As questões relacionadas com a educação ocupam hoje um lugar central nas preocupações de todas as sociedades. Já todos estamos habituados a ouvir dizer que o futuro que quisermos construir passa muito pela maneira como formos capazes de educar as nossas gerações. A este propósito sempre me impressionou, por ser totalmente certeira, a afirmação contida no Prefácio do relatório mundial de educação do ano de 1998: “O mundo que deixarmos às nossas crianças depende em grande parte das crianças que deixarmos ao nosso mundo. As esperanças que o mundo deposita no futuro residem nos jovens de hoje e na sua disposição para os desafios do próximo século. No limiar do século vinte e um, a educação da juventude nunca teve tanta necessidade do nosso empenho e recursos. Os professores nunca tiveram um papel tão crucial no nosso futuro colectivo”.

 

Estas palavras, já tão longínquas no tempo, continuam bem atuais e, apesar de já há muito termos ultrapassado o limiar do século vinte e um, a necessidade e urgência do nosso empenho na educação mantém-se, o que pode ser interpretado como um indicativo de que esta questão é transversal a todos os tempos.

Mas se a afirmação é totalmente verdadeira ela também revela, no meu entender, um dos problemas que se levantam a este nível. É que a reflexão sobre a educação tornou-se de tal maneira complexa que parece apontar para uma realidade que só pode ser trabalhada por especialistas. Ou seja, para se ser bom educador é necessário ser especialista em determinadas áreas do saber. Deste modo, o papel dos professores, dos psicólogos, dos educadores, dos orientadores vocacionais, entre outros ligados às áreas da educação, é destacado como sendo muitíssimo importante. Sem querer em nada diminuir a importância do contributo de todos estes intervenientes na educação, gostaria, no entanto, de apontar para uma outra realidade que, não sendo considerada da área de alguma especialidade, se me afigura muito mais importante ainda. Como facilmente me compreenderão refiro-me à família.

Esta afirmação pode parecer tão banal, por óbvia, que pode até acabar por perder força e não significar muito. Não é verdade que, também com frequência, costumamos falar sobre a importância do papel da família na educação? Não ouvimos muitas vezes afirmar que um dos principais problemas reside no facto das famílias, devido a muitos factores, se terem demitido do seu papel educativo, tendo tudo caído sobre a escola e sobre os seus profissionais? Todos sabemos como há muito de verdadeiro e interpelante nestas interrogações, mas também há, atrevo-me a dizer, muita confusão. É que a missão educativa da família e da escola sendo complementares não são a mesma coisa, de tal modo que nenhuma pode substituir a outra, mesmo que o tente. E também é necessário reafirmar sempre, que o papel principal, aquele que não pode nunca faltar, é o da família. Por mais desenvolvido e melhor que seja o sistema educativo, faltando esta realidade tudo pode mesmo ser posto em causa, por muito que se nos queira fazer pensar o contrário por parte de muitos dos referidos especialistas.

Repito que não quero, em nada, diminuir a importância de todos os profissionais da área da educação. Sei bem como o serviço que prestam é fundamental e mesmo indispensável. Também eu me movo nessa área, mas isso não me impede de destacar o que nunca pode deixar de ser destacado e isso, insisto, é o insubstituível lugar da família na educação. Mesmo que os nossos pais fossem ‘especialistas’ em educação, o papel verdadeiramente fundamental que desempenharam não se deveu a essa realidade, mas à relação de paternidade/maternidade que connosco estabeleceram. Algo semelhante se pode dizer dos avós e de outros familiares. Todos sabemos bem como determinados conhecimentos nos podem ajudar a resolver determinado tipo de problemas, mas igualmente todos sabemos, por experiência própria, como a relação de amor entre pais e filhos é o verdadeiramente fundamental. E ao dizer isto não estou simplesmente a referir-me àquelas situações em que as coisas correm bem, mas a todas, mesmo a aquelas em que existem tensões e nas quais pais e filhos não estão de acordo. Mais do que as palavras, se bem que estas sejam necessárias, o que verdadeiramente nos educa e faz crescer é essa relação na qual cada um assume a sua condição de ser pai ou de ser filho.

Como sempre, atento à realidade, o Papa Francisco alertou numa das suas catequeses sobre a família (20/05/2015) para essa realidade: “muitos pais são ‘sequestrados’ pelo trabalho – pai e mãe devem trabalhar – e por outras preocupações, envergonhados por novas exigências dos filhos e pela complexidade da vida actual – que é assim, devemos aceitá-la como é – e se encontram como que paralisados pelo medo de errar”.

É verdade que os pais nem sempre acertam e que muitas vezes duvidam e não sabem qual a melhor resposta a dar ou a melhor atitude a assumir. Nesses casos podem e devem pedir ajuda, não para que outros os substituam, mas para que os ajudem a assumirem o seu papel de pais, aquele que só eles podem fazer. Também a este nível a comunidade cristã é chamada a oferecer apoio e sustento às famílias, de modo a que estas assumam a missão que só a elas cabe na construção do futuro da humanidade. Como disse o Papa na já referida catequese: “É a hora dos pais e das mães retornarem do seu exílio – porque se exilaram da educação dos filhos – e reassumirem plenamente o seu papel educativo. Esperamos que o Senhor dê aos pais esta graça: de não se auto-exilar na educação dos filhos. E isto somente, o amor e a ternura e a paciência o podem fazer”.

 

 

Escrito por Juan Ambrósio e publicado em Jornal da Família, junho de 2015