No mundo mediático em que vivemos parece que só as coisas espectaculares têm direito a aparecer nas notícias. Podem ser positivas ou negativas, boas ou más, mas têm de ser grandiosas e espectaculares, pois isso é que vende e chama a atenção. Ninguém tem dúvidas de que esse tipo de acontecimentos, para o bem e para o mal, marcam decididamente o rumo da história. Mas será que esta só é feita a partir desses momentos? Não será que muitos outros acontecimentos, tantas vezes sucedidos no segredo da história, e dos quais pouca gente sabe ou suspeita a existência, não são tão igualmente decisivos? Se pensarmos um pouco mais, talvez não seja tão difícil concluir que os grandes acontecimentos se forjam, tantas e tantas vezes, a partir de coisas pequenas, frágeis e, com frequência, consideradas menores.

 

Neste mundo mediático parece que também só os melhores têm direito ao destaque. Dos segundos até se chega a dizer que são os primeiros dos últimos, ou que é o lugar mais difícil, porque poderiam ter sido os primeiros, mas na realidade não o foram, pelo que acabarão, como todos os outros, no role dos esquecidos. Também a este nível, não me parece ser muito difícil perceber que a história não é só feita pelos melhores, ainda que sejam estes que mais povoam as páginas dos seus livros. Sem dificuldade de maior, julgo que todos poderemos concluir que a história também se constrói com o contributo indispensável e precioso de todos esses anónimos que são os segundos, os terceiros e por aí em diante.

Este pano de fundo, em que vivemos, torna ainda mais complicada a educação, pois se o objectivo é ser o melhor, o primeiro, o mais espectacular, então, podemos ter a certeza, logo à partida, de que a maioria estará condenada ao insucesso, uma vez que não poderá alcançar esse patamar. Ao dizer isto não estou, de modo nenhum, a fazer o elogio da mediocridade, nem da lei do menor esforço, que paradoxalmente acabam por ser promovidas, quando a meta única a que se pode aspirar é ser o melhor de todos. Sinceramente, não me parece que o futuro diferente que queremos e temos de construir passe por nenhuma destas duas vias: ser o melhor de todos, ou ‘deixar andar’ sem grandes esforços, porque não podemos ser o melhor de todos.

No meu modesto entender o caminho é outro e passa por fazermos e sermos o melhor que pudermos, ou seja, de nos esforçarmos sempre por realizar, da melhor maneira possível, as tarefas que nos forem confiadas, mesmo que elas sejam, como o serão a maior parte das vezes e na maioria dos casos, tarefas e missões de que as páginas dos jornais e os livros de história não darão notícias. Não se trata de ser o melhor de todos, mas de ser o melhor possível; não se trata de ser melhor do que os outros, trata-se de ser o melhor que pudermos. No fundo a meta continua a ser a excelência, mas a excelência de cada um.

Neste campo, como em muitos outros, a família é chamada a desempenhar um lugar verdadeiramente privilegiado e único. No seu seio não se educa para que cada um seja melhor do que o outro, para poder ocupar o primeiro lugar. Os pais, na educação dos seus filhos, não promovem uma competição entre eles para ver qual é o melhor e merece mais destaque. E, quando erradamente o fazem, rapidamente podem perceber como é a harmonia e estabilidade da própria família que é posta em causa. Do mesmo modo, o pai e a mãe agem em conjunto fazendo, cada um e os dois, o melhor que podem para o bem dos seus filhos. Também aí não entram em competições estéreis para ver qual é o melhor. Também aí, quando erradamente o fazem, é a própria família que corre o sério risco de se desmoronar.

Na família todos podem aprender como o melhor contributo de cada um é tão indispensável para o melhor bem de todos. Muitas vezes esse contributo é constituído por coisas pequenas, quase que sem importância, que por si só não serão nunca notícia de nenhum telejornal. Muitas vezes é um dar a mão, um beijo, ou simplesmente estar ao lado do outro apoiando-o, com a presença, na realização daquela tarefa que só ele pode fazer, mas que pode sair muito melhor porque se sabe, sente e vê amado e querido. Tantas vezes o estar à cabeceira, sem poder fazer nada mais a não ser estar, se torna tão definitivo e importante. Mesmo naqueles momentos, talvez ainda mais nesses momentos, em que a vida de alguém está frágil, ou mesmo a finalizar. Guardo na minha memória muitas dessas coisas e gestos que, apesar da sua pequenez e insignificância, tiveram um sabor que alimentou a vida.

Precisamos urgentemente no mundo de perceber que o importante não é ser melhor do que os outros, ou ser o melhor de todos. O que é verdadeiramente decisivo é ser o melhor possível para o bem de todos. Insisto em que não se trata de um facilitismo que promova a ‘atitude do menor esforço’ ou do ‘deixar andar’, pelo contrário, trata-se de promover a corresponsabilidade de cada um na procura e construção do melhor bem para os outros e para si. Essa é uma das experiências mais intensas da vida em família, e também por isso o nosso futuro passa por elas.

Escrito por Juan Ambrósio e publicado em Jornal da Família, julho de 2015