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3. A família no centro das atenções das famílias.

(por Juan Ambrósio, em Jornal da Família, Maio 2014)

 

O título que proponho para estas linhas pode parecer, a um primeiro olhar, confuso, ou até mesmo uma gralha, mas de todo não o é.

Estamos a refletir sobre a importância que a família tem não só para a construção das sociedades e da história, como também para a edificação da identidade pessoal e, porque não dizê-lo sem medo, da própria identidade da condição humana enquanto tal. E digo isto porque estou verdadeiramente convencido que da maneira como vivermos e promovermos a família depende o rosto da humanidade que vamos ser no futuro.

Tem por isso todo o sentido que, enquanto famílias, exijamos da parte dos governos toda a atenção e o desenvolvimento de políticas que promovam, em toda a linha, a realidade familiar.  Não chega dizer que a família é muito importante e, depois, não fazer nada, ou fazer muito pouco, para concretizar essa afirmação. O mais importante de Portugal, são os portugueses e o País não terá verdadeiramente futuro se não se lhes der toda a prioridade e destaque nas opções que têm de ser feitas e nas escolhas que devem ser realizadas. Defender e promover a família parece-me, pois, ser a decisão mais acertada e mais inteligente a fazer. E quando assim não é, não podemos deixar de tirar as nossas conclusões acerca da preparação e intenção daqueles que nos governam.

O que é dito do governo e dos governantes pode igualmente ser dito, ainda que fazendo todas as distinções e salvaguardando todas as distâncias, das nossas comunidades eclesiais. Também a este nível não bastam discursos e palavras bonitas, nem pequenos gestos, por mais importantes e necessários que estes sejam. É verdade que a família tem estado na primeira linha das preocupações e dos discursos dos cristãos de um modo geral, mas parece-me ser também verdade que nem sempre essas preocupações e discursos têm tido a total tradução necessária. É inegável que muito tem sido feito, sendo a comunidade cristã daquelas que mais se destaca na defesa da família, mas temos de reconhecer que é necessário fazer mais e temos, mesmo, de fazer mais, de modo a que a família, enquanto tal, e não apenas alguns dos seus membros, assuma o  papel que só ela pode desempenhar. Isto pode soar até estranho, mas todos reconhecemos as dificuldades que existem, por exemplo, quando chega a altura de pensar a melhor maneira de envolver e corresponsabilizar a família, como família, na vida e organização das nossas comunidades.  

Reclamar que todos os que têm responsabilidades assumam definitivamente a defesa e promoção da família se é, de facto, indispensável, não é, contudo, suficiente. Neste campo todos são chamados a assumir as suas responsabilidades a começar pelas próprias famílias. Já a este propósito vimos como é fundamental que elas assumam um protagonismo que mais ninguém pode desempenhar, nem substituir.

Mas podemos, e devemos, ainda ir mais longe nesta reflexão, afirmando que também as famílias, e cada um dos seus membros, são chamadas a colocar a realidade familiar no centro das suas atenções e ações.

Explico um pouco melhor o que pretendo dizer com esta afirmação. Por vezes, também os discursos das próprias famílias não são acompanhados da devida concretização. Na verdade, quantas vezes os membros da própria família correm o risco de cair num discurso que é dirigido para fora, não tocando na maneira concreta como o vivem?

Para que a família possa ter o lugar que lhe compete na construção das nossas sociedades e no desenvolvimento humano é mesmo necessário que ela esteja no centro das suas próprias atenções.

Todos sabemos que a vida em família não pode simplesmente ficar reduzida aos tempos e aos espaços partilhados em conjunto. Tal como não pode simplesmente ser vista como uma realidade que ajuda as pessoas a poderem viver melhor, porque as apoia e suporta nos momentos de maior necessidade e na concretização dos seus projetos. Tanto uma como a outra dimensão, não podendo deixar de existir, não constituem a base suficiente para ser poder falar em família.

A experiência de vida familiar, mais do que uma experiência vivida em comum, é essencialmente uma experiência de vida construída em comum. Quais são os projetos existentes enquanto família? De que modo está a família presente no bairro em que vive, na comunidade em que celebra a fé, ou mesmo nos diversos locais de trabalho e estudo habitados pelos seus membros? Ou seja há como que uma identidade familiar que é mais do que a simples soma da identidade de cada um dos seus membros, se bem que não possa prescindir dessas identidades pessoais; tal como há uma existência familiar que não é simplesmente a soma da existência de cada um dos seus membros, ainda que dela também não possa prescindir.

Descobrir e viver a família como esta realidade que vai para além do tempo e do espaço em comum e da ajuda necessária e indispensável, é um passo fundamental para que a experiência familiar possa estar no centro das atenções das próprias famílias e, deste modo, possa marcar a construção de uma história, onde a promoção da dignidade de todos os seres humanos seja o critério fundamental.