A Família: Um olhar a partir da beleza e da bondade

Dando continuidade ao nosso exercício de leitura e reflexão, olhamos, agora, para o capítulo segundo da Exortação Apostólica Amoris Laetitia, intitulado A realidade e os desafios das famílias. Salta à primeira vista o plural do título o que, do meu ponto de vista, é muito significativo. Ao olhar para a realidade o papa Francisco não quer fazer um discurso abstracto centrado em grandes ideias, ou preconceitos, ele quer mesmo partir da realidade, como tantas vezes tem insistido, por isso fala em famílias no plural e não no singular. E todos sabemos bem, até por experiência própria, que não existe a família ideal, o que existem são famílias concretas, com os mais variados perfis e a viver as mais variadas situações. Sem a pretensão, como diz, de apresentar tudo aquilo que poderia ser dito sobre os vários temas relacionados com a família no contexto actual, o Papa faz, neste capítulo segundo, um exercício de olhar e ler a realidade tal como ela é, sem a mascarar, partilhando algumas das contribuições dos Padres Sinodais, bem como algumas preocupações derivadas da sua própria visão (cf nº 31).

Surpreendentemente, ou talvez não, o capítulo começa com duas afirmações que me parecem fundamentais, uma vez que julgo encontrar nelas uma proposta de leitura para o que se segue.

“O bem da família é decisivo para o futuro do mundo e da Igreja. Inúmeras são as análises feitas sobre o matrimónio e a família, sobre as suas dificuldades e desafios atuais. É salutar prestar atenção à realidade concreta, porque «os pedidos e os apelos do Espírito ressoam também nos acontecimentos da história» através dos quais «a Igreja pode ser guiada para uma compreensão mais profunda do inexaurível mistério do matrimónio e da família». (nº 31)

A primeira frase, para que não fiquem dúvidas, é a afirmação clara e inequívoca do bem precioso e decisivo que a família é para o mundo e para a Igreja. Logo, tudo o que dela depois se diz deve ser entendido a esta luz. Não se trata, pois, de um olhar amargurado que só tem como finalidade denunciar e condenar muitas situações vividas pelas famílias. É o próprio Papa que nos convida a ter este entendimento quando, mais à frente, afirma que:

“[…] não tem sentido limitar-nos a uma denúncia retórica dos males atuais, como se isso pudesse mudar qualquer coisa. De nada serve também querer impor normas pela força da autoridade. É-nos pedido um esforço mais responsável e generoso, que consiste em apresentar as razões e os motivos para se optar pelo matrimónio e a família, de modo que as pessoas estejam melhor preparadas para responder à graça que Deus lhes oferece.” (nº 35)

A segunda afirmação decorre disto mesmo e convida-nos a fazer um exercício, que é profundamente cristão, de discernir os apelos que o Espírito continua a fazer através da história concreta da humanidade. Sim, porque essa história continua hoje a ser história do diálogo de Deus com a humanidade.

O Papa Francisco faz também esse exercício a que nos convida:

“Durante muito tempo pensámos que, com a simples insistência em questões doutrinais, bioéticas e morais, sem motivar a abertura à graça, já apoiávamos suficientemente as famílias, consolidávamos o vínculo dos esposos e enchíamos de sentido as suas vidas compartilhadas. Temos dificuldade em apresentar o matrimónio mais como um caminho dinâmico de crescimento e realização do que como um fardo a carregar a vida inteira. Também nos custa deixar espaço à consciência dos fiéis, que muitas vezes respondem o melhor que podem ao Evangelho no meio dos seus limites e são capazes de realizar o seu próprio discernimento perante situações onde se rompem todos os esquemas. Somos chamados a formar as consciências, não a pretender substituí-las.”

Partir da realidade, discernindo nela as interpelações do Espírito é, sem dúvida, um dos maiores desafios a que a comunidade cristã é chamada no âmbito da vida familiar. Dele decorre um segundo e igualmente fundamental desafio, que consiste em formar as consciências, para que cada um possa assumir as responsabilidades e compromissos que lhe são próprios e que mais ninguém pode assumir. Só deste modo o exercício de leitura da realidade poderá evitar a armadilha de nos consumirmos em lamentações autodefensivas, interpelando-nos a desenvolver uma criatividade missionária (cf nº 57), que abra as portas a uma pastoral positiva e acolhedora, capaz de facilitar um aprofundamento gradual das propostas do Evangelho (cf nº 38).

 

 

 

Escrito por Juan Ambrósio e publicado em Jornal da Família, fevereiro de 2017