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“A área social não pode ficar atrás no percurso da inovação”

A Deloitte irá lançar, em Outubro, a 4ª edição do PACT Fund, um fundo de investimento que apoia projectos sociais desenvolvidos por organizações do terceiro sector em Portugal e em Angola. Consolidando a sua aposta na área da inovação, a consultora está igualmente a apoiar os primeiros Títulos de Impacto Social em Portugal, financiando o projecto Faz-te Forward, da TESE. Em entrevista ao VER, Afonso Arnaldo, partner da Deloitte, sublinha a relevância da inovação para que a sociedade actual seja capaz de enfrentar os enormes desafios que se lhe colocam, defendendo que “a parceria com o sector privado (que pode e deve contribuir com apoio financeiro e conhecimento) é fundamental”, para que “a área social não fique atrás, neste percurso”

 

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Criar impacto e gerar valor com projectos de educação, formação de competências, empregabilidade e empreendedorismo. É este o propósito da iniciativa PACT Fund, um fundo de investimento criado pela Deloitteem Portugal e Angola, há três anos, para apoiar projectos sociais desenvolvidos por instituições sem fins lucrativos nestas duas geografias.

Integrado na estratégia de Corporate Responsibility da Deloitte Global, o PACT Fund financia projectos de intervenção na sociedade dinamizados pelo terceiro sector, viabilizando, em parceria com as organizações sociais, a implementação de programas concretos propostos pelas mesmas nestas quatro áreas, prioritariamente.

Nas suas duas primeiras edições este fundo apoiou 15 projectos – que foram seleccionados de um total de 132 candidaturas -, gerando um impacto directo em 2500 pessoas. Na 3ª edição, ainda em fase de execução, foram recebidas 70 candidaturas e seleccionados sete projectos, que estão a beneficiar mais de 4500 pessoas.

A consultora prepara-se agora para lançar, em Outubro, a 4ª edição do PACT Fund, financiando e acompanhando novos projectos, com vista a, de forma continuada, criar sustentabilidade em iniciativas e parceiros, colocando o foco “na especialização dos intervenientes no 3º sector, incluindo a dos financiadores”.

Paralelamente, a Deloitte está a apoiar os primeiros Títulos de Impacto Social em Portugal, financiando o projecto Faz-te Forward, um programa individualizado da TESE que aposta no talento jovem, tendo por objectivo aumentar e melhorar aempregabilidade e inclusão socioprofissional de jovens que enfrentam barreiras no acesso ao mercado de trabalho.

Tendo por mote o forte investimento da Deloitte na área da inovação, o VER entrevistou, nesta edição especial, Afonso Arnaldo, para quem a perspectiva empresarial do investimento social é “fundamental” para a geração da mudança necessária para “enfrentar os desafios que se colocam à sociedade”.

Na opinião do partner da Deloitte, “as empresas são parte activa e muito relevante da sociedade”, pelo que “não podemos ficar parados, na expectativa de que o Estado resolva todos os desafios sociais”.

Como descreve a actuação que a Deloitte vem desenvolvendo em Portugal com vista à capacitação para o investimento social, no âmbito da sua estratégia de Corporate Responsibility? Com que visão e objectivos têm apostado no apoio a projectos sociais através do PACT Fund, não só a nível financeiro como facilitando, em parceria com várias entidades, formação, capacitação, empregabilidade e empreendedorismo?

Os sócios da Deloitte em Portugal e Angola criaram há três anos o PACT Fund, um fundo que apoia projectos sociais desenvolvidos por instituições sem fins lucrativos nestas duas geografias. Através deste fundo procuramos criar parcerias com entidades que nos ajudem a materializar os nossos objectivos de criação de impacto com projectos de formação, capacitação, empregabilidade e empreendedorismo, os quais convergem com os objectivos mundiais da Deloitte.

O PACT Fund apoia projectos sociais em Portugal e Angola

No caso do PACT Fund temos o apoio dos nossos profissionais que, através de um sistema de mentoring de cada projecto, monitorizam o decurso dos mesmos.

De que modo complementam o apoio financeiro atribuído através do PACT Fund com apoio não financeiro em áreas tão relevantes para o sector social como serviços de apoio de consultoria, auditoria e estratégia? Que resultados concretos obtém as organizações sociais com este tipo de serviços e com o acompanhamento da Deloitte?

O PACT Fund funciona apenas por vias de financiamento. Os nossos colaboradores não intervêm no processo dos mesmos. Contudo, temos várias iniciativas, fora deste projecto, em que facilitamos formação e mentoring, visando melhorar a capacitação daqueles que estão envolvidos em projectos do terceiro sector, como é o caso das iniciativas “180 Degrees Consulting”, desenvolvida por alunos da Universidade Católica Portuguesa, e “Nova Social Consulting”, dinamizada por alunos da Nova.

