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Escutismo (não é) para todos

(Uma opinião de Ricardo Perna, artigo publicado em Flor de Lis, Janeiro 2014)

 

A noção de que o Escutismo está disponível para toda a gente tem sido ligeiramente distorcida. Dizer que o Escutismo está acessível a todos não é o mesmo que dizer que o Escutismo é para todos. Quando Baden-Powell criou o Escutismo, em 1907, criou-o com um programa educativo que visava preparar os jovens para serem cidadãos do mundo, pessoas ativas e conscientes que iriam transformar a sociedade para melhor. Não o criou para toda a gente, criou-o para todos os jovens que desejassem abraçar este projecto assim como ele o tinha concebido. E este projecto tinha, como tem ainda hoje, alguns pressupostos que certas pessoas parecem querer ignorar e que são importantes salientar.

Se um jovem delinquente considera que o modo de vida ideal para ele é assaltando bombas de gasolina ou roubando casas, o Escutismo é para ele? Não, porque B-P preconizou um movimento de jovens respeitadores do bem alheio, e não tolerava este tipo de comportamento.

Se um jovem destrói a natureza, mata animais por desporto com a pressão de ar do pai, e não deseja alterar este comportamento nem consegue ser convencido de que isto não é modo de vida, o Escutismo é para ele? Não, porque B-P preconizou um movimento de amantes protectores dos animais, e não tolerava este tipo de comportamento.

Se um jovem afirma que não acredita em Deus, não demonstra qualquer abertura para o fazer, nem tem interesse em conhecer mais sobre uma dada religião, seja ela qual for, o Escutismo é para ele? Não, porque B-P afirmou claramente que este é um movimento que apenas faz sentido com Deus no horizonte, e que “cada escuteiro deve ter uma religião”, citando o próprio.

Sejamos claros: todos os jovens mal comportados ou que andam à procura de uma orientação espiritual são bem aceites no movimento escutista. É dever do movimento, e dos seus Dirigentes, trabalhar com eles e levá-los a bom porto, ou seja, a mudar os comportamentos que, à luz da Lei e dos Princípios, estão errados e precisam de ser alterados.

Os jovens têm de perceber que aqui há um plano traçado para eles, que passa por uma Lei e Princípios que são claros e inequívocos. Não se pode ignorar parte da Lei ou dos Princípios, só porque dá jeito.

“As crianças não gostam da escola porque têm Matemática. Bom, então, para tornar a escola mais atraente, as crianças, se quiserem, podem não ir às aulas de Matemática que passam o ano na mesma, não se preocupem.” Mas algum cidadão consciente iria permitir que a escola funcionasse nestes termos, ou acharia lógica nesta teoria?

É por isso que determinar que na fórmula da Promessa se apaga a referência a Deus, como estão a pensar fazer os escuteiros ingleses, ou qualquer outra teoria que defenda que o Escutismo deve apagar qualquer outro pilar do seu método apenas porque assim recebem mais crianças, é deturpar a missão que o nosso fundador nos deixou. Em resumo, não é fazer Escutismo, mas sim outra coisa qualquer, e não é para isso que usamos este uniforme, mas é porque aderimos à proposta de Baden-Powell como ele a fez. Não foi isso que prometemos?