Demos então início a uma leitura da Exortação Apostólica Pós-Sinodal «Amoris Laetitia. Sobre o amor na família». Façamo-lo, como diz o Papa logo no início do texto, com a consciência de que a complexidade dos temas tratados mostra bem a necessidade de continuar a aprofundar (cf. nº 2). Não se trata, pois, de uma reflexão final que quer dizer e resolver tudo. Pelo contrário, trata-se de um convite a, sem medo, olharmos para a realidade familiar e a pensarmos à luz do amor de Deus, tirando daí as devidas consequências para a ação. E vamos fazer esta leitura capítulo a capítulo, devagarinho como nos é aconselhado no próprio texto, de modo a que cada um possa ir sendo mais consciente da sua responsabilidade no cuidado da família:

 

“Devido à riqueza que os dois anos de reflexão do caminho sinodal ofereceram, esta Exortação aborda, com diferentes estilos, muitos e variados temas. Isto explica a sua inevitável extensão. Por isso, não aconselho uma leitura geral apressada. Poderá ser de maior proveito, tanto para as famílias como para os agentes de pastoral familiar, aprofundar pacientemente uma parte de cada vez ou procurar nela aquilo de que precisam em cada circunstância concreta, […]. Espero que cada um, através da leitura, se sinta chamado a cuidar com amor da vida das famílias, porque elas «não são um problema, são sobretudo uma oportunidade»” (nº 7)

Antes de começarmos a olhar para o primeiro capítulo gostaria de sublinhar o subtítulo da Exortação: «sobre o amor humano na família», pois nele podemos descobrir qual é o tema principal que o texto quer destacar. Digo isto, pois em muitas leituras a que tenho tido acesso apercebo-me de que nem sempre deixam claro esse centro principal, enredando-se nos problemas e nas questões disputadas que, sendo sem dúvida alguma importantes, não são, no entanto, o centro. Esse, digamo-lo com toda a clareza, é o destaque que se quer dar ao amor no contexto da família e ao facto do anúncio cristão da família não poder deixar de ser verdadeiramente uma boa notícia (cf. nº 1).

Isso mesmo aparece de uma maneira muito clara no primeiro capítulo intitulado «À luz da Palavra», quando lemos no nº 11:

“O casal que ama e gera a vida é a verdadeira «escultura» viva (não a de pedra ou de ouro, que o Decálogo proíbe), capaz de manifestar Deus criador e salvador: Por isso, o amor fecundo chega a ser o símbolo das realidades íntimas de Deus (cf. Gn 1, 28; 9, 7; 17, 2-5.16; 28, 3; 35, 11; 48, 3-4). Devido a isso a narrativa do Génesis, atendo-se à chamada «tradição sacerdotal», aparece permeada por várias sequências genealógicas (cf. Gn 4, 17-22, 25-26; 5; 10; 11, 10-32; 25, 1-4.12-17.19-26; 36): de facto, a capacidade que o casal humano tem de gerar é o caminho por onde se desenrola a história da salvação. Sob esta luz, a relação fecunda do casal torna-se uma imagem para descobrir e descrever o mistério de Deus, fundamental na visão cristã da Trindade que, em Deus, contempla o Pai, o Filho e o Espírito de amor: O Deus Trindade é comunhão de amor; e a família o seu reflexo vivente. A propósito, são elucidativas estas palavras de São João Paulo II: «O nosso Deus, no seu mistério mais íntimo, não é solidão, mas uma família, dado que tem em Si mesmo paternidade, filiação e a essência da família, que é o amor. Este amor, na família divina, é o Espírito Santo». Concluindo, a família não é alheia à própria essência divina. Este aspeto trinitário do casal encontra uma nova representação na teologia paulina, quando o Apóstolo relaciona o casal com o «mistério» da união entre Cristo e a Igreja (cf. Ef 5, 21-33).”

Quando isto se diz acerca da família é claro que, apesar das muitas dificuldades que possam existir, ela é efetivamente um bem precioso e a alegria do seu amor não pode deixar também de ser o júbilo da Igreja, como é dito logo na primeira frase desta Exortação.

O tempo de Natal que celebramos sublinha igualmente esta realidade. É no seio de uma família que o Menino nasce. É sustentado pelo amor dos laços familiares que cresce em sabedoria e graça. Por isso, não podemos deixar de afirmar, como tão veementemente faz o Papa nesta Exortação, que as famílias não são um problema, mas são sobretudo uma oportunidade. (cf. nº 7).

 

 

 

Escrito por Juan Ambrósio e publicado em Jornal da Família, janeiro de 2017