Pobreza, dignidade humana, capitalismo, ambiente, dentre os temas da entrevista com a revista francesa. Depois a confissão: “Sou um sacerdote da rua. Gostaria de passear por Roma e comer uma pizza”

Roma, 15 de Outubro de 2015 (ZENIT.org) – Finalmente também a ‘tépida’ França cedeu ao efeito Francisco. O Papa argentino, de fato, é o protagonista da capa desta semana da nova revista Paris Match, geralmente reservada a celebridades do esporte ou do entretenimento. A revista transalpina dedicou uma extensa entrevista com o Papa, realizada pela vaticanista Caroline Pigozzi, que tem temas como pobreza, dignidade humana, críticas ao capitalismo, ambiente. Em suma, nada de novo (caso se pensasse a alguma revelação sobre a eventual viagem à França, tão desejada pelos católicos do País), nem de ‘escandaloso’ (nem sequer um aceno para a questão do embaixador gay Laurent Stefanini ou sobre o caso de mons. Charamsa), mas só as questões que mais estão no coração do papa.

Destacam-se, no entanto, as notas de tinte mais pessoal que o Papa argentino revela em cada conversa direta com a imprensa. Por exemplo, a formação jesuíta que agradece por tê-lo presenteado com o “discernimento tão querido por Santo Inácio, a busca diária para conhecer melhor  Senhor e segui-lo sempre mais de perto”. Ou talvez a devoção a Santa Teresa de Lisieux, “uma das santas que mais nos fala da graça de Deus e de como Deus toma conta de nós”, à qual se confia ainda hoje nos momentos de dificuldades, e aquela pelos seus pais, Luis e Zélia, que vai canonizar no próximo dia 18 de outubro, “um casal de evangelizadores que deram testemunho da beleza da fé em Jesus. Entre os muros domésticos e fora”.

Destacam-se também as declarações do estilo: “sempre fui um sacerdote de estrada” e “também agora eu gostaria de passear pelas ruas de Roma, cidade muito bonita”. Talvez vestido “simplesmente como um sacerdote?”, pergunta a jornalista. “Não abandonei totalmente o clergyman negro debaixo da batina branca!”, responde Bergoglio, e reitera ainda o seu desejo de “’mangiare’ uma boa pizza com os amigos”: “Sei que não é fácil, e mais praticamente impossível. O que nunca me falta é o contato com as pessoas. Encontro muitas, muito mais do que quando eu estava em Buenos Aires, e isso me dá muita alegria! Quando abraço as pessoas que encontro, sei que é Jesus que me segura nos braços”.

O Papa Francisco também fala da escolha do nome, explicando, como já no passado, que no momento da eleição na Capela Sistina “me motivou não tanto a mensagem de São Francisco sobre a criação, mas o seu modo de viver a pobreza evangélica”.

Sobre a pobreza, são duríssimas as críticas que faz ao sistema econômico atual. Um sistema “injusto”, afirma, no qual prevalecem o capitalismo e o lucro, que em si mesmos “não são diabólicos, se não são transformados em ídolos”. “Não o são se são instrumentos”, esclarece; pelo contrário, “se o bem comum e a dignidade dos seres humanos passam ao segundo plano, por não dizer ao terceiro lugar, se o dinheiro e o lucro se tornam fetiches a serem adorados, então, as nossas sociedades estão arrasadas”.

“A humanidade – é, portanto, o apelo do Santo Padre – e toda a criação devem deixar de estar a serviço do dinheiro” e recoloca no centro “a pessoa humana, a sua dignidade, o bem comum, as gerações futuras que vão povoar a terra depois de nós” que, de outra forma, acabarão vivendo em um “monte de lixo e entulho”. “O cristão é inclinado ao realismo, não ao catastrofismo – acrescenta.  Embora se, precisamente por esta razão, não possamos esconder uma evidência: o sistema atual é insustentável”.

Como insustentável é também a degradação progressiva do ambiente, denunciado na recente Encíclica Laudato Si’. A este respeito, o Papa afirma: “A nossa casa comum está poluída, não para de deteriorar-se, é necessário o compromisso de todos, é necessário proteger o homem da autodestruição”. O olhar se dirige, portanto, a dezembro quando haverá em Paris a conferência da ONU sobre o clima, a assim chamada Cop21, expressando o desejo de que a cúpula “possa contribuir para escolhas concretas, partilhadas e com objetivos que levem, a longo prazo, ao bem comum”.

Não falta na entrevista uma referência aos conflitos que têm assolado os territórios do Oriente Médio, Síria e Iraque, em particular. A este respeito Francisco lembra o “dever humano de agir diante da urgência”, sem esquecer de cuidar “das causas dos acontecimentos”. Porque “não podemos resignar-nos diante do fato de que estas comunidades, hoje minorias no Oriente Médio, sejam obrigadas a abandonar as suas casas, as suas terras”. Além disso, “não esqueçamos a hipocrisia de todos estes poderosos da terra que falam tanto de paz mas que, debaixo dos panos, vendem armas”, acrescenta o Papa.

E destaca que, como Vaticano, “procuramos incentivar através do diálogo a solução dos conflitos e a construção da paz. Procuramos incansavelmente as vozes pacíficas e negociáveis para resolver as crises e os conflitos”. “A Santa Sé – garante – não tem interesses próprios para serem defendidos no cenário internacional, mas procura por meio de todos os canais possíveis incentivar os encontros, os diálogos e os processos de paz, o respeito dos direitos humanos”. Até porque, destaca Bergoglio, “sobre questões mais delicadas a ação do Papa e da Santa Sé permanece independente do grau de simpatia ou de entusiasmo que suscitam em um momento ou outro algumas personalidades”.

Recorda-se também viagem a países como Albânia e a Bósnia e Herzegovina, onde – diz o Papa – “tentei mostrar exemplos de coexistência e cooperação entre homens e mulheres que pertencem a diferentes religiões, para superar as feridas ainda abertas que foram causadas por Tragédias recentes”. Além disso, isso é o que pede o evangelho: “Que nós sejamos construtores de pontes e não de muros”, sublinha o Papa.

“Eu não faço projetos, não me ocupo nem com estratégia nem com política internacional”, esclarece, “sou consciente de que em muitas circunstâncias a voz da Igreja é uma ‘voz clamantis’ no deserto’”. Porém, quando algo grande acontece, como o degelo USA-Cuba, no entanto, “não precisa exagerar o papel do Papa e da Santa Sé… Nós só buscamos favorecer o diálogo dos responsáveis dos países e, especialmente, oramos”.