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Como a Inteligência Artificial vai mudar a vida urbana até 2030

Para o bem e para o mal, mas acreditando que será mais para o bem, a marcha célere da Inteligência Artificial já não tem retorno. Entre desafios, ameaças, temores e grandes esperanças, o impacto que terá em diversos domínios da nossa existência não é ficção científica. E basta pensarmos um bocadinho para perceber que, afinal, os sinais do futuro já nos cercam no presente. A IA já chegou e veio para ficar

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Os retratos futuristas e assustadores da Inteligência Artificial (IA) que dominam os filmes e os livros e influenciam o imaginário colectivo não passam de mera ficção. Mas, no mundo real, a IA está, mesmo, a alterar as nossas vidas quotidianas, e de uma forma avassaladora, mediante formas que melhoram a saúde humana, a segurança e a produtividade. Ao contrário do que vemos no cinema, não existem exércitos de robots com capacidades sobre-humanas no horizonte mais próximo, apesar de serem muitos os críticos que antevêem uma miríade de problemas e ameaças protagonizados por esta (r)evolução sem precedentes.

E, apesar de o potencial para uma utilização abusiva das tecnologias de IA ter de ser reconhecido, abordado e debatido, em conjunto com inúmeras questões éticas emergentes (e sobre as quais o VER tem escrito), o seu maior potencial reside, entre um conjunto de domínios diversos, em tornar a condução de veículos mais segura, a ajudar as crianças e os adultos a aprender, a melhorar – e a estender – a vida dos humanos. Na verdade, o uso de aplicações benéficas da IA nas escolas, nas nossas casas e nos hospitais está a acrescer a um ritmo acelerado: as grandes universidades dedicam cada vez mais tempo e recursos ao seu estudo e empresas de tecnologia como a Apple, o Facebook, a Google, a IBM e a Microsoft – entre outras – estão a alocar recursos e investimentos gigantescos na sua exploração.

O estudo One Hundred Year Study on the Artificial Intelligence, um desafio pensado e lançado pelo reconhecido Eric Horvitz, o cientista de computação responsável pelo principal laboratório de investigação da Microsoft e antigo presidente da Association for the Advancement of Artificial Intelligence, visa apresentar, a cada cinco anos, o estado da Inteligência Artificial e as suas trajectórias futuras, analisadas por um painel de especialistas. O primeiro painel, constituído por especialistas em IA, leis, ciência política e economia, apresentou, em Setembro último e na Universidade de Stanford, aquela que será a primeira edição deste estudo e que tem como objectivo principal aferir o impacto da Inteligência Artificial, até 2030, numa típica cidade americana.

E porque a temática das cidades do futuro tem estado em alta nas agendas internacionais, nomeadamente com a adopção, a 20 de Outubro último, da The New Urban Agenda, pelas Nações Unidas, a qual visa assegurar a implementação, por parte dos governos, de um novo modelo de desenvolvimento urbano sustentável que promova a igualdade, o bem-estar e a prosperidade partilhada, mas também com a recente publicação do livro, por parte da OCDE, Making Cities Work for All, e sobre o qual o VER escreveu a semana passada, acreditamos que esta espreitadela no futuro possa contribuir também para uma nova visão dos desafios e oportunidades que as cidades, crescentemente populosas, terão de abordar nos próximos 15 anos. Adicionalmente, e porque “2030” não só parece constituir o marco temporal de que todos falam [em particular devido aos Objectivos do Desenvolvimento Sustentável], mas porque o mesmo está igualmente presente nesta edição, seguem-se os principais domínios identificados pelos investigadores deste primeiro painel como aqueles que terão maior impacto nas cidades até 2030 e que têm como denominador comum a Inteligência Artificial, nas suas variadas formas.

Transportes e veículos autónomos

© DR

Apesar de os veículos inteligentes estarem sobre os holofotes dos media há já algum tempo (o VER dedicou-lhes um artigo há relativamente pouco tempo), a velocidade a que está a ser feita a transição dos vários meios de transporte tal como os conhecemos para um novo modelo “orientado pela Inteligência Artificial” parece ser superior ao ritmo da nossa própria imaginação. Mas a verdade é que os veículos autónomos serão larga e indubitavelmente adoptados até 2020, e não estamos só a falar de carros, mas também de camiões – na passada terça-feira, um veículo pesado da Otto, uma empresa detida pela Uber, fez a primeira entrega de quase 52 mil latas de cerveja Budweiser através do Colorado, sem condutor – , de drones autónomos para entregas de encomendas e de robots pessoais, os quais passarão a fazer parte da normalidade quotidiana em várias cidades.

Por outro lado, estima-se igualmente que o “carro enquanto serviço” – ao estilo-Uber – venha a substituir o “carro enquanto propriedade”, o que irá alterar em força o modelo actual de transporte público, esperando-se uma transição para abordagens similares “on-demand”. Ou seja, as horas que costumamos perder em trajectos por vezes longos e “vazios”, transformar-se-ão em tempo para relaxar ou trabalhar activamente, encorajando as pessoas a viverem mais longe do que é hoje habitual, o que poderá ainda ser positivamente combinado com a necessidade reduzida de lugares para estacionamento e conduzirá a uma profunda alteração do “rosto” das cidades modernas.

