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A oração fortalece a família

 (Artigo de Maria Hildingsson, secretária-geral da Federação Europeia de Associações Católicas de Família, publicado em Família Cristã, Junho 2014)

A secretária-geral da Federação Europeia de Associações Católicas de Família esteve em Portugal para uma série de conferências e encontros. Em todos, abordou a importância da família para a sociedade e para a Igreja. Em entrevista à FAMÍLIA CRISTÃ, falou sobre esta importância, mas também insistiu na necessidade de a Igreja acompanhar as famílias em todas as fases da sua caminhada.

 

A força das suas ideias é visível ao primeiro contacto visual e físico. Maria Hildingsson é sueca, mas reside na Bélgica, onde desempenha o cargo de secretária-geral da Federação Europeia de Associações Católicas de Família. Fala da família como um dos pilares da sociedade, mas um pilar que necessita de conforto, carinho e acolhimento, para não correr o risco de se perder no tumulto das correntes que hoje colocam em causa esta instituição basilar da sociedade.

Numa conferência afirmou que só podemos falar sobre a família se recuperarmos o sentido antropológico da família. Que sentido é esse?

É difícil criar políticas para algo que não temos bem definido. Sabemos que há uma batalha ideológica entre pessoas que querem introduzir a ideia que família pode ser toda e qualquer forma de pessoas a viverem em conjunto: um, dois ou mais adultos a viverem com crianças. No entanto, o que promovemos, enquanto federação, é a ideia de família baseada no conceito de união entre um homem e uma mulher. Este é, para nós, o melhor e mais seguro compromisso tanto para os filhos como para os esposos.

Um inquérito feito aos jovens, publicado em 2013 mostrou que o que eles mais respeitam hoje em dia são os pais que mantêm a família unida. Mostrou ainda que os jovens aspiram a ter relações estáveis, e foi mais longe ao perceber que esta geração está a mudar e está a considerar que a vida familiar é a coisa mais importante na sua vida.

Como é que a Europa olha para a família?

A Europa é muito diversa nas suas perspectivas. No entanto, as principais diferenças estão nas ideias do cidadão comum e dos políticos. A nível político, o que acontece é que há políticos que querem promover a família como tendo diferentes formas de vida em comum, e há aqueles que não se preocupam com a família, e os que querem apoiar a família baseada na união entre um homem e uma mulher. Claro que estas diferenças também podem ser vistas na sociedade, mas é muito menor.

O inverno demográfico é resultado dessa confusão? Estamos a assistir ao declínio da família enquanto instituição?

Talvez sim, uma vez que as pessoas não se sentem confiantes no futuro, na sua capacidade de terem relações longas e estáveis, e não sentem nos outros essa confiança. Uma parte será devido aos divórcios e separações que aumentam, mas outra parte será devido a essa confusão sobre como nos devemos relacionar com os outros e qual o papel que a relação desempenha na sociedade e o que é a família. Claro que se há uma incerteza, isso tem impacto nas taxas de fertilidade, mais ainda quando sabemos que há diferenças entre as taxas de natalidade reais e as desejadas. Se as pessoas na Europa pudessem ter quantos filhos desejassem, teriam, em média, mais um filho. Isto significaria que iríamos sair deste inverno demográfico na maior parte dos países.

O que pode então ser feito?

O que temos de fazer é criar políticas que permitam isto, por um lado, e, por outro lado, desenvolver medidas que permitam que as pessoas se preparem para o compromisso de uma vida de casados. Precisamos de uma verdadeira educação de amor, perdão e de vida em comum. Acredito que o primeiro sítio onde isto deve acontecer é em casa. Crianças que tenham oportunidade de crescer com pais que dão testemunho da sua capacidade de viver em conjunto e em harmonia, apesar das dificuldades que aparecem, vão estar mais bem preparadas para terem uma relação estável elas próprias. Depois também na escola, para que as crianças que não tenham recebido isto em casa possam ser educadas neste sentido. É importante não separar estas duas dimensões.

As recentes legislações sobre casamento e adoção gay, ou o aborto, afetam os valores da família como a conhecemos?

Até um certo ponto sim, porque há um desafio educacional e os media têm um papel a desempenhar. Se os media apenas apresentam como possível um certo tipo de amor e relação, isso terá um impacto nas crianças e jovens. Afeta a forma como consideramos a família, principalmente nos casos em que as pessoas não têm referências de infância, porque aí estarão mais sensíveis ao que recebem dos media.