Que balanço faz das três edições do PACT Fund em Portugal e Angola, no que respeita à geração de valor, intervenção para a mudança e sustentabilidade dos projectos apoiados, e, simultaneamente, à criação de impacto junto das comunidades envolventes? Que projecção faz do impacto gerado em termos de criação de emprego e de novos projectos empreendedores?

O impacto positivo que esta iniciativa tem gerado na sociedade é um motivo de enorme orgulho para nós. Através dos projectos apoiados temos chegado a cada vez mais pessoas e necessidades e o nosso desejo é continuar este importante trabalho, ambicionando apoiar mais projectos no futuro.

O objectivo é gerar impacto social com projectos de educação, formação, empregabilidade e empreendedorismo

Todos os projectos que apoiamos têm de ser estruturados em função de resultados propostos, os quais devem ser objectivos, ou seja, mensuráveis. O financiamento é libertado à medida que os objectivos a que se propuseram os projectos vão sendo cumpridos, o que nos permite medir o seu impacto.

Por outro lado, ao longo das três edições do PACT Fund temos procurado dar primazia aos projectos das instituições com quem temos já uma boa relação (naturalmente, desde que os mesmos se enquadrem nos nossos objectivos). Desta forma, tentamos contribuir para a sustentabilidade das instituições.

A título de exemplo, um dos projectos apoiados na 1ª edição do PACT Fund foi “O talento não tem limites”, da Associação Salvador. A iniciativa teve como objectivo fomentar a empregabilidade das pessoas com deficiência motora, dirigindo-se às pessoas em idade activa e às empresas a operar em Portugal continental. O projecto tornou mais visíveis ao mercado de trabalho 178 pessoas, tendo permitido gerar no imediato 19 entrevistas e 9 ofertas de emprego (aceites).

Na 2ª edição do PACT Fund continuámos o trabalho desenvolvido com a Associação Salvador, apoiando o projecto “Dá-te ao trabalho!”. Neste segundo projecto foram formadas 15 pessoas com deficiência motora e realizados 47 encaminhamentos para ofertas de emprego, incluindo da própria Deloitte.

A Deloitte facilita formação e mentoring para melhorar a capacitação do terceiro sector

Gostava também de realçar o apoio que demos ao projecto “Crescer com Amigos” da Serve the City, na 2ª edição do PACT Fund. Esta iniciativa apoiou 18 crianças sinalizadas pela escola pública como estando em situação de vulnerabilidade escolar (ou seja, a probabilidade de insucesso escolar era muito alta), ajudando-as a desenvolver mais responsabilidade e a ajustar o seu comportamento durante o ano lectivo. O trabalho reflectiu-se numa taxa de aproveitamento escolar positivo acima de 90%, entre as crianças envolvidas. Na 3ª edição do PACT Fund estamos a apoiar este mesmo projecto, agora com o acompanhamento de mais de 90 crianças.

Na 1ª edição, um dos projectos apoiados foi o “Gabinete de Apoio à Inserção na Vida Activa no Bairro da Graça”, em Benguela (Angola), dos Leigos para o Desenvolvimento. A instituição criou este projecto para aumentar a taxa de inserção de jovens na vida activa, através de formação e estímulos ao emprego e ao empreendedorismo, em articulação com os centros de emprego e com o mercado de trabalho local, incluindo empresas nacionais e estrangeiras. Este programa impactou 265 jovens que, no final, adquiriram novas competências para a empregabilidade, tendo permitido a inserção imediata de 27 pessoas no mercado de trabalho. É importante referir que no decorrer deste projecto várias empresas abandonaram Angola devido à crise, um factor que eleva o nível de importância deste projecto.

Ainda na 1ª edição do PACT Fund, apoiámos o projecto Re-Coopera do Centro Comunitário da Paróquia de Carcavelos, que gerou 12 postos de trabalho directos.

Além destes exemplos, outros projectos apoiados permitiram dar formação a várias centenas de pessoas, onde o impacto gerado em termos de empregabilidade e empreendedorismo apenas poderá ser medido a médio e longo prazo. São exemplo disso o programa de formação a reclusos, desenvolvido pelo IES, que envolveu mais de 30 reclusos, e demais “bootcamps” em empreendedorismo social, dirigidos a jovens e a profissionais do 3º sector, que envolveram cerca de 50 formandos; o projecto Grão-a-Grão, com o intuito de iniciar a formação em literacia financeira de crianças do ensino básico, do qual mais de 900 crianças beneficiaram.

Concretamente em relação à última edição, em que áreas e com que benefícios estão a ajudar mais de 4500 pessoas, através dos sete projectos seleccionados?

