Na véspera da viagem do Papa, Valentina Karakhanian narra seu trabalho de investigação sobre o papel do Vaticano para parar o genocídio. Uma definição que define “atrevida” com relação ao horror de cem anos atrás

 

23 JUNHO 2016 – Da tragédia que dizimou os armênios no Império Otomano no início do século XX muito tem sido escrito; no entanto alguns aspectos ainda permanecem inéditos, como o grande papel desempenhado pela Santa Sé durante esta página obscura da história contemporânea.

Um raio de luz se abre hoje com o livro “A Santa Sé e o extermínio dos armênios no Império Otomano”, recentemente publicado pelas Edições Cantagalli na Itália; se trata de uma cuidadosa pesquisa histórica extraída dos Arquivos Secretos Vaticanos que, além de fornecer ao leitor uma extensa documentação sobre o massacre, permite entrar no evento revelando nomes, rostos e ações de quem, de Roma, tentou acabar com este “Grande Mal”.

Autora, junto com Ormar Viganò, é Valentina Karakhanian, até agora assistente do embaixador da Armênia na Itália, atualmente postuladora das Causas dos Santos, na Pontifícia Universidade Urbaniana de Roma e pesquisadora do Arquivo Secreto Vaticano e do Arquivo Histórico da Secretaria de Estado. Na véspera da viagem de amanhã do Papa Francisco na Armênia, ZENIT entrevistou-a.

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O seu livro se propõe analisar o papel desempenhado pela Santa Sé durante o genocídio da virada do século XX. Papel que, você afirma no livro, depois de um século permanece ainda “nas sombras”. Em que sentido?

Em estudos sobre a dizimação do povo arménio, com poucas exceções, pouco ou nada se diz sobre a Santa Sé. No entanto, as cartas sobre o extermínio guardadas pelos arquivos do Vaticano estão em grande parte disponíveis aos estudiosos desde 1985. E não falamos de alguns documentos, mas de pastas cheias de memorandos, telegramas, relatórios, cartas. Documentos de grande relevância que, pela sua quantidade, variedade e continuidade temporal constituem um precioso recurso para reconstruir tudo o que houve na Turquia sob os últimos dois sultãos. E que acima de tudo, mostram a atividade incessante da Santa Sé e de seus representantes em Constantinopla, a fim de parar o massacre em curso. Não só dos armênios, mas também dos melquitas, sírios, maronitas, caldeus: todos como vítimas de uma perseguição violenta contra o cristianismo.

Perseguição que ainda tem dificuldade de se definir “genocídio” …

Não é a intenção deste trabalho entrar no mérito da definição de genocídio aplicada ao Grande Mal. Na verdade, é, na minha opinião, impertinente. E explico: aqui, por meio de uma seleção ampla e fundamentada, é deixada aos documentos mantidos nos arquivos do Vaticano a história da opressão aos armênios de acordo com um calendário, com início em 1915 até o fim da Grande Guerra. No entanto, é bom ressaltar como as expressões com que se descreve a tragédia dos armênios durante sua manifestação não deixam dúvidas sobre o fato de que aqueles que redigiram os documentos e os seus destinatários tivessem clara a medida e a dimensão do que estava acontecendo na Anatólia e na Síria: deportações, massacres, extermínios, destruição, carnificinas, violências, execuções, conversões forçadas, sequestros, massacres. Palavras que alinhavadas um ao lado da outra dão, talvez, mais vida à sensação de horror do que se consumou cem anos atrás. Neste sentido o termo genocídio é impertinente: além de ser um neologismo, é uma categoria interpretativa que foca mais na responsabilidade de quem cometeu os crimes do que nos próprios crimes. Desse ponto de vista, genocídio, em vez de dizer muito, diz muito pouco.

Falávamos da obra realizada pela Santa Sé durante o extermínio. O que você descobriu na sua pesquisa?

Antes de mais nada deve-se recordar que a Igreja católica, ao contrário das várias Nações com as suas embaixadas e consulados, tinha, na época uma posição privilegiada, da qual observava os eventos. Da Palestina à Síria, do Bósforo ao Cáucaso, haviam missionários provenientes da Europa e religiosos das diversas Igrejas Orientais, divididas em dioceses e paróquias. Uma capilaridade perdida hoje, mas que nos fundos dos arquivos do Vaticano cristalizou-se como um patrimônio único de testemunhos. Os documentos vaticanos falam, de fato, das várias tentativas por parte dos representantes eclesiásticos de parar o massacre que acontecia. Desde o momento em que teve a percepção do extermínio, a Santa Sé percorreu todas as possibilidades para colocar um freio e conter a fúria contra populações indefesas, além de levar assistência espiritual e material aos sobreviventes dispersos e privados de tudo. Dos protestos do delegado apostólico em Constantinopla, mons. Angelo Maria Dolci, aos apelos escritos à mão de Bento XV ao sultão; das coletas de subsídios para os pobres armênios até projectos de navios com ajuda humanitária com bandeiras do Vaticano. Um enorme trabalho, porém quase solitário no engessado contexto internacional das alianças. E que, como dizíamos, ainda hoje se deixa nas sombras dos estudiosos porque considerada uma ação de exclusivo caráter moral, sem notáveis consequências políticas.

Além da figura de Bento XV, na pesquisa emerge também a obra de Eugenio Pacelli. O que fez o futuro Papa Pio XII nesse contexto dramático?

Pacelli na época da Grande Mal era núncio apostólico em Mônaco da Baviera. O que emergiu dos nossos estudos é especialmente a sua grande experiência e a capacidade de mediar, além da grande vontade de dar suporte aos povos perseguidos. Em particular o então núncio Pacelli conseguiu a colaboração do colega mons. Dolci, um dos protagonistas principais da ação da Santa Sé. Ambos realizaram uma verdadeira estratégia para salvar as pessoas, para fazê-las fugir ou para enviar a elas ajudas materiais por meio da Alemanha, a Austria, e a Hungria.

Vê um traço comum entre o trabalho realizado pelos vários Papas em favor da Armênia?

Sem dúvida. Desde sempre houve um trabalho incansável que a Santa Sé desenvolveu em favor dos últimos, dos perseguidos, dos necessitados. É o que, de fato, se fez nos tempos de Bento XV, depois com Pio XII e com o apoio, também depois do Genocídio, por uma Armênia independente. Como esquecer então da viagem de João Paulo II e a assinatura da Declaração comum com Karekin II? Toda esta longa história de amizade, de solidariedade, de fraternidade agora é selada pela visita de amanhã do Papa Francisco.

Você, como armênia, o que espera da visita do Papa Bergoglio?

Eu só posso me alegrar… Quando dei o meu livro para o Santo Padre lhe diridi a forma de saudação que usamos nós armênios: “Que o teu pé seja abençoado nesta terra”. Esta viagem para mim e o meu povo que o espera realmente de braços abertos é fundamental. Além do mais, ouvir dizer, com a humildade característica do Papa Francisco: “Irei visitar aquela terra como peregrino” só faz ajudar-nos a valorizar a nossa fé. O povo Armênio é um povo que se identifica com a própria fé; o meu desejo é, portanto, que esta visita do Papa nos ajude a redescobri-la e vive-la melhor. No fundo, há também a esperança de que neste momento difícil, por causa da guerra no Nagorno-Karabakh a presença do Papa traga uma mensagem de paz e consolo e que isso possa criar raízes naquela terra martirizada. Que aquelas duas pombas que Francisco fará voar rumo ao monte Ararat possam ser realmente uma mensagem de paz para o mundo, para a Armênia e para cada armênio da diáspora que sonha com a própria pátria.ada sonhando sua terra natal.