2.A família, escola de sabedoria e felicidade

Recentemente tive a oportunidade de reler um texto onde se destaca a importância que as opções educativas têm para a felicidade e realização do ser humano. O texto não se refere explicitamente à questão da missão educativa em contexto familiar, mas fornece indicativos que me parecem muito importantes a esse nível, pelo que o transcrevo nas linhas a seguir:

“A hermética contrapõe-se à hermenêutica, ainda que ambos os conceitos remontem à mesma raiz (Hermes, o deus dos intérpretes e dos parlamentares). A hermenêutica orienta-se para a «compreensão», a hermética para o «ser». A diferença torna-se clara nas duas formas de «professor» (no Ocidente) e de «mestre» (no longínquo Oriente). O professor «ensina» os seus alunos e proporciona-lhes um «saber» que se adquire «aprendendo». O mestre «transforma» os seus discípulos e como lhes dá outro «ser», outra vida, outro eu na auto-avaliação que se alcança «praticando». Nela não ajuda nenhum «saber», mas uma «iluminação», que significa uma iluminação de toda a existência. O saber adquire-se e explica-se através da hermenêutica, a iluminação pela hermética. Esta é uma arte de transformação do homem”. (1)

Ao comentar o texto, o autor refere que muito poucas vezes os resultados obtidos pela hermenêutica foram verdadeiramente aproveitados para realizar a passagem do conhecimento à iluminação, da ciência à sabedoria, dos saberes à transformação da vida, sublinhando que, com muita frequência, os caminhos da «ciência dos professores» e da «sabedoria dos mestres» seguiram não só direcções diferentes, como tiveram momentos de enfrentamento e desqualificações mútuas.

Presentemente os nossos conhecimentos desenvolveram-se de maneira exponencial. Sabemos muito e muito mais coisas do que em tempos passados. As novas gerações têm acesso fácil a um manancial de informação que é mesmo impossível de digerir na totalidade e, no entanto, defrontamo-nos com problemas que não têm exactamente a ver com os conhecimentos que temos, mas com a maneira como os aplicamos e com eles transformamos a vida.

Com palavras que à primeira vista até parecem ir na direcção contrária, o papa Paulo Vi afirmava, em 1975, no nº 41 da Encíclica Evangelii Nuntiandi, exactamente o mesmo: “O homem contemporâneo escuta com melhor boa vontade as testemunhas do que os mestres, […] ou então se escuta os mestres, é porque eles são testemunhas”.

Neste momento da nossa existência histórica é evidente que temos a absoluta necessidade de percorrer um caminho onde os educadores não sejam simplesmente professores, mas possam ser simultaneamente mestres e testemunhas de uma nova humanidade.

A este nível o contributo da família é absolutamente indispensável, pois é no seu seio que mais facilmente se pode fazer esse exercício, onde aquilo que se ensina e aprende tem por objectivo iluminar a vida em ordem à sua transformação. Nela os pais querem transmitir conhecimentos que possam também ser saberes capazes de dar sabor e sentido novo à existência. Tinha toda a razão o Pe. Alves Brás ao afirmar que “a família é a principal escola de educação e dela depende em grande parte a felicidade e o bem-estar dos homens neste mundo”.

 

(1)   Heinrich Rombach, El hombre humanizado. Antropologia estructural, Herder, Barcelona 2004, 134, Citado por Lluís Duch, Un extraño en nuestra casa, Herder Barcelona 2007, 68

 

 Escrito por Juan Ambrósio e publicado em Jornal da Família, março de 2016