Adicionalmente, quantidades gigantescas de dados provenientes de números crescentes de sensores irão permitir que existam “administradores”, os quais irão modelar os nossos movimentos, preferências e objectivos individuais, o que terá impactos de ordem diversa na concepção das infra-estruturas urbanas.

Mas não será por isso que os humanos deixarão de fazer parte do sistema, antes pelo contrário. Os algoritmos que permitem que as máquinas “aprendam” a partir do input conferido por nós, humanos, em conjunto com as nossas próprias orientações, será imprescindível para que os transportes autónomos operem de forma segura. E garantir que esta aprendizagem é bem feita será também crucial na medida em que a mesma se traduzirá na primeira experiência do público com sistemas de IA fisicamente embutidos e que irá influenciar grandemente a percepção pública.

Cuidados de saúde

© DR

O impacto da IA nos cuidados de saúde nos próximos 15 anos dependerá mais de regulamentações do que propriamente da tecnologia, conclui também este painel de investigadores. As possibilidades mais transformativas da IA na área da saúde exigem o acesso a dados, mas e até agora, a Food and Drugs Administration (FDA, na sigla em inglês, e o organismo responsável que regulamenta e licencia o uso de fármacos e outros produtos de utilização e prescrição médica nos Estados Unidos) tem vindo a falhar no que respeita à solução para o problema difícil de equilibrar a privacidade e o acesso aos dados dos pacientes. Por outro lado, a implementação de registos de saúde electrónicos tem sido igualmente pobre.

Se estes obstáculos forem entretanto ultrapassados, a IA poderá automatizar e agilizar os diagnósticos através do acesso aos registos dos pacientes e cruzando-os com a literatura científica. Esta espécie de assistente digital permitirá que os médicos se concentrem mais nas dimensões humanas dos cuidados de saúde, ao mesmo tempo que poderão usufruir da sua intuição e experiência para orientarem os processos dos seus doentes.

Em paralelo, os dados que constam nas fichas de saúde dos pacientes, os wearables (sistemas de monitorização que se usam junto ao corpo e que já existem), as aplicações móveis e a sequenciação individualizada do genoma farão da medicina personalizada uma realidade. E, apesar de não ser muito provável que os exames de radiologia possam ser – pelo menos neste período de tempo – completamente automatizados, ou seja, não dispensando a interpretação humana, o acesso a gigantescas bases de dados de imagiologia permitirão também treinar os algoritmos das máquinas que aprendem, conferindo-lhes capacidades para ajudar na triagem ou na verificação de scans, por exemplo, reduzindo a carga de trabalho dos médicos.

“Andarilhos” inteligentes, cadeiras de rodas sofisticadas e exoesqueletos irão também ajudar a que a população mais idosa se mantenha activa, ao mesmo tempo que a tecnologia inteligente que estará disponível ao nível doméstico poderá servir de apoio na sua monitorização, mantendo-os independentes.

Os robots poderão também começar a “trabalhar” nos hospitais, realizando tarefas simples como a entrega de determinado equipamento no quarto X ou até fazendo suturas, desde que a agulha esteja correctamente posicionada, libertando desta forma os enfermeiros para outras tarefas mais exigentes, mesmo que este tipo de “ajuda” exija sempre uma colaboração entre homem e máquina.

(A propósito da evolução da IA nos cuidados e investigação inerentes à área da saúde, em conjunto com várias das temáticas aqui afloradas, leia Microsoft declara guerra aberta ao cancro)

Educação

© MIT

A linha que separa a sala de aula e a aprendizagem individual será crescentemente esbatida até 2030. Os denominados Massive Open Online Courses (MOOCs) irão interagir com tutores inteligentes e outras tecnologias de IA para permitir a educação personalizada em grande escala. A aprendizagem com base nos computadores não substituirá a sala de aula, mas as ferramentas online ajudarão os estudantes a aprender ao seu próprio ritmo, utilizando as tecnologias que melhor sirvam as suas necessidades.

Complementarmente, os sistemas de educação munidos de IA irão não só “aprender” as preferências dos indivíduos, como também e através da agregação de dados, acelerar a pesquisa educativa e o desenvolvimento de novas ferramentas. O ensino online irá alargar crescentemente o acesso à educação, contribuindo para a aprendizagem ao longo da vida, permitindo que as pessoas façam formação contínua nas suas áreas de interesse e, mais importante que tudo, aumentando o acesso à educação de qualidade nos países em desenvolvimento.

A realidade virtual, cada vez mais sofisticada, permitirá também que os alunos “mergulhem” em épocas históricas (v. “E se o seu filho fosse tão viciado em estudar como é a jogar”), que explorem determinados ambientes ou objectos científicos, mais difíceis de serem apreendidos através dos livros ou do actual ambiente de aprendizagem. E, por seu turno, os dispositivos de leitura digital irão ficar cada vez mais inteligentes, oferecendo ligações para informações complementares e fazendo a tradução simultânea entre línguas.

