Numa reflexão sobre o propósito da Laudato Sì, a ambiciosa encíclica do Papa Francisco dedicada à sustentabilidade do planeta, o investigador e docente Henrique Leitão destaca o “argumento global” contido no documento, que integra “os múltiplos aspectos da relação da humanidade com a Terra” – das graves ameaças ambientais à relação do homem com a natureza. Na sua perspectiva, o grande desafio é enfrentar o “paradigma tecnocrático”, desenvolvendo “sociedades tecnológicas” onde se possa “viver humanamente”

 

POR GABRIELA COSTA

“Quando nos interrogamos acerca do mundo que queremos deixar […] exige-se ter consciência de que é a nossa própria dignidade que está em jogo” – Laudato Sì

Que tipo de mundo queremos deixar às gerações vindouras? Para o Papa Francisco, a resposta a esta questão que interpela filosoficamente a humanidade desde sempre exige enfrentar “um drama para nós mesmos”, com a “consciência de que é a nossa própria dignidade que está em jogo”.

Na encíclica Laudato Sì, publicada em Maio de 2015, a longa e profunda reflexão sobre o cuidado da Casa Comum ultrapassa em muito a perspectiva meramente ambiental sobre a sustentabilidade do planeta, evocando a urgência que os Papas têm imprimido aos seus apelos sobre esta temática e, sobretudo, a importância fundamental de mudar o “paradigma tecnocrático” da humanidade em relação à mesma.

Este que é o primeiro documento da Igreja a consagrar a urgência de consciencializar para o tema da ecologia “desenvolve, completa e remata um arco de intervenções papais de grande impacto”, que se iniciaram em 1979 com a proclamação de Francisco de Assis como o padroeiro dos que defendem a ecologia. O investigador, docente e presidente do Departamento de História e Filosofia das Ciências da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, Henrique Leitão, analisou recentemente o contexto, o teor e o propósito desta encíclica “notável”.

A reflexão sobre as questões fundamentais da vida, a partir da ‘leitura’ de Laudato Sì pelo também Prémio Pessoa 2014, teve lugar na Universidade Católica Portuguesa, a 5 de Novembro, no âmbito do Congresso das Associações de Profissionais Católicos, precisamente sob o mote ‘Cuidar da Casa Comum’.

Henrique Leitão, Investigador na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa e Prémio Pessoa 2014 / © Associações de Profissionais Católicos

“A crise ecológica é uma crise moral”

João Paulo II inscreveu o tema ambiental no centro das intervenções papais. E fê-lo “com uma intensidade verdadeiramente notável” para a época, há mais de trinta anos atrás. Centrou-se na questão ecológica desde o início do seu papado, insistindo que, se o mundo queria a paz tinha necessariamente de cuidar do ambiente, como proferiu na sua primeira mensagem do dia Mundial da Paz, a 1 de Janeiro de 1979.

Ainda no início do seu pontificado, nesse mesmo ano, proclamou São Francisco de Assis “padroeiro celeste dos que defendem a ecologia”. Regressou às questões ecológicas em três das suas encíclicas, em discursos às Nações Unidas e ao Parlamento Europeu, e em dezenas de outras alocuções. A 1 de Janeiro de 1990, talvez no “seu texto mais acabado sobre os problemas ambientais”, como sugere Henrique Leitão, João Paulo II, O Papa Verde” introduziu “o mote, quase em forma de um grito, de que ‘a crise ecológica é uma crise moral’”.

Num tom que não pode ser ignorado por ninguém, Francisco lança os seus avisos e expressa a sua preocupação

Também Bento XVI reflectiu repetidamente as suas preocupações sobre a relação com a natureza e o respeito pelos recursos naturais numa grande variedade de textos e mensagens. Nas suas manifestações desenvolveu uma concepção a que chamou “ecologia do homem”, título da colectânea das suas alocuções sobre temas ecológicos recentemente publicada pela editora do Vaticano.

