A tarefa de defender a reta razão humana contra os excessos das ideologias contemporâneas e sua militância é uma tarefa árdua, mas o que está em jogo é precioso demais para que não se entre nessa luta

 

Brasilia, 10 de Novembro de 2015 (ZENIT.org) Paulo Vasconcelos Jacobina

A arte da apologética é uma arte antiga, mas em declínio absoluto na nossa contemporaneidade. E não falo somente da apologética como parte da teologia, aquela recomendada por São Pedro na sua primeira Carta, capítulo 3, versículos 15 e 16. Esta sofre um desprestígio enorme, nos últimos tempos, como se fosse uma filha bastarda da teologia, um propagandismo inaceitável da fé na contemporaneidade, em que ser cristão parece com pouco mais do que ter “bons sentimentos” e se engajar em alguma causa “social”. Falo mesmo da apologética como a capacidade de escolher princípios para a própria vida, coerentes com a razão humana, com a herança social e nacional, com a educação pessoal e com a fé professada e vivida, e dar as razões pelas quais adota tais princípios, mesmo tendo a certeza de que nem a própria vida, nem a vida dos outros, pode representar na prática a realização plena dos princípios adotados.

Não falo aqui do farisaísmo de quem se considera “exemplo”, e quer impor aos outros o próprio padrão moral como pressuposto de aceitabilidade ou respeitabilidade social. A verdadeira misericórdia, diz o Papa Francisco na sua recente Bula “Misericordiae Vultus”, certamente ultrapassa a justiça – mas jamais se volta contra ela, ou a quer destruir. Diz o Papa, no § 2º da Bula: “A misericórdia é a lei fundamental que mora no coração de cada pessoa, quando vê com olhos sinceros o irmão que se encontra no caminho da vida. Misericórdia é o caminho que une Deus e o homem, porque nos abre o coração à esperança de sermos amados para sempre, apesar da limitação dos nossos pecados”.

A falsa misericórdia e a desconstrução da verdade.

Mas há uma força imensa movendo a nossa contemporaneidade, que defende que o ato supremo de misericórdia consiste em negar que sejamos pecadores; somente destruindo a própria lei é que o homem se tornaria misericordioso para com o irmão que peca, e estaria também habilitado a receber misericórdia por seus próprios pecados. É como se de repente alguém quisesse culpar os hospitais pelas doenças que há no mundo. Para usar de uma analogia, diríamos: é como se, na mente dessas pessoas, os protocolos médicos de saúde pública, prevenção e tratamento fossem os verdadeiros responsáveis pela vulnerabilidade das pessoas à doença. Eliminemos os padrões de saúde, e não teremos mais doentes, pensam os que defendem que somente com o fim de todos os padrões culturaistradicionais e religiosos haveria verdadeira misericórdia no mundo. Não percebem, no entanto, que o fim da medicina não elimina a doença, mas o tratamento.

É assim que as grandes forças intelectuais da contemporaneidade, em nome de seu suposto projeto de construir um mundo melhor, mais justo ou mais igual, desenvolveram uma série de ideologias que transferem a origem do mal exatamente para os sistemas desenvolvidos para combatê-lo: transformam toda relação humana numa opressão a ser denunciada, toda cultura e qualquer civilização numa estrutura falsa a ser impiedosamente denunciada e demolida e toda religião numa impostura a ser combatida. E toda uma série de ismos foi desenvolvida para justificar esse combate sutil e perverso contra não somente o que deve ser combatido, mas principalmente contra aquelas realidades que, por serem capazes de prover o ser humano de relações potencialmente necessárias, mas sempre imperfeitas e defeituosas, são vistas como más em si mesmas e como objeto necessário de desconstrução (a palavra desconstrução está na moda entre tais forças). Cito o relativismo, o hedonismo, o sentimentalismo moral, o feminismo de gênero, o cientificismo materialista (como desvio do verdadeiro e legítimo conhecimento científico), como algumas das tantas ideologias que prevalecem na contemporaneidade, em nome da desconstrução “misericordiosa” das relações, vistas como opressoras e limitadoras das liberdades em si mesmas.

A diferença entre teorias e ideologias.

Chamo estas correntes de ideologias, e não de teorias, porque as verdadeiras teorias admitem um questionamento crítico e radical, enquanto as ideologias, não. Explico. Ser crítico não é sair desconstruindo, agredindo e ofendendo tudo, como parece ser a norma em certos debates públicos hoje, mas procurar os critérios, questionar os critérios no pensamento debatido. Ser crítico não é rejeitar todo e qualquer critério (isto qualquer adolescente sabe fazer). Mas ser crítico é buscar critérios sólidos para o próprio pensamento. Trata-se de tê-los, e mais, trata-se de tornar explícitos os verdadeiros critérios do debate – não os alegados, mas os efetivos. Com todo o respeito à pessoa do outro debatedor, mas sem medo de confrontar solidamente seus argumentos.