Comunidades com baixos recursos

© DR

Ao contrário do que se pensa – que a IA só será acessível aos mais ricos – estima-se que até 2030, a Inteligência Artificial possa vir a melhorar a vida dos membros mais pobres da sociedade. Os sistemas de análise preditiva permitirão às agências governamentais fazerem uma alocação mais eficaz dos recursos limitados, prever com maior eficácia riscos ambientais ou intercederem, atempadamente, face a situações de violação das normas de construção. O planeamento proporcionado pela IA ajudará igualmente a distribuir melhor as refeições que sobrem dos restaurantes, canalizando-as atempadamente para bancos alimentares ou abrigos.

O problema é que o investimento nestas áreas tem sido, até agora, sub-financiado, o que torna difícil prever a sua utilização e benefícios na prática. Mas e na medida em que os programas de IA são mais facilmente “responsabilizáveis” que os humanos, serão decerto menos dados a possíveis discriminações.

Segurança pública

© DR

Até 2030, as cidades irão depender em larga escala das tecnologias de IA para detectar e prever o crime. O processamento automático dos circuitos fechados de televisão (CCTV) e das imagens gravadas por drones tornarão possível alertar rapidamente para “anomalias comportamentais”. Tal permitirá que as forças policiais ajam mais rapidamente e que exista uma previsão mais eficaz de onde e quando determinados crimes poderão ser cometidos. O medo de que a parcialidade e possíveis erros possam conduzir a injustiças é justificado, mas sistemas inteligentes e bem planeados poderão, pelo contrário, neutralizar este tipo de preconceitos e evidenciar situações de negligência policial.

Adicionalmente, os avanços nas tecnologias de análise de voz e de marcha poderão ajudar os serviços policiais e os de seguranças a detectar comportamentos suspeitos. E, contrariando as preocupações sobre a “omnipresença em excesso” no que respeita ao cumprimento da lei, a IA permitirá que o policiamento seja mais eficazmente orientado e, por isso mesmo, menos “prepotente”.

Emprego e locais de trabalho

© DR

É uma das áreas que mais tinta tem feito correr quando se fala nos progressos da Inteligência Artificial e dos efeitos que terá não só nos locais de trabalho, como na força laboral no geral (e o VER tem estado a acompanhar o tema de forma recorrente). E é verdade que, até 2030, as estimativas apontem para que esta venha a usurpar profissionais qualificados e diversos como os advogados, os conselheiros financeiros, os radiologistas, entre outros. Todavia, é muito mais provável que a IA venha a substituir tarefas e não empregos, pelo menos a curto prazo, ao mesmo tempo que poderá também criar novos empregos e mercados, mesmo que ainda não seja fácil prever quais e em que moldes. Mas e se por um lado é provável que venha a reduzir os rendimentos e as perspectivas de trabalho, por outro, esta automação crescente irá igualmente diminuir os custos dos bens e serviços, podendo melhorar a qualidade de vida de mais pessoas e reduzir as desigualdades.

Contudo, estas mudanças estruturais na economia irão exigir respostas que sejam mais políticas do que puramente económicas, de forma a assegurar o acesso generalizado a estas novas “riquezas”. No curto prazo, estas poderão incluir a injecção de novos recursos nas áreas da educação e da (re)formação, mas a médio e longo prazo é muito provável que uma nova rede de segurança social tenha de vir a ser cuidadosamente pensada e implementada, ou que os governos sejam obrigados a optar por opções actualmente consideradas como “radicais” – apesar de já estarem a ser debatidas em vários países – como a do estabelecimento de um rendimento mínimo garantido.

Entretenimento

As várias formas de entretenimento em 2030 serão interactivas, personalizadas e incomensuravelmente mais atractivas do que as que temos ao nosso dispor na actualidade. Os progressos nos sensores e no hardware permitirão que a realidade virtual, as sensações tácteis e os robots de companhia passem a ser comuns no interior das nossas casas. Os utilizadores serão capazes de interagir com os sistemas de entretenimento coloquialmente, e estes irão demonstrar emoções, empatia (o que até agora não foi conseguido, na verdade) e a capacidade de se adaptarem a estímulos ambientais, como por exemplo aos diferentes períodos do dia.

Apesar de as redes sociais e outras plataformas digitais já permitirem a personalização de canais de entretenimento, as quantidades gigantescas de dados que serão recolhidos a partir dos padrões de utilização e de preferências dos utilizadores permitirão aos fornecedores de media personalizarem o entretenimento para níveis nunca antes imaginados. O que também gera preocupação na medida em que os conglomerados de media terão um controlo sem precedentes sobre as experiências online das pessoas e das ideias às quais estas serão expostas.

Mas a boa notícia é que a IA possibilitará a criação do nosso próprio entretenimento, tornando-o mais fácil e atractivo, seja ajudando-nos a compor uma música ou a fazer uma coreografia com a ajuda de um avatar. A democratização da produção de entretenimento de alta qualidade torna, contudo, impossível de prever até que ponto a elevada fluidez dos gostos humanos no que respeita ao mesmo se irá desenvolver.

Artigo publicado em “Valores, Ética e Responsabilidade” – ACEGE, 27 outubro 2016