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“A corrupção não se perdoa, tem de ser curada”

Há muitos anos que o Papa Francisco aponta o dedo à corrupção na sociedade globalizada. Em “Corrupção e Pecado” torna essencial a toda a humanidade que é preciso denunciar, para poder curar, “o pecado que entra na consciência e não deixa lugar”, sem arrependimento. Porque “a corrupção não é um acto mas um estado pessoal e social, em que nos habituamos a viver. Transforma-se numa cultura”

 

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“O pecador espera o perdão; o corrupto não, porque não se sente em pecado: triunfou” – Jorge Maria Bergoglio, Arcebispo de Buenos Aires

Francisco há muito nos habituou às suas reflexões ao mesmo tempo profundas e claras sobre as fraquezas da humanidade, e graças às quais se tem revelado “uma luz nos tempos modernos, denunciando vícios e pugnando pelos injustiçados”. Como faz em “Corrupção e Pecado seguido de Sobre a Acusação de Si Mesmo”, obra de referência que reúne num único volume dois textos do Cardeal Jorge Bergoglio, então Arcebispo de Buenos Aires, em que defende que a corrupção não é um pecado, mas um estado que jamais pode ser perdoado, mas tem de ser curado.

Sobre o Papa, na apresentação do livro de 2005 editado em Portugal pela Gradiva, em 2014 (com tradução de Inês Espada Vieira), diz o cónego António Rego: “este homem com a sua história pessoal, a sua esperança e a sua missão, com um tom de ingenuidade, chega ao mais fundo e definitivo do ser humano”.

E chega, nesta obra em concreto, através do compromisso subtil mas autêntico que provoca ao leitor, sobre a acusação dos corruptos e a redenção dos pecadores, a partir da mensagem profética do Evangelho. Como em tantos outros textos onde Francisco aponta o dedo aos sistemas corrompidos, do armamento da guerra da Síria à primazia do poder instalado, com as suas ganâncias económicas e políticas sobre dramas como o dos refugiados, em “Corrupção e Pecado” o Papa é breve e frontal, sensato e delator.

E, como sempre faz quando se dirige ao povo, o seu “grande mestre”, chega a todos com “a alma que põe nas palavras”, mobiliza a que distância for, faz-se entender “aos que falam uma língua diferente em conceitos de vida, concepções políticas, linhas éticas, experiências religiosas, detentores de conceitos e preconceitos sobre a Igreja”. Como nota o padre António Rego, a “perene actualidade” do seu discurso deve-se à forma como “nos coloca à mesa o fruto da sua inteligência e investigação”, sempre trabalhadas pelo coração.

O olhar límpido perante os outros

Em 112 páginas onde se compilam três textos, um sobre a corrupção e o pecado, preparado para uma assembleia diocesana em 2005, outro sobre a acusação de si mesmo, também de 2005, destinado a jovens religiosos e onde medita sobre os escritos de Doroteu de Gaza (O Eremita, do século VI, que escreveu para os monges  “Instruções sobre o treinamento espiritual”), e outro ainda repescado do Boletim de Espiritualidade dos Jesuítas da Argentina, em 1984, o Arcebispo Bergoglio identifica e leva-nos a discernir a ténue diferença entre pecado e corrupção, apelando à procura de um compromisso autêntico com a verdade, e orientando, na segunda parte do livro, para “o caminho da humildade e do amor, necessários para formar comunidades verdadeiramente cristãs”.

Francisco “propõe o olhar límpido  perante os outros”, ao invés de defender um estado de culpabilidade. Invoca “uma união dos corações” e a importância de se olhar o todo  da família, e não só “a parte que me toca” – a que divide e debilita -, aspirando à imposição sobre a verdade que cada um faz a si próprio. Num estilo inaciano, recorre a Doroteu de Gaza para demonstrar que a atitude de nos acusarmos a nós mesmos representa “a valentia de renunciar à maquilhagem para que a verdade se manifeste”, como analisa o cónego.

Perante uma realidade esmagadora do nosso tempo – a corrupção -, o Papa rejeita a suspeita para fazer valer as palavras de O Eremita, quando afirma que o essencial, perante a vida, é manter um espírito desperto e lúcido para conhecer “o que é perfeito”. Fá-lo numa abordagem religiosa, mas que se destina ao universo alargado dos humanos. Como explica Paulo Morais, autor do prefácio da edição portuguesa, “este é um livro que deve ser lido por toda a gente, desde logo porque o Papa faz o contraste da relação entre a religião e o pecado e a religião e a corrupção”.

O grande problema é ter um coração corrupto

A distinção entre pecado e corrupção é, de resto, uma das linhas centrais do livro, no qual Francisco defende que sendo a corrupção a assimilação permanente do pecado, não há perdão possível para o problema, porque também não há arrependimento. Em suma, “o pecado perdoa-se, a corrupção não”, tem “de ser curada”, como explana o então vice-presidente da associação Transparência e Integridade e especialista no fenómeno da corrupção.

