Somos delicados quando dizemos que “velhos são os trapos”, não as pessoas de idade avançada de quem até familiares se descartam com a desculpa de que não conseguem cuidar deles. Se há quem seja esmerado nas atenções, não falta quem, por incúria ou cansaço, não saiba curar a solidão da velhice abandonada ou incompreendida.

A agência de informação “Aleteia” conta a parábola de uma senhora a quem as enfermeiras julgavam tão senil que se consentiam criticar-lhe o comportamento como se não as ouvisse. Quando morreu, encontraram a carta que as deixou de queixo caído.

Registo em síntese a mensagem para deixarmos de lavar as mãos como Pilatos e aprendermos a respeitar as pessoas idosas, a quem a nossa indiferença as vai matando aos poucos.

“Que veem, enfermeiras, quando me olham? Uma velha rabugenta com hábitos estranhos e olhar distante? Aquela que deixa a comida cair dos cantos dos lábios e nunca responde a quem dizem alto: poderia ao menos tentar’? Aquela que perde sempre alguma coisa, a meia ou o sapato? Que vos deixa fazer o que querem e que passa grande parte dos dias no banheiro ou a comer?

“É isso que veem?

“Pois então, enfermeiras, abram os olhos porque não me estão a ver bem.

“Vou dizer-lhes quem sou.

“Sou uma garota de 10 anos, com pai e mãe, irmãos e irmãs, que se amam. Uma menina de 16 anos com asas nos pés, que sonha em breve encontrar o amor. Uma noiva de 20 anos, com o coração aos saltos, recordando os votos que prometeu cumprir. Com 25 anos, já tem os seus próprios filhos, a quem vai ajudar para que encontrem um lar seguro. Uma mulher de 30 anos, cujos filhos crescem depressa, unidos com laços que devem durar. Aos 40, os meus filhos jovens cresceram e fizeram-se à vida. O meu marido está comigo para que eu não fique triste. Aos 50, põem-me bebés no meu colo, filhos dos meus filhos. Eu e o meu amor voltamos a conhecer crianças. Aproximam-se dias negros. O meu marido morreu. Olho para o futuro e estremeço. Penso nos anos e no amor que conheci. Agora sou uma mulher velha. A natureza é terrível. Rio-me da minha idade como uma idiota. O meu corpo está frágil. Perdi a graça e a força. Só existe uma pedra onde batia o coração. Mas, dentro desta velha carcaça, ainda vive uma jovem mulher. Dilata-se o meu coração maltratado. Lembro-me das alegrias e das tristezas. Vivo e amo todos os dias. Penso nos anos, tão poucos e que passaram tão rápidos. Aceito que nada é para sempre.

“Enfermeiras, abram os olhos e vejam claro. Não chamem resmungonas às idosas.

“Olhem mais de perto. Por favor, vejam-me bem!”

Pessoa alguma é inútil; tem passado, presente e futuro.

Os idosos merecem todo o carinho do mundo.

A indiferença de quem tem obrigação de os respeitar e acarinhar endurece-lhes o coração e apressa-lhes a morte”.

Artigo escrito por Rui Osório, “Voz Portucalense, 28 outubro 2016