Entrevista ao jornalista colombiano em Roma, Nestor Pongutá, sobre o acordo assinado em Cuba entre o governo e as FARC

 

24 JUNHO 2016 – “Esta é a primeira vez que se assina um acordo que envolve o fim do conflito, ou a cessação de fogo bilateral e definitiva, a cessação das hostilidades”, disse à Zenit o jornalista colombiano Nestor Pongutá, referindo-se à assinatura de ontem na Havana, entre o Governo da Colômbia e o grupos Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC). Assinatura, esclareceu, “que não significa que amanhã terminou tudo. Serão necessárias algumas gerações para consolidar a paz, e nem todos ficarão felizes”.

Uma assinatura que, porém, tem pontos a serem definidos, como indicou ontem a Conferência Episcopal, que exortou que não seja somente um ato simbólico. Outras fontes consultadas por ZENIT indicaram que entre os temas difíceis está que a guerrilha FARC deixa as armas mas não as entrega. Ou os mais de 10 bilhões de dólares que as FARC teriam em contas estrangeiras e que não seriam usadas para indenizar as vítimas.

“Aqui, pela primeira vez consegue-se que as FARC assinem um acordo e para isso estiveram quase quatro anos sentados na Havana, lugar por onde passaram os comandantes de todas as alas até as mais violentas, envolvidas com o tráfico de drogas, ou com o alistamento de crianças”, disse o correspondente.

Destacou também a importância de que estivessem presentes na assinatura representantes internacionais como o presidente das Nações Unidas, Ban Ki-moon, ou o presidente da Venezuela, Nicolas Maduro, “porque as Farc durante o tempo de Chavez tiveram um forte apoio, o que exasperou as relações com o anterior presidente colombiano”.

Pongutá define a situação atual citando a canção popular ‘Nós estamos saindo de cem anos de solidão”. E acredita que vai funcionar “porque as pessoas estão cansadas do conflito, são três gerações que buscam a paz. Europa depois de duas guerras mundiais vive há 60 anos sem uma guerra. Esses milhões de mortos na Colômbia são colombianos, guerrilheiros que tinham que matar seu irmão soldado e vice-versa”.

Contudo, reconhece que “temos que ser claros: que se assine hoje o fim do conflito não significa que amanhã não vai acontecer nada. Vai levar gerações para ver consolidado o processo de paz. Não há antecedentes com as FARC. Resta o ELN da esquerda católica e grupos criminosos chamados bacrim”, estes dois últimos “sem ideologia e relacionados com máfias internacionais”. Destacou que as FARC tiveram a maior parte do seu financiamento do tráfico de drogas, do qual deverão sair, de acordo com os pontos da negociação.

Perguntado se os chefes médios da guerrilha aceitarão a assinatura, tendo em conta o dinheiro que administram e o poder que têm, o jornalista colombiano é otimista: “Conheci bem as FARC durante o processo de Caguan. Vi que têm uma disciplina de forças armadas. Estiveram na assinatura ou passaram pela Havana Timoshenko, Ivan Marquez, Joaquin Gomez conhecido como ‘El Paisa “, o mais sangrento, que se pensava que era o principal obstáculo para a assinatura. Esteve também Romaña, o que mais sequestrou pessoas”.

Para explicá-lo acrescentou que “após o recente cessar-fogo unilateral declarado pelas FARC, reduziram-se significativamente as atividades violentas”. Enquanto isso indica que “para combater o tráfico de drogas é também necessário combater os consumidores nos Estados Unidos e na Europa, onde estão aumentado”. Para se ter uma ideia, explicou: “Na Itália o fiscal anti-máfia Nicola Grateri disse esta semana que aqui somente se encontra o 10% do que entra” e a cocaína é encontrada com facilidade.

Agora, após a assinatura, “o conflito fica esvaziado de ideologia. Durante anos, as pessoas perceberam que as FARC não as representam, sendo que a guerrilha começou com uma classe camponesa popular e, em vez disso, hoje, têm mais dinheiro do que muitos batalhões militares”.

Sobre o que a guerrilha pediu para deixar as armas, como a reforma agrária e urbana, Pongutá disse que ainda não são conhecidos todos os pontos do acordo porque a confidencialidade permite negociar melhor. “Mas há validadores, como a restituição de terras e a reparação das vítimas de ambos os lados.” Terras que pertenciam a  paramilitares, mas também às guerrilhas serão dadas aos campesinos, disse.

Por fim, observou que “agora surge a questão de onde serão colocados, o que farão. Colômbia é o país da América Latina que menos escrituras têm sobre as terras. Somam-se uns 6 milhões de deslocados por causa do conflito “.