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“Quase ninguém tem tempo”

Há dias, ao assistir a uma Missa, ouvi o grupo coral que solenizava esta Eucaristia, cantar: “são muitos os convidados/quase ninguém tem tempo…”.

 

Esta estrofe, deste cântico litúrgico, ficou-me a retinir nos ouvidos: “Quase ninguém tem tempo…”.

De facto, pensando bem, nestes tempos agitados da vida hodierna, são tantas as solicitações, que parece que o tempo não chega para nada, nomeadamente, para a família e muito particularmente, para os filhos.

Mas, refletindo melhor, temos de concluir que há sempre tempo para ver televisão, para assistir a festividades, passar horas a fio, à mesa dum “café” e tempo para tantas outras coisas, às vezes sem qualquer utilidade. No entanto, tempo para a família e para os filhos, esse frequentemente falta.

É verdade que o tempo, hoje em dia, é escasso para tudo. Na vida difícil em que vivemos, a nossa ocupação laboral absorve imenso tempo, como sempre aconteceu, quase nem chegando para, sossegadamente, fazer contas à vida e avaliar o dinheiro que ainda resta, quando se aproximam os finais dos meses.

Também é verdade que todo o pai, que se preza de o ser, dedica um amor idolatrado à sua mulher e aos filhos que esta lhe deu. Porém, frequentemente, não temos tempo de sobra para lhes dar o carinho que eles merecem, a atenção de que necessitam, o tempo necessário para os acompanhar no seu crescimento, tanto físico, como intelectual.

A vida é agitada e, por vezes, impeditiva de dar aos filhos, o carinho de que eles precisam.

No entanto, arranjamos sempre tempo para fazer o que desejamos e desculpas, por vezes esfarrapadas, para justificar esta atitude e até chegarmos a convencer-nos que a nossa atitude está correta.

Entretanto, há tanta criança, por esse mundo além, que cresceu sem ter as atenções, o carinho e a proteção dos seus progenitores, vivendo na mais profunda e álgida solidão familiar.

Nós católicos, devíamos de dedicar um pouco mais de atenção a estas lamentáveis situações familiares.

Há muitos pais que julgam que comprando toda a sorte de brinquedos, que existem no mercado, que superam a situação. Puro engano. Os filhos apreciam muito mais uma conversa amiga, um conselho paternal, um passeio familiar, uma brincadeira, no seio da família, ao serão, do que os mais sofisticados brinquedos, de elevada tecnologia. E isto porque enquanto não estiverem corrompidos pelo materialismo que impera e domina, nos nossos dias, eles sabem muito bem, embora sem terem capacidade para o explicar, que o mais importante na vida é aquilo que se recebe de carinho, de outra pessoa. Podemos mesmo dizer que as crianças só se apercebem disso por mero instinto, tal como nós também já o recebemos, embora já o tenhamos olvidado.

Nós adultos, devíamos entender que não temos o direito de viver, à sombra das desculpas que inventamos, para arranjarmos desculpas para a falta de tempo para nos dedicarmos à família.

Reparem bem que arranjamos o tempo necessário, para ir ao cinema, assistir ao futebol, ler os jornais e revistas, que temos à mão, para ver as telenovelas que mais nos interessam, tempo para conviver com os amigos e para o mais que nos convenha. Os “cafés”, geralmente estão cheios, de pais que não arranjam tempo para se dedicarem aos seus filhos. Os comércios, igualmente, estão repletos de gente, onde estabelecem relações sociais, nem sempre as mais saudáveis e úteis. Muitas vezes, os filhos abeiram-se de seus pais, para lhes contarem episódios que se passaram na escola ou para lhes perguntar algo que ouviram na televisão e desejam ser esclarecidos, pois os estão a incomodar.  Frequentemente a resposta é “logo te explico, que agora não tenho tempo”, ou então uma outra resposta ainda mais inconveniente. E isso porque naquele momento, está a decorrer um jogo de futebol, um filme na televisão, uma telenovela. A resposta fica para depois e acaba por nunca surgir.

Resultado: os filhos crescem sem que os seus pais os conheçam, concretamente e vice-versa.

Depois ficamos deveras apreensivos, porque razão, os filhos quando chegam à puberdade, se escondem dos seus pais, que nutrem por eles um amor idolatrado. E para total surpresa, quando atravessam a crise da adolescência ou entram em crises de idade, muitas vezes provocada por duvidosas companhias, menos recomendáveis, os filhos viram as costas aos seus pais, quando estes lhes perguntam o que se está a passar ou lhes solicitam que lhes contem as suas apreensões ou lhes confidenciem os seus problemas e desabafem com eles. Então os pais ficam deveras aborrecidos por seus filhos não serem capazes ou não quererem desabafar com os seus pais, que tanto bem lhes desejam.

Nessas alturas gera-se uma barreira álgica, um silêncio sepulcral, doloroso e perturbador, entre os pais e filhos, o que não devia existir, no seio duma família. E isto porque, enquanto cresceram, não foram habituados a conversar com os seus progenitores, a conviver com eles, a contar-lhes as suas preocupações infantis e agora já é tarde…

A maioria das famílias julga que é a escola, a entidade que tem a obrigação de dar educação e instrução, aos seus filhos, bem como formação e ensino sobre a sexualidade, substituindo a família nessas tarefas. Pura ilusão. A casa dos pais, sempre foi e há de continuar a ser, a escola dos filhos, primordial. Criar um filho, é muito mais do que dar-lhe amor, carinho, brinquedos, vestuário, alimentação, abrigo, levá-lo ao médico, sempre que necessário. Todavia, para além disto tudo, há todo um convívio, com os filhos, que imprescindivelmente deve ser vivido diariamente. É através desse constante convívio, que os filhos, mais tarde, se revêem nos seus pais e os pais, por seu lado, se orgulham dos filhos que criaram, ensinando-os a olhar para o mundo e a fugir às suas constantes ciladas, ajudando-os a construírem a sua vigorosa personalidade e a adquirirem as virtudes que os devem galvanizar. A serem sociáveis e a conviverem, mantendo relações amistosas, com as pessoas que os rodeiam e merecem a sua amizade. Os acontecimentos que vão ocorrendo, no dia a dia, servem de exemplo para atingirem essa finalidade. E tudo isto porque os pais devem estar junto dos filhos, apoiando-os nos problemas que vão surgindo, ajudando-os a resolver as dificuldades que se deparam. Dar a vida a um novo ser, constituiu o início de um trabalho edificante, de uma personalidade íntegra. Talvez seja das tarefas mais difíceis e complexas do mundo, mais belas e mais prestigiosas, que só os pais podem realizar.

 

Escrito por Fabião Baptista e publicado em Jornal da Família, maio de 2017