E é neste “movimento contínuo de preocupações da Igreja Católica e dos Papas nas últimas três décadas” que se enquadra a encíclica Laudato Si, conclui o investigador.

Num tom que não pode ser ignorado por ninguém, Francisco lança os seus avisos e expressa a sua preocupação: fala do “uso irresponsável e do abuso”, da terra “oprimida e devastada”, da Terra transformada “num imenso depósito de lixo”, de uma “destruição sem precedentes”. Fala também na “morte prematura de muitos pobres”, de “efeitos desastrosos no rendimento das culturas”, de um “comportamento [nos últimos dois séculos] que às vezes parece suicida”, de como nunca antes “maltratámos a Casa Comum” com um estilo de vida que, “por ser insustentável, só pode desembocar em catástrofes”. E de uma “espiral de autodestruição onde nos estamos a afundar”.

Considerando a atenção que o tema mereceu pelos anteriores Papas, esta encíclica não adopta um tom “completamente novo” na insistência que faz sobre uma emergência ecológica, de que João Paulo II também já falara. Mas, como explica Henrique Leitão, integra alguns aspectos que a distinguem de todos os outros pronunciamentos papais.

Não há duas crises separadas, mas uma única e complexa crise sócio-ambiental

Desde logo, distingue-se por ser a primeira encíclica que consagra, “específica e unicamente”, o tema da Ecologia. Como defende Henrique Leitão, “Francisco parece ter querido rematar a contínua série de pronunciamentos papais das últimas três décadas, com um documento da maior autoridade que, de certa maneira, transcende uma posição pessoal (mesmo de um Papa) e compromete toda a Igreja e todos os católicos”.

Em segundo lugar, a Laudato Sì distingue-se pela “grande ambição temática do texto”. Tratando-se “do mais extenso documento papal sobre o assunto”, é o primeiro a “oferecer uma visão e um argumento global” que integram “os múltiplos aspectos da relação da humanidade com a Terra, a nossa Casa Comum” – das graves ameaças que o planeta enfrenta à relação do homem com a natureza.

Para o investigador, a encíclica do Papa Francisco é também admirável por introduzir vectores principais de análise, com uma linguagem que escapa “quer às formulações clássicas da Igreja, quer aos tecnicismos dos cientistas”. Nela aparecem terminologia e conceitos novos, como a “cultura do descarte”, “dívida ecológica”, “paradigma tecnocrático”, “excesso antropocêntrico”, e a noção de que “tudo está interligado e que, portanto, não há duas crises separadas, uma ambiental e outra social, mas uma única e complexa crise sócio-ambiental”, nota.

Na sua perspectiva, o ponto mais original de toda a encíclica encontra-se naquilo a que o Papa chama de “paradigma tecnocrático”, o qual, nas suas palavras, é responsável por um “excesso antropocêntrico”. Excesso este que “coloca a razão técnica acima da realidade”, especifica o Prémio Pessoa 2014.

A ambivalência em torno do valor e das consequências do agir humano é um tema que angustia a humanidade desde sempre

Como explica, “a ambivalência em torno do valor e das consequências do agir humano é um tema que angustia a humanidade desde sempre. Por um lado reconhecemos e apreciamos os resultados da civilização, mas por outro assalta-nos sempre a dúvida se não teremos perdido algo com o progresso”.

Este dilema já se encontra reflectido nas mitologias da antiguidade, portanto, não tem que ver com a modernidade. Mas com o desenvolvimento tecnológico e científico dos últimos dois séculos tornou-se “muito mais candente”. E hoje o problema coloca-se quanto ao desenvolvimento de “sociedades tecnológicas” onde se possa “viver humanamente”.

Cuidar da Terra “com o coração de um pobre”

Para Henrique Leitão, “o aspecto que mais impressiona nesta encíclica é a sua urgência”. Urgência para que se tomem algumas acções, adoptando “outros hábitos e novas regras, simples e óbvias, que tornem o nosso comportamento individual mais adequado”. Mesmo apesar de o real impacto dessas acções “ser diminuto”.

