Encontro demasiada gente a confundir “educação” com aprendizagem escolar, esta, com o processo de transmissão de conhecimentos e este, com o método de avaliação que a moda ou a inércia veio a concentrar naquilo que se designa vagamente por “teste”. A ditadura do “teste” comanda obsessivamente o calendário das famílias com filhos na escola. O “pessoal do meio” parece reduzir a estes aspectos a discussão da eficácia do sistema educativo e das suas implicações organizativas, administrativas e sociais.

 

São sobretudo os pensadores, os que se ocupam com a saúde mental e espiritual, os psiquiatras e os orientadores religiosos que se preocupam com o aspecto relacional da educação. A educação é um processo formativo que decorre da relação entre pessoas, normalmente com estatuto relativo – pais filhos, professor aluno – visando a sua autonomia. A relação educativa é de facto uma interacção com exigências e consequências mútuas. Lembro aos pais, aos professores e aos animadores escuteiros que a acção educativa é tanto ou mais exigente para o educador como o é para o educando. Dele se exige coerência, rigor, competência, honestidade e a humildade perseverantes continuamente submetidas à prova. “Aprender até morrer” é exigência duma tarefa que tem como alvo a perfectibilidade possível de cada um.

Surgiram-me estas considerações da leitura de três textos que simultaneamente me vieram às mãos.

Vargas Llosa, Daniel Sampaio, o Papa Francisco são homens diferentes nas suas posições ideológicas e sociais. Sirvo-me das suas palavras para esclarecer e defender o valor educativo dos conceitos relacionais “autoridade”, “respeito”, “responsabilidade”, “cidadania”… nas instituições educativas “família”, “escola”, “comunidade civil”.

Vargas Llosa, intelectual “de esquerda” analisou a evolução da crítica pós-moderna do conceito de “autoridade” operada teoricamente por Foucault e seus pares e operacionalizada no maio de 68. A “autoridade” foi desligada dos factores de legitimidade, qualidade e competência que a fundamentavam para se confundir com imposição, arbitrariedade, conformismo, a pura repressão. Professores, pais e representantes públicos da autoridade e da lei interiorizaram estas ideias e abdicaram da sua responsabilidade. As consequências geraram a desorientação nas famílias, o caos na ordem pública e na escola, destruíram a capacidade de mobilidade social e correcção das desigualdades. O mundo não foi libertado da “repressão”, da “alienação” e do “autoritarismo”, está cheio de pais e professores sem autoridade, indecisos, sujeitos ao “politicamente correto” e agressivamente reivindicativos. Basta olhar à volta ou prestar atenção aos destaques da comunicação social. (Cf “Proibido proibir” in A Civilização do Espetáculo, pp. 77-91)

Num registo mais experiencial de acordo com o seu estatuto clínico e proximidade das famílias e das escolas, Daniel Sampaio chama à colação a ideia de “respeito” (“Educar em nossos dias”, Público 2015.02.08). A ausência de respeito corrói os vários níveis das relações humanas, enfraquece a autoridade, a relação hierárquica e a reciprocidade de papéis na família, na escola, no espaço público, no trato político. Daí resulta a dificuldade de uma comunicação dialogante mutuamente acolhedora, o domínio da opinião individualista e fraturante, o enfraquecimento do papel dos modelos, da firmeza no respeito pelas regras, o receio de decidir e enfrentar a contestação, e a criação do clima duma agressividade larvar que facilmente degenera em violência. A “violência doméstica”, “a violência escolar” são crescente motivo de preocupação das sociedades atuais, também na nossa.

A convivência respeitosa que se aprende na família está na base da cidadania, da consciência da responsabilidade social que “começa a formar-se na infância, através do relacionamento das crianças com os adultos ao seu redor. A capacidade de reconhecer os limites do seu comportamento e as necessidades dos outros é uma meta essencial da educação dos mais novos, a iniciar na família desde os primeiros anos e a continuar na escola”. (Cidadania)

O Papa Francisco consagrou à temática da família as catequeses das suas audiências deste ano. Em 28 de janeiro e 4 de fevereiro falou especificamente da figura e missão do pai na família e em 13 e 20 de maio sobre a relação familiar na educação dos filhos “para que cresçam na responsabilidade por si mesmos e pelo próximo”.

O Papa Bergoglio, educador e pastor próximo do seu povo testemunhou por experiência direta o distanciamento do “pai” e suas consequências da vida e educação familiar. A educação exige tempo, atenção, é intercâmbio afectivo, diálogo atento, constância de regras, proposta e testemunho de valores. A “ausência da figura paterna” priva os filhos das manifestações vivas do seu afeto e “de exemplos e guias respeitáveis na sua vida de todos os dias”. (28 jan)

A “marginalização” do pai qualquer que seja a sua justificação – preconceito ideológico ou tecnocrático, auto-exclusão deliberada ou pretextada por motivos económicos ou profissionais – exige remédio para bem dos educandos, da família, da sociedade. “Pai presente, sempre”, na família com a esposa, compartilhando tarefas e responsabilidades, acompanhando os filhos no seu crescimento. Pai presente, atento e interventivo, visando o equilíbrio entre o proteccionismo, ansiedade e o controle que abafa a autonomia do filho e o “pai fraco, complacente, sentimental. O pai que sabe corrigir sem aviltar, é o mesmo que sabe proteger sem se poupar. (4 fev)

A família é de facto o primeiro meio de aprendizagem da relação social. Do seu sucesso dependem as outras experiências de relacionamento entre pares, em grupo, com as várias formas de autoridade. Confirma-o a frequente afirmação mútua de culpas entre família e escola, entre família e sociedade, sobretudo nos casos de comportamentos violentos e desviantes. “A comunidade civil com as suas instituições, tem uma certa responsabilidade – podemos dizer paterna – em relação aos jovens, uma responsabilidade que por vezes descuida e exerce mal. Também ela muitas vezes os deixa órfãos e não lhes propõe uma verdadeira perspectiva. Assim, os jovens permanecem órfãos de caminhos seguros para percorrer, órfãos de mestres nos quais confiar, órfãos de ideais que aqueçam o coração, órfãos de valores e de esperanças que os amparem diariamente. (28jan)

Na catequese de 15 de maio passado, o Papa Francisco assumiu uma orientação pedagógica e prática, propondo coloquialmente como guia da relação familiar, das relações humanas em geral, três atitudes expressas em palavras de “boa educação”, de uso habitual e sentido óbvio: “com licença”, “obrigado”, “desculpa”. Por “boa educação” entende “o estilo das boas relações solidamente arraigado no amor pelo bem e no respeito pelo próximo”. E explica: “Com licença”: “Entrar na vida do outro, mesmo quando faz parte da nossa existência, exige a delicadeza de uma atitude não invasiva, que renova a confiança e o respeito”; “Obrigado”: “Devemos tornar-nos intransigentes sobre a educação para a gratidão e o reconhecimento: a dignidade da pessoa e a justiça social passam ambas por aqui”; “Desculpa”: “Reconhecer que erramos e desejar restituir o que tiramos – respeito, sinceridade, amor – torna-nos dignos do perdão. É assim que se impede a infecção. Se não soubermos pedir desculpa, quer dizer que também não seremos capazes de perdoar”. 

Escrito por Octávio Morgadinho e publicado em Jornal da Família, novembro de 2015