Durante a homilia em Santa Marta, Francisco exorta os fiéis a serem um “povo de Deus” que recusa privilégios e está próximo dos marginalizados

Por Luca Marcolivio

 

ROMA, 17 de Novembro de 2014 (Zenit.org) – “Microclima eclesiástico” é o novo termo cunhado pelo Papa Francisco para indicar a atitude daqueles cristãos que são indiferentes, que tem medo da pobreza e da marginalização.

Na homilia desta manhã em Santa Marta, o Santo Padre refletiu sobre o Evangelho de hoje (Lc 18,35-43), cujo protagonista é o cego de Jericó, que, segundo o Papa, representa a “primeira classe de pessoas”: ele era um marginalizado, um ninguém para a sociedade do seu tempo, no entanto, “tinha sede de salvação”, ele queria “ser curado”.

Como em outras ocasiões, os discípulos tendem a se reunir em torno de Jesus, evitando o contato com alguém que seja diferente deles, socialmente excluído. Mas a tenacidade daquele homem, o levou a bater na “porta do coração de Jesus”, superando a resistência dos discípulos que queriam afastar “o Senhor da periferia”.

Muitas vezes isso acontece entre nós: criamos um “microclima eclesiástico”, que nos leva ao confinamento, uma espécie de “circulo” fechado para os de fora.

Com isso, os “sacerdotes”, “bispos” e “fiéis” em todos os níveis não olham mais para a “necessidade do Senhor”, que “tem fome”, “sede”, que está “na prisão” ou no “hospital”. E este “clima nos faz tão mal”, disse o Papa.

É o complexo dos que dizem: “somos eleitos, estamos com o Senhor” e tendem a afastar qualquer um que possa “incomodar” o Senhor, até mesmo as “crianças”. Tornam-se, assim, um grupo não “eclesial” mas “eclesiástico”, caindo na “tentação de esquecer o primeiro amor, aquele amor tão lindo que todos nós recebemos quando o Senhor nos chamou, nos salvou, nos disse: “Mas eu te amo tanto”, disse Francisco.

Esquecer o primeiro amor também significa “esquecer as periferias, onde eu me encontrava, e me envergonhar disso”.

O povo de Deus, no entanto, não é formado apenas por discípulos ‘elitistas’: é também um “povo simples”, que louva o Senhor pela cura do cego e que, hoje em dia, podemos encontrar, por exemplo, nas “idosas” que caminham com sacrifício para “rezar em um santuário da Virgem Maria”.

Elas “não pedem privilégios”, mas somente “graça”: são “fiéis” que estão dispostos a “perder tempo com o Senhor”, sem esquecer “a igreja marginalizada”.

Devemos pedir ao Senhor, recomendou o Santo Padre, a graça de jamais entrar neste “microclima dos discípulos eclesiásticos, privilegiados, que se afastam da Igreja de Deus, que sofre, que pede salvação, que pede fé, que pede a palavra de Deus”, e pedir, pelo contrário, a graça de ser “povo fiel de Deus, sem pedir ao Senhor qualquer privilégio, que nos afaste de seu povo”.