As famílias numerosas são muitas vezes gozadas ou olhadas de lado. Porque é que isto acontece?

Em alguns casos sim, até porque não é comum hoje em dia vermos grandes famílias. Mas por outro lado acho que estas famílias numerosas têm um testemunho a dar, até porque são normalmente lares acolhedores e com um grande espírito. As crianças que provêm de lares onde há menos crianças ficam sempre muito contentes quando vão a casas onde há muitas crianças. Penso que pode haver algum preconceito, mas se estivermos em contacto com essas famílias e virmos como vivem, isso poderá mudar.

Parece que não faz muito sentido, uma vez que ter mais pessoas no país ajudará a própria economia…

O melhor investimento da sociedade é no aspeto humano. E o primeiro tem de ser na educação das crianças. Os pais precisam de ser apoiados nessa tarefa de educar. Se os pais forem apoiados e as crianças forem educadas, a sociedade receberá adultos preparados para uma vida participativa na sociedade, a trabalhar, a estudar e a ter participação política. O melhor investimento que a sociedade pode fazer é nas crianças.

Sente que o problema do divórcio e das separações afeta muitas famílias católicas?

Não sei as estatísticas, mas as famílias católicas também são afectadas pelo divórcio e a separação, como as outras. De um modo geral, os divórcios aumentaram hoje, e as famílias católicas não estão protegidas desse fenómeno, pelo que acredito que é um verdadeiro desafio também para as famílias católicas.

Permitir um segundo casamento pode ser a solução?

Não tenho a certeza que permitir o segundo casamento seja a solução, apesar de considerar que cada caso é um caso. Não penso que a Igreja possa abrir exceções para um sacramento. E é por isso que temos de preparar as pessoas muito antes para aquilo que é o casamento. Penso que tem havido uma lacuna, uma falha, na forma como as pessoas são preparadas para o casamento.

Os católicos ainda rezam como família nos dias de hoje?

A rapidez a que passam os dias hoje, encontrar tempo para estarem em conjunto é um desafio para famílias católicas, muçulmanas, judias ou não crentes. É difícil saber o que se passa no íntimo de cada família, mas sim, julgo que ainda há famílias que rezam. Além disso, há uma nova geração de pais, a geração João Paulo II, onde há um desejo profundo de viver de acordo com a sua fé. Vejo muitas famílias jovens à minha volta que experienciam isto. São mais radicais na forma como fazem as suas escolhas de vida, e acho que isso significa que há uma renovação. A oração fortalece a família, não tenho dúvidas.

Muitas crianças chegam à catequese sem qualquer preparação prévia. A família não deveria ter este papel de evangelizador das crianças da família?

A família é a Igreja doméstica, e por isso tem a missão de transmitir a fé. Em muitos casos, os pais podem achar que não estão preparados para darem eles a catequese, mas podem ser apoiados e encorajados a fazê-lo. Os pais precisam da Igreja nesta tarefa, não é algo que possam fazer sozinhos.

O próximo sínodo dos bispos vai ser sobre a família. Quais os assuntos aos quais os bispos não vão poder fugir?

Como já disse, as famílias precisam de ser apoiadas na sua missão dentro da Igreja e do mundo, e o maior desafio que temos é o de reflectir sobre como preparamos cada uma dessas pessoas para terem relações estáveis, que levem a uma sociedade e a uma Igreja estável. E isto entra no campo da preparação para o casamento e para o namoro, mas também no acompanhamento que é preciso dar a casais casados. Não chega dar conselhos quando as coisas chegam a um ponto de conflito que não tem retorno, temos de apoiar durante toda a vida do casal.

Será um sínodo mais pastoral ou um sínodo mais doutrinal?

Há uma necessidade pastoral muito grande, pelo que penso que será um sínodo pastoral. Não há razão para mudar a doutrina da Igreja nestas matérias, mas a Igreja sempre encontrou forma de se adaptar e responder às necessidades. As necessidades das famílias hoje são muito diferentes das necessidades das famílias há anos atrás, e é isso que a Igreja tem de compreender e adaptar, utilizando a sua doutrina, que se tem mantido inalterável ao longo de toda a história. É isso que a Igreja precisa de fazer para responder aos anseios pastorais das famílias hoje.