A Família: Um olhar a partir da beleza e da bondade

 
Continuando a reflectir sobre a Exortação Apostólica Pós-Sinodal «A alegria do Amor», destaco aquela que me parece ser uma das propostas centrais do papa Francisco e que, como anteriormente já tive ocasião de afirmar, significa uma clara opção de caminho.

 

Eram várias as possibilidades que se levantavam, decorrendo das várias sensibilidades que se foram manifestando ao longo dos dois anos de dinâmica sinodal. O texto da Exortação poderia ter-se aproximado mais daquela posição que, de uma maneira demasiado rápida e simplista, foi apelidada de conservadora, defendendo que nas questões centrais do matrimónio não é possível dizer nada que não tenha já sido dito pelo Magistério e esteja já traduzido em forma de letra em vários textos de tipo doutrinal, canónico e mesmo pastoral.  Outra possibilidade teria sido dar voz aquela posição que, também de uma maneira demasiado simplista e rápida, foi apelidada de progressista, introduzindo na reflexão, na prática e no ordenamento canónico todas aquelas mudanças por ela julgadas urgentes e necessárias.

Sei bem que a realidade é muito complexa, não podendo ser reduzida unicamente a estas duas posições. Fazer isso seria certamente cair numa outra simplificação sem verdadeiro suporte na realidade. Também ao nível destas questões relacionadas com a vida matrimonial e familiar as sensibilidades são muitas e variadas, não podendo ser vistas só como ‘pretas’ ou ‘brancas’. Por isso mesmo a tentação de optar por um terceiro caminho, que tentasse aproximar as posições de uns e de outros, era muito grande. E, segundo muitos, esse teria sido o caminho escolhido pelo Papa neste texto, o que explicaria a marca conciliadora do mesmo e uma certa sensação, que parece existir, de tentar abrir portas para a mudança afirmando-se, simultaneamente, que ao nível da doutrina nada muda.

No meu modesto entender o Papa não opta por nenhum destes três caminhos. Também não julgo, como já tive a oportunidade de o afirmar, que a opção tenha sido não optar, deixando tudo numa certa ambiguidade. Pelo contrário, a proposta parece-me clara e, para mim, é bem reveladora de como o papa Francisco leva a sério a realidade sinodal.

Logo no início do texto, no nº 2, aparece bem vincada esta posição:

“O caminho sinodal permitiu analisar a situação das famílias no mundo actual, alargar a nossa perspectiva e reavivar a nossa consciência sobre a importância do matrimónio e da família. Ao mesmo tempo, a complexidade dos temas tratados mostrou-nos a necessidade de continuar a aprofundar, com liberdade, algumas questões doutrinais, morais, espirituais e pastorais. A reflexão dos pastores e teólogos, se for fiel à Igreja, honesta, realista e criativa, ajudar-nos-á a alcançar uma maior clareza. […].”

A proposta do caminho do discernimento percorre aliás todo o texto, aparecendo de um modo muito vincado no capítulo VIII que tem mesmo como título «Acompanhar, discernir e integrar a fragilidade». Nesse capítulo, no nº 300, isso está afirmado com toda a clareza:

“Se se tiver em conta a variedade inumerável de situações concretas, como as que mencionamos antes, é compreensível que se não devia esperar do Sínodo ou desta Exortação uma nova normativa geral de tipo canónico, aplicável a todos os casos. É possível apenas um novo encorajamento a um responsável discernimento pessoal e pastoral dos casos particulares, que deveria reconhecer: uma vez que «o grau de responsabilidade não é igual em todos os casos», as consequências ou efeitos duma norma não devem necessariamente ser sempre os mesmos. Os sacerdotes têm o dever de «acompanhar as pessoas interessadas pelo caminho do discernimento segundo a doutrina da Igreja e as orientações do bispo. […]”

Parece-me, pois, evidente que há uma opção e que se aponta um caminho. Não é o mais fácil, nem o mais rápido, ou evidente, mas é certamente aquele que nos permitirá a todos, em comunhão e corresponsabilidade e inspirados pelo Espírito, procurar assumir aquelas atitudes e maneiras que melhor nos permitam viver a fidelidade ao projecto de Deus para o ser humano.

 

Escrito por Juan Ambrósio e publicado em Jornal da Família, agosto/setembro de 2016