(Artigo de Ricardo Perna, publicado em PNEUMA, out – nov 2014)

 

O Pe. Duarte da Cunha esteve nas Jornadas da Pastoral Familiar, para falar sobre o Sínodo dos Bispos aos participantes nas jornadas. O sacerdote português, que é secretário-geral do Conselho das Conferências Episcopais da Europa (CCEE), fez uma avaliação positiva do relatório final, que considera “uma manta de retalhos cheia de coisas importantes”. “É o resultado dos assuntos debatidos pelos bispos, é um texto de trabalho, não final, que é preciso ser lido e relido, mas também complementado com outros textos que devem ser usados”, considerou.

Segundo o sacerdote, “as verdades da família foram reafirmadas e apreciadas sempre com a preocupação de perceber como anunciar hoje essas verdades”. “É uma das insistências do Papa Francisco. É preciso acompanhar as famílias para se poder anunciar o Evangelho da família”, defendeu o Pe. Duarte da Cunha.

Falando aos jornalistas no final da conferência, o secretário-geral da CCEE considerou que a “tónica no acolhimento” esteve presente nas intervenções e “é explícita” em todo o relatório final do Sínodo, lançando “desafios de empenho aos agentes pastorais”.

Quanto às questões mais sensíveis, o Pe. Duarte da Cunha não acha que tenha havido novidade. “Surgiu a necessidade de a Igreja passar a sua mensagem de uma forma mais acolhedora, e isso é bom, mas no conteúdo nada mudou. Tudo o que foi dito já havia sido dito antes”, sustentou o sacerdote português, que não considera possível grandes alterações em relação a divorciados recasados ou em relação aos homossexuais. “Dar a comunhão aos divorciados a recasados não resolve o problema. Aliás, nos países em que isso se defende com maior rigor, a pastoral de acompanhamento que é feita é tão pouca que se transforma numa pastoral de indiferença, e não é isso que é o acolhimento”, garantiu o Pe. Duarte da Cunha.

Quanto aos homossexuais, é “essencial que haja acolhimento e que ninguém se sinta discriminado na Igreja”, diz o sacerdote, mas sem com isso obrigar a que a Igreja mude o seu ponto de vista sobre essas questões. “As nossas comunidades sempre tiveram pessoas com tendências homossexuais, que fazem o seu caminho, por vezes com sofrimento, mas lidando com as suas tendências, da mesma forma que um heterossexual também lida com as suas questões, e isso já se fazia antes”, garantiu o Pe. Duarte da Cunha.

 

Os desafios do próximo ano, em vista ao Sínodo

Na conferência proferida esta manhã, o Pe. Duarte da Cunha referiu três pontos como sendo os desafios do próximo ano, em vista à preparação do sínodo ordinário de 2015. ”É importante olharmos para a antropologia do ser humano e da família. Temos de compreender a pessoa humana como única, mas integrada numa rede social”, disse o sacerdote, argumentando que a noção de imediato na sociedade é impeditiva da constituição de família. “Quando deixamos de desejar o eterno e apenas queremos gozar o presente, somos incapazes de construir uma família”, disse o Pe. Duarte da Cunha.

Um segundo aspecto é o de repensar e recuperar a teologia do matrimónio. “O que o torna único, como se prepara, como se vive, como se põe a render as graças, quais são elas. O que faz desse consentimento único e o que isso implica. Há um diálogo entre o homem que oferece a graça e Deus que a recebe. Os sacramentos não são só futuro, são presente que acontece. O casamento indissolúvel é-o porque Deus assim o torna, e não se pode desfazer”, considerou o sacerdote.

Depois destas questões, surge a necessidade de pensar nas questões deixadas pelo relatório final do Sínodo, que será utilizado como Lineamenta do sínodo do próximo ano, de pensar a teologia do amor. “Há uma confusão generalizada sobre o que é o amor. O que se fala nos filmes e nas novelas não é o mesmo que a Madre Teresa falava. Quando Jesus Cristo diz “amai-vos como Eu vos amei”, ou seja, dêem a vossa vida pela pessoa com quem estão, amar é dar tudo e dar-se a si mesmo”, disse.

Isto porque, defende o sacerdote, o amor não é apenas dar sem esperar nada receber. “Diz-se que o amor deve ser gratuito, sem esperar nada contra, mas o amor perfeito é um querer ser amado. Amar e ser amado não podem ser duas coisas separadas, têm de estar juntas. O amor verdadeiro é um amor que suplica. Amor gera amor. Amor não é apenas dom, é comunhão”, exortou o Pe. Duarte da Cunha.

Nesta linha de ideias, o Pe. Duarte da Cunha encerrou os trabalhos defendendo a importância da Pastoral Familiar para a Igreja e para o homem. “A primeira razão pela qual vale a pena o empenho na família é pela nossa própria família. Isto não é egoísta, mas é pôr o nosso interesse no centro. Se estou empenhado em viver melhor a minha vida, os meus irmãos recebem eco desse empenho e isso é bom para eles”, defendeu.

Depois, há a questão da caridade e da evangelização. “Não posso estar ao lado de pessoas que passam problemas e ser indiferente, tenho de ter caridade”, afirmou, acrescentando que “a família é a melhor maneira de anunciar Jesus Cristo, é ali que tudo começa”. “Onde há famílias cristãs, é mais provável que haja filhos cristãos”, concluiu, avisando que as famílias não são somente objecto de evangelização, mas sobretudo “sujeitos de evangelização como seu testemunho”.