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Envelhecimento e solidariedade

Escrito por António Bagão Félix, e publicado em Voz da Verdade de 25 de Maio de 2014

A força é a glória dos jovens, os cabelos brancos são a honra dos velhos (Prov. 20,29).

A velhice é isto: ou se chora sem motivo, ou os olhos ficam secos de lucidez (Miguel Torga).

 

  1. Num tempo de crise ética, económica e social e de uma preocupante fragmentação geracional, a velhice é crescente e injustamente vista sobretudo como um problema. E, não raro, é desqualificada, descentrada, desconsiderada e mesmo discriminada.

Ao contrário, a velhice deve ser perspectivada como uma verdadeira conquista da humanidade, um importante sinal de progresso e de enriquecimento civilizacional.

Não é, pois, um problema ou um obstáculo. O modo como ela é encarada, é que vem gerando, por vezes, uma dificuldade acrescida, produzida por uma estrutura social cada vez mais dual e bipolar.

Em parte, pelo fascínio contemporâneo por tudo o que é novo, presente, urgente ou quantitativo que, ao mesmo tempo, secundariza o que é velho, perene, importante ou qualitativo. Já lá vai o tempo em que se dizia com sábio gosto popular que velhos são os trapos ou se falava de uma velha tradição, uma velha amizade ou um velho país, ou se chamava carinhosamente o pai por meu velho. Hoje propende-se a exaltar muito mais as novas ideias, uma nova moda, um novo país, um novo produto ou uma nova técnica.

  1. Afinal o que é ser velho? Ou ancião, para utilizar a rica expressão que junta à idade a respeitabilidade e a sabedoria da vida? Ser ancião começa por significar a idade em que, na pessoa humana, o ser assume, em definitivo, primazia sobre o ter e o tão só estar. Por isso a ancianidade convive dificilmente com um mundo crescentemente dominado pelo produtivismo, pela economia sem rosto, pelo utilitarismo, pelo individualismo exacerbado que vêm conduzindo à pequenez ética e ao relativismo de valores e de princípios.

 

  1. O novo cenário social e geracional exige partilha de riscos e não segmentação artificiosa das respostas. Integração das eventualidades sociais, mas não a sua compartimentação. A indissociabilidade dos riscos sociais é hoje um dado adquirido na velhice perante a doença, a escassez de recursos, a solidão, a perda de autonomia, o enfraquecimento relacional.

Não devemos alimentar uma perspectiva pessimista sobre o futuro da velhice. Há sempre espaço para uma ética da solicitude e um código de relações e transferências sociais postas ao serviço dos mais velhos.

Não nos podemos dar ao luxo de desperdiçar os importantes recursos não monetários (e sempre renováveis) de que os mais velhos dispõem e que não se aprendem em manuais porque só pela vida se adquirem: a sabedoria, que não o simples conhecimento; o testemunho que não a mera experiência; a memória que não somente o registo dos factos; a seriedade despojada da agressividade do quotidiano; o carisma, dom forjado na vida; a reconciliação que não se confunde com resignação ou omissão; a disponibilidade de um tempo mental onde conta mais a solicitude e a paciência do que o rodar físico dos ponteiros; a partilha, essa conjugação desinteressada do dar sem quitação e sem exigência de troca; a ternura onde não há hierarquias perversas de afectos; a persistência como fonte inesgotável de saber e de ser. Enfim, a vida entre o património da memória e a esperança da eternidade.

Como dizem os africanos a morte de um velho é como o arder de uma biblioteca, a que eu acrescentaria de uma biblioteca de que só existe um exemplar, o que torna a sabedoria um bem precioso, uma verdadeira universidade da vida. Contrariando a eutanásia social traduzida pelo filósofo grego de que a pessoa velha tem todas as respostas, mas já ninguém lhe faz as perguntas.

 

  1. É preciso recentrar na família a coesão geracional e aprofundar o seu papel como espaço privilegiado das chamadas solidariedades naturais, isto é, resultantes da natureza gregária das pessoas e não produzidas pela ordem jurídica. A família deve constituir o primeiro lugar dos mais velhos. Nada tenho contra os lares. Mas sou contrário à tendência por inércia para a betonização da velhice. O lar é o último e muitas vezes inevitável recurso. Nunca poderá ser uma via de facilitação que conduza perigosamente ao enfraquecimento e à fragmentação da família. Uma das medidas essenciais por que dever ser escrutinada a economia e a política passa pelo modo como a velhice é abordada. Por isso, há necessidade de as repensar de modo a não se dissociar a eficácia estritamente económica da consideração social do respeito geracional.

Também a Igreja deve estimular a promoção da vocação e da missão dos idosos, designadamente através da valorização e do incremento do seu protagonismo pessoal, familiar, social, cultural e eclesial.