), espaços de espiritualidade, escolas de formação para pais com filhos problemáticos, assembleias familiares». Às comunidades paroquiais, Francisco pede que não desperdicem oportunidades de acompanhar os casais. Devem, pois, ser aproveitados o «batismo de um filho, Primeira Comunhão, quando participam num funeral ou no casamento de um parente ou amigo». E há iniciativas que se podem “inventar” como «bênção das casas ou a visita de uma imagem da Virgem» ou «confiar a casais mais maduros a tarefa de acompanhar casais mais recentes da sua própria vizinhança, a fim de os visitar, acompanhar nos seus inícios e propor-lhes um percurso de crescimento».

Se todos defendem que é preciso apoiar os casais, por que razão isso ainda não acontece? Manuel Marques admite que «as estruturas da Pastoral Familiar não têm sabido ou não têm conseguido agarrar isso». É um sector pastoral relativamente recente e faltam estruturas e pessoas formadas. Manuel e Celina foram responsáveis pela Pastoral Familiar da diocese do Porto. Aí foi feito um caminho. Os casais que contraíram matrimónio nos cinco anos anteriores foram chamados a um encontro com o bispo. «Este ano, 110 casais estiveram presentes para receber uma bênção do bispo. Foram-lhes dados uns pontos para discussão a partir da reflexão do Pe. Vasco Pinto Magalhães: “Matrimónio: riqueza ou um risco?”», explica, admitindo que «ainda são coisas incipientes».

Para a Pastoral Familiar nacional, o casal presidente não tem uma proposta concreta. O grande desafio é «chamar os casais novos», «ir ter com eles, dar-lhes oportunidade de reflectir sobre gestão familiar, saúde, problemas dentro do casal, comunicações… Há tantas matérias que, sem terem o cariz eclesial, podem ser um espaço de acolhimento e de formação».

Localmente, vão nascendo alguns projetos. Na diocese de Lisboa, por exemplo, a Cáritas e a Pastoral da Família avançaram com um projeto chamado «Famílias comVida». A ideia é criar uma rede de centros que apoiem as famílias em várias questões, sempre segundo os critérios cristãos. Para já, arranca com formação de animadores. Há paróquias também com grupos informais de casais. Por todo o país, há Equipas de Nossa Senhora, centros de formação Cenofa, grupos de Amor e Verdade, Ela e Ele e Encontro Matrimonial. Mas ainda é preciso que a Pastoral Familiar esteja em missão, como pede o Papa, e vá ao encontro dos casais.

ALGUMAS NOTAS SOBRE CADA UM DOS MOVIMENTOS REFERIDOS:

EQUIPAS DE NOSSA SENHORA

As Equipas de Nossa Senhora pretendem ajudar os casais a viver o matrimónio testemunhando o casamento cristão no mundo. Partindo da vontade de viver o matrimónio e aprofundar a fé, os casais reúnem-se em equipas com apoio espiritual de um sacerdote. Em reuniões mensais, rezam, partilham e estudam um tema. Utilizam a oração conjugal e familiar, o diálogo conjugal mensal sob o olhar de Deus, a reunião mensal de equipa, a regra de vida pessoal e o retiro espiritual anual. Em Portugal existem há 50 anos.

Contactos: http://www.ens.pt/; 216 097 677 / 925 826 364

 

CENOFA

O Cenofa, Centro de Orientação Familiar, promove cursos sobre vários temas ligados à família, defendendo que só uma vivência em casal saudável permite educar filhos felizes. Nas formações não se tratam situações pessoais, mas casos-tipo apresentados. Além dos cursos sobre educação dos filhos, há também formações sobre a vivência em casal, gestão de crises, aconselhamento familiar e finanças pessoais.

Contactos: www.cenofa.pt/; geral@cenofa.pt

 

AMOR E VERDADE

É um projeto de formação e acompanhamento dos casais na sua relação conjugal e familiar, designadamente com os filhos. Nasceu na Comunidade Emanuel e o seu fundamento espiritual é a certeza de que Jesus é o Deus-connosco, presente e atento aos problemas e às alegrias da vida. Propõe-se que o casal e a família sejam fontes de felicidade para os cônjuges e irradiação do amor de Deus no mundo.

Em ciclos de três encontros, normalmente um por mês, é apresentado um tema. Há tempo de diálogo em casal e em grupo e tempo de oração pessoal e de casal.

Contacto:amorverdadeportugal@gmail.com

 

ELA E ELE – THE MARRIAGE COURSE PORTUGAL

Nasceu no âmbito dos percursos ALPHA e pretende ajudar os casais a construir um casamento saudável e duradouro. É aberto a casais com uma relação estável. Baseado em princípios cristãos, está aberto a todos, crentes e não crentes.

Ao longo de oito serões, cada casal pode dialogar, em privacidade e ambiente romântico – à luz de velas -, sobre temas da sua relação: a comunicação conjugal, a razão dos conflitos, a relação com a família do outro, as ofensas e o perdão.

Contactos: contacto@alphaportugal.com; https://www.facebook.com/marriage-courseportugal/

 

ENCONTRO MATRIMONIAL

É um movimento mundial com 50 anos e está em cerca de 90 países. Em Portugal, existe desde 1982. Este movimento pretende aprofundar a relação dos casais através do diálogo e de uma comunidade de apoio permanente. Está aberto a casais não católicos.

A participação começa com um fim de semana, FDS, de experiência de conhecimento de si mesmo e do outro. Três casais e um sacerdote testemunham experiências de vida em 14 temas. Há tempo para diálogo em casal e partilha em grupo. Depois do FDS, há encontros de comunidade periódicos que aprofundam os temas.

Contactos: www.encontromatrimonialdeportugal.com; encontromatrimonialdeportugal@gmail.com

 

 

Texto de Cláudia Sebastião – Manuel e Celina Marques, publicado em Família Cristã, novembro 2016