Para o Papa Francisco, “a corrupção é um processo de morte”, pois “quando a vida morre há corrupção”. Sublinhando que uma situação de pecado e um estado de corrupção “são duas realidades distintas, embora intimamente ligadas entre si”, o Papa explica que o pecador experimenta e aceita a misericórdia do Pai; mas, “quão difícil é que o vigor profético abra um coração corrupto… está tão fechado na satisfação da sua auto-suficiência que não permite nenhum questionamento”.

Assim, o grande problema, diz, é ter um coração corrupto. Pois é ele o autor deste contágio, estado conotado com múltiplos sentidos e características comuns, que Bergoglio desconstrói em “Corrupção e Pecado”: “o pecador espera o perdão; o corrupto, por seu turno, não, porque não se sente em pecado, triunfou”. E para este triunfalismo contribui “a base de toda a atitude corrupta” – “um cansaço de transcendência perante o Deus que não se cansa de perdoar. O corrupto ergue-se como suficiente: cansa-se de pedir perdão, tranquiliza e engana”.

Há um limite do qual dificilmente se volta atrás, é quando o pecado se transforma em corrupção

Ou, nas palavras de Paulo Morais à Rádio Renascença, “o corrupto procura activamente ganhar cúmplices, tem sempre tendência a criar um grupo de apaniguados à sua volta”. Como refere Francisco ao longo do livro, o corrupto nunca tem amigos e inimigos, antes tem aqueles que o acompanham e aqueles que obstam à corrupção. E, em última instância, “não se apercebe da sua corrupção. Acontece o mesmo com o mau hálito: quem o tem dificilmente se apercebe… São os outros que se apercebem que lho devem dizer”. A corrupção sabe esconder-se, disfarçar-se, “conhece todas as manhas”, delata.

Diz Francisco na obra que servirá de ensinamento, nas muitas chamadas de atenção sobre a corrupção que vem fazendo ao longo do seu Papado: “quando um corrupto está no exercício do poder implica sempre outros na sua própria corrupção. E não deixa crescer em liberdade nem conhece a fraternidade ou a amizade… E é um prosélito, um apóstolo ou militante da sua causa. Convoca, faz doutrina”.

Face a esta complexa realidade, o Papa conduz o leitor a uma obrigação moral de se denunciar, sempre que possível, a corrupção. E este é, talvez, o aspecto mais surpreendente do livro, como reflecte o ex-candidato à presidência da República: o forte apelo a esta denúncia é tanto mais válido quanto se regressa à ideia original de que a corrupção não tem perdão, pois não se sujeita facilmente a arrependimentos. Logo, deve ser denunciada para poder ser eventualmente curada, quer no plano social, quer no pessoal.

Devemos ter a valentia de renunciar à maquilhagem para que a verdade se manifeste

A partir de uma análise das corrupções de Herodes, o Velho, Herodes Filho, Pilatos, fariseus, saduceus, essénios e zelotas, “cada qual no seu grau e nas suas funções”, como esclarece, a propósito, o padre António Rego, Bergoglio confronta a atitude do corrupto – sobre a qual o discurso do fariseu é um tratado, ao considerar a manipulação da lei em interesse próprio – com a atitude daqueles que encontraram o perdão, pois tinham algo no coração que os salvou da corrupção: Zaqueu, Mateus ou a Samaritana.

A “capa de desfaçatez pudica” da corrupção, na enunciação do cónego, carece de verdade e de bondade, de unidade do ser, e reveste-se da “mundanidade espiritual” (expressão que o Papa recupera na exortação Apostólica ‘Evangelli Gaudium’) e de triunfalismo.

O caminho por onde se escorrega

Perante o dedo do Papa apontado à sociedade globalizada, “a corrupção não é um acto mas um estado pessoal e social, em que nos habituamos a viver. Transforma-se numa cultura. É um caminho pelo qual se vai escorregando”.

E nesse caminho pode escorregar qualquer um, pois a corrupção está em todo o lado, e também atinge a vida religiosa. Como foi divulgado em Fevereiro, Francisco admitiu perante vários superiores de ordens religiosas e congregações a existência de corrupção no Vaticano, e a necessidade de reformas. Mas, defendendo que aceita “as críticas que são para crescer”, garantiu viver “em paz”.

