(Artigo de Florentino Beirão, publicado em Reconquista, de 21-Novembro-2013)

Nunca se falou tanto na família como nestes últimos tempos. É como as dores do corpo. Só se fala de um órgão quando ele adoece. De resto, nem se dá por ele. Demos uma vista de olhos pelo que se está a passar à nossa volta. Iniciemos pelas intervenções da igreja portuguesa. A diocese de Portalegre e Castelo Branco elegeu, para finalizar o seu Sínodo, o tema “Família, Natureza e Missão”. A recente Conferência Episcopal Portuguesa voltou de novo ao assunto, questionando alguns aspectos legislativos recentes, referentes à família. Do Papa Francisco, vem a notícia de um vasto inquérito às comunidades católicas, à escala mundial, sobre a mesma problemática. Por exemplo, o Vaticano quer saber, entre outras problemáticas, o que pensam os católicos sobre o divórcio, a contracepção, uniões de facto, uniões entre pessoas do mesmo sexo e adopção por parte destes casais.

A nível europeu, o próximo ano será dedicado ao “Ano da Família”. Na sociedade portuguesa, também não têm faltado artigos e inquéritos sobre este tão vasto e complexo tema. Os seus resultados têm vindo a lume informando-nos, por exemplo, de que hoje, cerca de 50% dos casamentos, já redundam em divórcio.

Num recente estudo (Expresso, 9.11.2013), ao serem auscultados jovens estudantes universitários, sobre a família, os resultados mostram o seguinte: há cada vez mais jovens a querer ter filhos, mas sem vida de casal. Cerca de metade dos nascimentos, já em 2012, aconteciam fora do casamento. Há 30 anos, reparem, nascia apenas uma criança em cada dez. Até os nascimentos entre pais que não coabitam, está hoje a transformar-se numa tendência. Deste modo, podemos inferir que a família tradicional de pai, mãe e filhos, na mesma casa, está a esboroar-se. Acrescentemos ainda que é cada vez mais frequente ter-se meios-irmãos. Deste modo, os irmãos biológicos vão a diminuir cada vez mais. Planear ter filhos, sem estarem casados ou a viverem em união de facto, começa a ser o pão nosso de cada dia. Contudo, 71% dos jovens querem um projecto de conjugalidade dos quais, 48% com casamento e 23%, em união de facto.

Relativamente à relação amorosa entre casais, um recente estudo revelou que 72% se considera estável e feliz.

É caso para perguntarmos, família, para onde vais? Que dizes de ti mesma?

A questão família, quanto a nós, não é, essencialmente, cultural, ideológica ou política. Fundamenta-se na natureza das coisas. É natural e humana. A sua raiz encontra-se na complementaridade natural entre um homem e uma mulher. Os factos objectivos levam-nos a que assim pensemos a família, como fonte de transmissão da vida e equilíbrio efectivo do ser humano. Apenas ela permite a estruturação da população, a sua continuidade e o seu desenvolvimento, mediante a sucessão de gerações. Ligada ao núcleo familiar encontra-se ainda a insubstituível responsabilidade relativa à educação dos filhos. Na família se transmitem os valores, a língua, as tradições, o património cultural e as expectativas quanto ao futuro dos filhos. Daqui resulta a coesão intergeracional que tanto hoje se apregoa.

Que seria dos jovens se não existisse a almofada da família, nestes tempos de crise? A sua mais prolongada permanência junto dos seus pais demonstra bem de como, em tempos difíceis, a família desempenha um papel fundamental.

Por todas estas razões, toda a sociedade deve contribuir para a defesa dos valores ligados à família, embora esta se apresente hoje, em formas tão diversas. As políticas governamentais têm que ter sempre em conta que a família é a célula da sociedade, um sujeito social que, quando ela adoece, toda a sociedade sofre. É o que acontece hoje no nosso país com o desemprego galopante, as situações de pobreza, a precariedade no trabalho e a falta de políticas eficazes para a promoção da natalidade.

Onde se encontram hoje a planificação e a execução de políticas coordenadas, de carácter integral e intersectorial, de ajuda às famílias?