A 3ª edição do PACT Fund encontra-se em fase de execução, e iremos lançar a 4ª edição em Outubro. Os promotores destes sete projectos são: Ahead ONGDAssociação para a Educação e Valorização da Região de AveiroAssociação SalvadorAssociação Serve The CityCentro Comunitário da Paróquia de CarcavelosPEEP – Educar para Empreender e Pirâmide World Foundation.

Todos os projectos têm de ser estruturados em função dos resultados propostos, e têm de ser mensuráveis

Três das instituições (Associação Salvador, Serve the City e o Centro Comunitário da Paróquia de Carcavelos) são “repetentes”, tendo apresentado projectos que voltámos a entender como relevantes. Temos pela primeira vez um projecto com a Horizonte Azul, uma associação angolana que irá criar um salão de beleza e dar formação a cerca de oito raparigas do seu orfanato, permitindo-lhes a obtenção de um rendimento que contribuirá para fazer face aos custos dos seus estudos e despesas. O projecto da PEEP (no qual somos co-financiadores) destina-se a educar jovens no empreendedorismo, de modo a reter competências importantes para a sua empregabilidade futura e, simultaneamente, criar um programa flexível e inovador. O SPOT AHEAD é um projecto que visa combater as causas do abandono e insucesso escolar de adolescentes socialmente desfavorecidos. Já o projecto da Associação AEVA é destinado a promover a inclusão social de jovens, através da sua formação em diversas áreas técnicas e posterior aplicação dos conhecimentos adquiridos junto de famílias carenciadas.

A própria Deloitte já recrutou pessoas abrangidas pelos programas apoiados pelo PACT Fund

A estes sete projectos há que adicionar o “Faz-te Forward”, da Associação TESE, em que somos co-financiadores com a Gulbenkian, através do programa público “Títulos de Impacto Social”, da Portugal Inovação Social (Portugal 2020). Este projecto é desenvolvido na região do Porto e capacita para o mercado de trabalho 150 jovens.

De que modo esta iniciativa é desenvolvida internamente na Deloitte, ao nível do recrutamento em eventos de emprego promovidos por projectos que participaram no PACT Fund, por exemplo?

Como referi, a própria Deloitte já recrutou pessoas abrangidas pelos programas apoiados pelo PACT Fund. Contudo, não seleccionamos os projectos a apoiar com esse objectivo. Efectivamente, a maior parte dos beneficiários dos projectos por nós apoiados são de áreas ou faixas etárias distintas daqueles que normalmente contratamos.

Ao nível de áreas de actuação, irão privilegiar nesta 4ª edição a educação, formação de competências, empregabilidade e empreendedorismo?

As candidaturas abrirão durante o mês de Outubro e as áreas de actuação manter-se-ão as mesmas. Entendemos que a especialização dos intervenientes no 3º sector, incluindo a dos financiadores, é importante.

Os TIS são uma nova experiência para todos os intervenientes, privados e públicos

Como referiu, a Deloitte está a apoiar os primeiros Títulos de Impacto Social em Portugal, financiando o projecto Faz-te Forward. Como está a correr esta experiência que permite à TESE, entre outras vantagens, definir métricas e resultados, angariar capital, estruturar o investimento e monitorizar e gerir o desempenho deste programa individualizado de aposta no talento jovem?

Como também referi, esta é uma nova experiência para todos os intervenientes (privados e públicos). Estamos muito contentes por sermos pioneiros, em parceria, neste capítulo. O projecto arrancou há poucas semanas, mas os primeiros sinais (monitorizados mensalmente pelos investidores) são já muito positivos.

Na sua opinião, qual é a relevância, para os projectos de inovação social e, consequentemente, para a economia social, de alargar e consolidar a perspectiva empresarial sobre o investimento social no mercado nacional?

A inovação é algo presente no nosso dia-a-dia nas mais diversas áreas e sectores. A área social não deve e não pode ficar atrás neste percurso de inovação, e a parceria com o sector privado é fundamental.

O projecto Faz-te Forward é desenvolvido na região do Porto e capacita para o mercado de trabalho 150 jovens

Não podemos ficar parados, na expectativa de que o Estado resolva todos os desafios sociais que enfrentamos, como quem diz “já paguei os meus impostos, por isso já fiz a minha parte”. As empresas são parte activa e muito relevante da sociedade e devem contribuir para a busca de soluções para os desafios que a esta se colocam. Esse contributo deve ser baseado no apoio financeiro que podem aportar a entidades do terceiro sector, e complementado com o know-how que podem também aportar.

 

Artigo publicado em “Valores, Ética e Responsabilidade” – ACEGE – 14 de Setembro de 2017