Quando um corrupto está no exercício do poder convoca, faz doutrina

Já na homília da missa a que presidiu na Capela da Casa de Santa Marta, a 16 de Março, o Papa advertiu para a necessidade de evitar tomar a estrada que, do pecado, chega à corrupção. Inspirando-se no Evangelho do dia – extraído de Lucas –, em que o Senhor narra a parábola do rico e do pobre Lázaro, demonstrou como devemos, nos dias que correm, ter cuidado para não nos fechar em nós mesmos, ignorando os pobres e os necessitados. Na sua perspectiva, o “homem que confia no homem, que deposita na carne o seu amparo, isto é, nas coisas que ele pode administrar, na vaidade, no orgulho, nas riquezas”, afasta-se de Deus.

Para Francisco, o coração não é confiável, e por isso há “fecundidade” no homem que confia no Senhor, e “esterilidade” no homem que confia em si mesmo, no poder e nas riquezas: “quando uma pessoa vive no seu ambiente fechado, respira aquele ar próprio dos seus bens, da sua satisfação, da vaidade, de sentir-se seguro e confia somente em si mesmo, perde a orientação, perde a bússola e não sabe onde estão os limites.”

Esse é um caminho “perigoso”, adverte, pois “há um limite do qual dificilmente se volta atrás: é quando o pecado se transforma em corrupção.” Neste contexto, maldito é o homem que confia em si mesmo, que confia no seu coração”, disse o Papa aos crentes, citando o Salmo 1: “nada é mais traiçoeiro do que o coração, e dificilmente se cura. Quando alguém percorre aquele caminho de doença, dificilmente se irá curar”.

Questionando “o que sentimos no coração” quando nos deparamos com a realidade das crianças pobres e abandonadas, dos sem-abrigo, dos desempregados, Francisco pede muita atenção, para que estas situações não passem como normais, e se (não) resolvam com uma atitude mundana – ‘mas a vida é assim, eu no entanto, como e bebo, e para tirar-me um pouco o sentimento de culpa dou uma oferta e sigo em frente” -, ou com uma mera oração para seguir em frente e ignorar.

O mundo tem de manifestar-se contra a cultura de destruição que chama mãe a uma bomba

Para Francisco, é essencial perceber quando estamos no caminho “escorregadio do pecado rumo à corrupção”. Do qual, como defende no livro “Corrupção e Pecado”, “não se pode voltar atrás: o pecador, se se arrepende, volta atrás; o corrupto dificilmente, porque está fechado em si mesmo”. Já na homília de 3 de Abril, também no Vaticano, Francisco havia dito que “existe corrupção quando o pecado entra na consciência e não deixa lugar nem para o ar”.

Questionando se o julgamento dos outros é feito no coração, o Papa explicou aos cristãos, na Capela da Casa de Santa Marta, que perante o pecado e a corrupção Jesus “é a plenitude da lei”, porque “julga com misericórdia”, ao contrário dos juízes corruptos que “sempre existiram no mundo”. E que “existem também hoje em todas as partes”.

“Parem”, pediu na reflexão centrada na liturgia do dia, que propunha passagens do Evangelho de São João, sobre situações de “inocência, pecado, corrupção e lei”. Parem principalmente quando se trata de “corrupção da legalidade”, disse.

E parem urgentemente a corrupção que alimenta uma guerra que semeia “horror e morte”, como a da Síria. Que os responsáveis das nações tenham “a coragem para evitar a expansão dos conflitos e de parar o tráfico de armas”, como apelou Francisco na mensagem de Páscoa, perante 60 mil fieis, na praça de São Pedro. Porque “o mundo tem de parar os senhores da guerra” (como vem repetindo exaustivamente na sua campanha pela denúncia da corrupção), e manifestar-se contra a cultura de “destruição” que chama “mãe” a uma bomba e “apenas mostra o mal para ganhar audiências”, nas palavras proferidas num encontro com estudantes no Vaticano, no início deste mês.

A corrupção rouba os direitos e destrói os sonhos dos migrantes e dos pobres

Parem também quando as vítimas são os migrantes, os pobres e os marginalizados, que vêem a sua “dignidade humana crucificada”, disse na mensagem da Vigília Pascal, lembrando que a corrupção “rouba os direitos e destrói os sonhos” destas pessoas.

“A corrupção, como um cancro, está a corroer a vida quotidiana dos povos”, sublinhou Francisco já esta semana, dirigindo-se aos bispos reunidos na Assembleia do CELAM, Conselho Episcopal Latino-americano, em São Salvador, de 9 a 12 de Maio.

O dinamismo com que Francisco denuncia este flagelo, só no último mês, multiplica-se por mais de quatro anos de papado. Mas a mensagem mantém-se: “derrubem todos os muros que nos mantêm fechados no nosso pessimismo estéril, nas nossas torres de marfim cuidadosamente construídas que nos isolam da vida, na nossa necessidade compulsiva de segurança e numa ambição ilimitada que pode fazer-nos comprometer a dignidade dos outros”.

 Artigo publicado em “Valores, Ética e Responsabilidade” – ACEGE – 11 de maio de 2017