Os acontecimentos a que estamos a assistir ao nível europeu, no que diz respeito ao que normalmente tem sido apelidado como crise de refugiados, não nos podem deixar de modo nenhum indiferentes. Sei que a situação não pode ser analisada de uma maneira ingénua, devido à complexidade dos muitos factores envolvidos, pelo que as respostas voluntaristas, se bem que sejam testemunho de dimensões importantes, não servem para tomar as atitudes que são urgentes tomar.

 

Mas apesar de toda a complexidade envolvida, há coisas que, julgo, devem ser ditas com toda a clareza. Não nos enganemos, não sejamos também ingénuos, esta crise é muito mais do que uma crise de refugiados, revelando-nos, de um modo que me parece claro, uma outra crise muito mais profunda e que tem a ver com a própria consciência que temos de ser humanidade, ou, para ser ainda mais preciso, de pertencermos todos a uma mesma família humana.

Como são possíveis tantas hesitações e tanta prudência face à situação, mais do que urgente, de tantos seres humanos, irmãos nossos, que fogem da miséria, da fome e da morte? E a situação dos que fogem e são acolhidos em circunstâncias que, com frequência, são também indignas, não nos podem deixar jamais esquecer que há muitos, e que são mesmo muitos mais, que não conseguem sair, por não terem as condições mínimas para o fazer. Independentemente de tudo o que possamos aludir acerca da complexidade das situações, insisto que é necessário chamarmos as coisas pelo seu nome: estamos perante uma profunda crise de humanidade.

Neste contexto tenho pensado, frequentemente, na necessidade de voltarmos a destacar a importância fundamental do princípio do bem comum como princípio basilar de construção da sociedade humana. E como não ter presente, a este propósito, o que é afirmado, de um modo tão veemente, na Constituição Pastoral Gaudium et Spes do Concílio Vaticano II? Apesar de estarmos a celebrar o 50º aniversário da sua promulgação, o texto continua hoje mais do que actual:

“A interdependência, cada vez mais estreita e progressivamente estendida a todo o mundo, faz com que o bem comum – ou seja, o conjunto das condições da vida social que permitem, tanto aos grupos como a cada membro, alcançar mais plena e facilmente a própria perfeição – se torne hoje cada vez mais universal e que, por esse motivo, implique direitos e deveres que dizem respeito a todo o género humano. Cada grupo deve ter em conta as necessidades e legítimas aspirações dos outros grupos e mesmo o bem comum de toda a família humana” (GS 26).

O texto parece-me o suficientemente claro para não precisar de grandes explicações. O bem comum de toda a família humana tem directamente a ver com o bem de cada um, ou seja, o bem dos outros é também o nosso bem, e daí resultam inevitavelmente direitos e deveres.

É precisamente neste contexto que a família se pode revelar, uma vez mais e sempre, como um elemento fundamental. É que as relações familiares – e tenho em mente as relações de fraternidade – podem servir de modelo, não apenas teórico, mas prático, para o tipo de sociedade humana que queremos construir. A partir da relação da fraternidade podemos descobrir e experienciar algumas realidades que são fundamentais. Porque somos irmãos podemos descobrir-nos iguais e diferentes. Diferentes, pelo facto óbvio de cada um ser único; mas iguais, porque igualmente filhos. E nesta origem comum – ser igualmente filhos – podemos descobrir e perceber a idêntica dignidade que nos une. É também a partir da experiência da fraternidade que se pode entender melhor o dever de responsabilidade pelo outro que é irmão. Ele também está ao meu cuidado, tal como eu estou ao seu.

A fraternidade implica igualmente a consciência de que não sou filho único, uma vez que sou irmão de outros filhos. Esta realidade, que vai sendo aprendida na própria experiência da relação fraternal e filial, possibilita-me experimentar o milagre da multiplicação do amor. O amor dos pais não é dividido por cada um dos filhos, pelo contrário multiplica-se, de tal modo que a cada um não cabe só aquela parte resultante da divisão do amor por todos. Cada filho, ou seja cada irmão, é amado totalmente por si, mas sabe que não é amado sozinho. A relação de fraternidade é, neste sentido, verdadeiramente importante como base de uma sociedade humana em que todos se saibam únicos e igualmente dignos, mas simultaneamente irmãos, e, por isso, simultaneamente responsáveis pela dignidade e pelo bem uns dos outros

Sinceramente parece-me que esta experiência de ser irmão, no seio de uma família, nos pode ajudar a entender melhor a importância da fraternidade humana no seu todo. A dimensão do bem comum de todos os seres humanos é uma daquelas dimensões que não podemos esquecer nunca, muito menos em momentos como os que estamos a viver. E para quem é crente essa realidade deve ser ainda mais evidente. Porque filhos do mesmo Pai, somos todos irmãos. Não podemos, pois, ficar indiferentes, nem sequer hesitantes. Somos também responsáveis desses que nos estão a bater à porta – e de tantos outros que não batem porque não podem ou não conseguem -, e da resposta que formos capazes de lhes dar depende em muito, e disso não tenho dúvidas, o futuro da sociedade que queremos construir.

Escrito por Juan Ambrósio e publicado em Jornal da Família, novembro de 2015