Neste campo, qualquer discussão que se pretenda séria e que comece acusando de fóbico ou de opressor o debatedor que discorda já se transformou numa discussão ideológica. As fobias existem, e devem ser combatidas com toda seriedade. Mas acusar de fóbico qualquer um que discorde das suas próprias teorias ideológicas é impossibilitar, mesmo em tese, qualquer possibilidade de discussão crítica. É transportar o diálogo para o campo do argumento pessoal contra o outro, e mais, transformar o outro em alvo fácil para a militância “engajada”. Esta é exatamente a marca daqueles modos de pensar que John Rawls coloca como desprovidos de sustentação em razões públicas, ou seja, em razões que não derivam de um sistema de pensamento fechado e insusceptíveis de debate franco. Pois quem discorda dos consensos contemporâneos, tão frágeis em seus fundamentos ideológicos, é de logo tachado como fóbicofundamentalistaintolerante ou integralista religioso, e desclassificado como pessoa sem voz. Quando na verdade são os ideólogos de tais sistemas que estão agindo longe da reta razão e do respeito ao outro.

A verdadeira crítica e o verdadeiro radicalismo partem sempre da reta razão.

Ao lado da verdadeira crítica que parte da reta razão, o verdadeiro radicalismo filosófico – que é a busca racional e aberta da raiz do que está sendo debatido. Qual a “verdadeira raiz” deste assunto? Esta é a única pergunta efetivamente radical que se pode colocar. Mas quando se acredita que a raiz de tudo que existe no mundo é apenas a opressão resultante de qualquer relação – seja ela econômica, religiosa, social ou mesmo sexual – então a simples pergunta pela raiz de um pensamento, feita por quem não parte do mesmo pressuposto “libertador de opressões” coloca imediatamente o questionador na posição de opressor, e portanto desautorizado para o debate. Para estes pensamentos, estes “ismos” contemporâneos, qualquer um que coloque questionamentos críticos e radicais a partir de outra base que não aquela do “combate às opressões” acima listadas é, por princípio, ele mesmo, um opressor, e não está admitido ao diálogo, mas torna-se imediatamente alvo de militância. Neste sentido, por não permitir questionamentos críticos e radicais a partir de outros fundamentos filosóficos que não os seus próprios e que estes pensamentos não se constituem em teorias, mas em verdadeiras ideologias.

Construir uma nova apologética – um desafio enorme.

Tudo isto parece muito complicado, e de fato é. Principalmente porque, a partir do pecado original (para quem acredita nele) ou do campo do “inconsciente”, do “id”, da “sombra”, (para quem não acredita no termo “pecado original”, mas não pode deixar de enxergar sua realidade ontológica), toda relação tem em si a potencialidade do desvio, da imperfeição, do logro, da frustração. Ocorre que os ideólogos contemporâneos denunciam as próprias relações a partir da sua patologia acidental, como portadoras de um mal intrínseco. Assim, o fato de que há, por exemplo, famílias patogênicas, determinaria que todas as famílias o são, e que portanto deveríamos desconstruir a própria noção de família. E qualquer um que venha ponderar, no sentido de que não é justo condenar a substância pelo acidente indesejado passa a ser apenas um fundamentalista tradicionalista conservador patriarcal. Agredido pessoalmente, sem poder revidar no mesmo tom por causa das suas convicções sobre o respeito ao outro e à objetividade da razão humana, o debatedor se cala. E os ideólogos proliferam.

É neste campo que agiria uma verdadeira nova apologética. Diante de uma forte barreira ideológica como esta, reafirmar a capacidade da razão humana de não somente conhecer critérios, como de questionar a partir deles a fim de aprofundá-los e arraigá-los mais firmemente na verdade é uma tarefa primordial de uma apologética assim. Uma apologética que de fato nos possibilite reentrar nos debates contemporâneos com plena confiança na força da argumentação sensata, venha ela do costume imemorial, das tradições religiosas ou das descobertas verdadeiramente científicas ou filosóficas. Sem ter que ficar a todo momento justificando as próprias posições, mesmo as mais respeitosas à pessoa do debatedor adverso, e mais abertas a ponderar com calma as razões que apresenta, contra acusações de conservadorismointegralismofobiaantilaicismotradicionalismoopressão ou quaisquer outras que simplesmente desclassificam a voz do interlocutor. Quem terá coragem de desenvolver uma nova apologia nestes termos? Não é um desafio fácil. Mas será um grande serviço à democracia.