Porque a realidade é que “muitas das questões ecológicas mais graves com que o mundo se debate, da redução da biodiversidade às alterações climáticas, transcendem qualquer tentativa de resolução que, individualmente, cada um de nós [ou um país] possa fazer”, diz o investigador.

A urgência que perpassa em toda a encíclica é a de lidar com o problema moral de que o problema ecológico é consequência

Como questiona, será que a Laudato Sì é, afinal, “apenas um conjunto de recomendações e alertas para os grandes países do mundo, para os grandes empórios industriais e económicos, as grandes empresas, os grandes poluidores”? Muito pelo contrário, responde, “e é aqui que esta encíclica é especialmente relevante e nos fala”. A urgência “que perpassa” em todo o texto é “a urgência em lidar com o problema moral de que o problema ecológico é consequência”.

“A dificuldade em levar a sério este desafio tem a ver com uma deterioração ética e cultural, que acompanha a deterioração ecológica. O homem e a mulher deste mundo pós-moderno correm o risco permanente de se tornarem profundamente individualistas, e muitos problemas sociais de hoje estão relacionados com a busca egoísta de uma satisfação imediata, com as crises dos laços familiares e sociais, com as dificuldades em reconhecer o outro”, alerta Francisco na encíclica.

E é por tudo isto que a cultura ecológica “deveria ser um olhar diferente, um pensamento, uma política, um programa educativo, um estilo de vida e uma espiritualidade que oponham resistência ao avanço do paradigma tecnocrático”. E nunca uma cultura reduzida “a uma série de respostas urgentes e parciais” para os problemas ambientais.

A dificuldade em levar a sério este desafio tem a ver com uma deterioração ética e cultural

Como sublinha o professor, “dificilmente se poderia anunciar com maior precisão” o que devem ser os nossos actuais objectivos para ‘Cuidar da Casa Comum’. Trata-se de “viver com um coração pobre”, abordando a pobreza no sentido em que o cristianismo dela fala (e não no sentido social do termo, de escassez e privação económica). Essa “disposição correcta no uso dos bens e na tomada de uma posição existencial que exprima aquela total dependência de Deus que é, na verdade, a situação humana” é, no entender de Henrique Leitão, “uma virtude” que o Ocidente cristão “parece ter esquecido”.

O “modo radical” com que Francisco de Assis vivia a pobreza e o “seu profundo amor pelo mundo criado, pela natureza”, encerra uma perspectiva sobre os desafios globais que não poderia ser mais actual. Esse legado do patrono da ecologia é recordado na encíclica do Papa Francisco, quando defende, nas palavras de Henrique Leitão, que “a única maneira de cuidarmos […] dos bens e recursos da natureza e da Terra é se os olharmos e usarmos com o coração de um pobre, que sabe que tudo lhe foi dado”.

Insistindo que “a atenção para os outros, a construção de sociedades mais justas, o respeito pela natureza, nascem de um coração que vive na consciência da sua absoluta e total pobreza diante de Deus”, o investigador defende que “é desta consciência da total gratuidade que é a vida que nasce o respeito por todos os seres criados”. E “que nasce a alegria que permite o acolhimento do próximo e o cuidado pela natureza”.

A cultura ecológica deveria ser um olhar diferente, que oponha resistência ao avanço do paradigma tecnocrático

Como conclui Henrique Leitão, o apelo que Francisco faz com a encíclica Laudato Si’ desafia-nos, sobretudo, neste “ponto crítico onde se joga a nossa existência”, no “modo como estamos diante de todos os homens” e no “modo como estamos diante dos bens desta nossa Casa Comum”.

 
Artigo publicado em “Valores, Ética e Responsabilidade” – ACEGE, 24 novembro 2016