A leitura ocupa, como é fácil de perceber, um tempo muito significativo e importante na realização da minha missão como professor. Através dela tenho a possibilidade de me sentir interpelado obrigando-me a reflectir em direcções que nem sempre eram evidentes, nem mesmo estavam previstas. Mesmo quando leio textos com os quais não estou de acordo esse desafio acaba por surgir.

 

Esta pequena introdução serve de enquadramento para aquilo que quero partilhar convosco nesta ocasião. Ao preparar uma formação sobre a temática da família, tive a oportunidade de ler um texto que me interpelou bastante. Nele, o autor destacava a importância de comunicar aquilo que se pretende com uma linguagem correta, que seja capaz de ser entendida por aqueles a quem se dirige. Não podia estar mais de acordo com esta posição. De facto, a experiência diz-me constantemente que por mais importantes que sejam as ideias que queremos partilhar, se elas não forem entendidas acabam por não ter impacto, nem provocar nenhuma alteração, no fundo, acabam por ser mais umas daquelas ideias para serem ‘arquivadas’ e rapidamente esquecidas.

A este propósito o texto de Fernando Vidal Fernández (1) diz textualmente:

“Os missionários da família têm que aprender a não provocar bloqueios que impeçam comunicar o essencial do Evangelho. O papa Francisco tem insistido em que a mensagem pastoral familiar seja integral e equilibrada e não se focalize com excessiva existência nos assuntos mais polémicos que suscitam bloqueios imediatos. Além disso, uma pastoral missionária não procura impor insistentemente todo o conjunto doutrinal como se fosse um bloco homogéneo. Os ensinamentos têm distinto valor vinculante. A sabedoria missionária sabe concentrar-se no essencial para alcançar o coração e ser significativo”.

Como é óbvio, com estas palavras, não se pretende defender que a reflexão cristã sobre a família não deva ser apresentada com toda a clareza e verdade, ou mesmo que se evitem aquelas questões nas quais as opiniões se dividem de uma maneira quase antagónica e irreconciliável. O que se pretende, pelo contrário, é destacar o essencial e, então a partir daí, reflectir tudo o resto. Por isso se mostra cada vez mais necessária uma reconversão da linguagem que seja capaz de destacar de uma maneira bela e significativa o essencial da proposta que queremos testemunhar e partilhar.

Mas como falar essa linguagem? Como comunicar ao mundo de hoje o evangelho da família de modo a que possa ser escutado, compreendido e seja verdadeiramente significativo para a vida das pessoas? Recorro de novo ao texto a que me tenho vindo a referir para ensaiar uma resposta, adaptando-o um pouco, para não voltar a fazer outra citação longa.

Na nossa época torna-se imprescindível falar a linguagem da sabedoria, ou, se quisermos, a linguagem do coração. No processo de comunicação da proposta de Deus a própria bíblia fala-nos de vários tempos e processos. Assim, refere um tempo de identidade, quando é necessário comunicar instituindo uma narração fundante, com a qual se vá identificando a lógica da identidade. Há também um tempo de profecia, que pretende chamar a atenção para todas aquelas situações e acontecimentos que podem provocar desvios do caminho da identidade. E quando as pessoas já não têm bem clara qual é a sua identidade e, por isso, a chamada de atenção para os perigos dessa perda acabam por não ter grande impacto, uma vez que as pessoas já não se movimentam claramente nesse horizonte, surge então a necessidade do tempo da sabedoria, no qual, com o testemunho de vida e com linguagens interpelantes e significativas se tenta reconstruir e propor a identidade. No fundo, este tempo de sabedoria acaba sempre por incluir o tempo da identidade e da profecia, mas como que comunicados de um modo que podem resultar mais compreensíveis e interpelantes.

Se pensarmos bem, algo de parecido sucede na experiência da educação em contexto familiar. Também aí há um tempo de identidade, em que se transmitem as bases para ir ajudando as crianças e edificarem a sua identidade, ainda que isso seja um processo nunca acabado; um tempo de profecia, através do qual se vai chamando a atenção para os desafios e os obstáculos que surgem no caminho; e um tempo de sabedoria, onde os pais, quando os filhos já são crescidos e têm autonomia, são essencialmente chamados a, com o seu testemunho de vida e com a sua relação, apontarem os caminhos que continuem a edificar sustentadamente a identidade.

Sinceramente, acredito que no momento que estamos a viver, quando de novo somos convocados a participar ativamente, cada um ao seu nível e de acordo com as suas possibilidades, no percurso sinodal sobre a família, a linguagem e a dinâmica da sabedoria são muito importantes. O Espírito Santo, que nunca deixou de desenvolver esta dinâmica ao longo da história da salvação, continua, neste preciso momento da nossa história, onde a diversidade de pensamento e de mentalidades é muito grande, a ensinar-nos a linguagem da sabedoria, para que não nos afastemos do que é verdadeiramente essencial no Evangelho da Família.

 

(1)     La cultura del corazón del evangelio de la família. El redescubrimiento misterioso de la pastoral de la família, in La família a la luz de la misericordia, Sal Terrae 2015, 60-62.

 

 

Escrito por Juan Ambrósio e publicado em Jornal da Família, outubro de 2015