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B Corp: um relato de interdependência

Tudo começou há oito anos, quando cinco pessoas se juntaram para criar uma empresa que pudesse ser uma força para o bem. Na recente cimeira sobre o movimento B Corp, a Stone Soup escolheu partilhar a sua própria história, a qual teve como ponto de partida a reflexão sobre como seria possível ajudar as organizações e os empreendedores sociais a aumentar o seu impacto social positivo através de uma consultoria estratégica e do conceito de comunidade. Hoje, e enquanto B Corp certificada, já existem novas histórias para contar

 

POR CLÁUDIA PEDRA

Stone Soup foi convidada a partilhar uma história de interdependência na B Corp Europe Summer Summit, que teve lugar entre 20 a 22 de Junho de 2017, e na qual participámos enquanto B Corp certificada. Como alguns de vós poderão saber, qualquer empresa que se junte ao movimento B Corp assina uma denominada Declaração de Interdependência. E quando cheguei a Cascais, a Declaração encontrava-se em cima da mesa, destacando-se pela sua simplicidade, mas também pelo seu significado. O que certamente serviu para inspirar o meu discurso.

A história que escolhemos partilhar mais não foi do que a história de como criar um novo conceito de comunidade e de como o mesmo está “enrodilhado” na história da própria Stone Soup. Tudo começou há oito anos, quando cinco pessoas se juntaram para criar uma empresa que pudesse ser uma força para o bem. Quando reflectimos na nossa Teoria da Mudança e decidimos que a Stone Soup iria ajudar as organizações e os empreendedores sociais a aumentar o seu impacto social positivo através de uma consultoria estratégica, reflectimos igualmente sobre o conceito de comunidade. Tínhamos esta ideia louca de que esta mesma comunidade poderia juntar os parceiros fundadores, os consultores, os clientes, os parceiros comerciais, mas também os concorrentes que, por vezes, se poderiam transformar em parceiros também. Agendámos várias reuniões com esses mesmos concorrentes e apresentámos o nosso conceito. Mas, e apesar de terem sorrido educadamente, a maioria deles olhou para nós como se a nossa proposta fosse demasiado estranha para ser, sequer, considerada.

Cerca de quatro anos depois destas apresentações iniciais, fomos desafiados por duas grandes fundações em Portugal para colaborar na criação de uma plataforma que ajudaria os empreendedores sociais e as organizações a alcançarem uma sustentabilidade de longo prazo.

A única condição para esta colaboração exigia apenas que o conceito e a operacionalização fossem feitos por quatro organizações (duas empresas e duas ONGs – a Stone Soup, a Call to Action, o IES e a TESE). O que demonstrou ser uma excelente oportunidade para a implementação da nossa ideia original de comunidade e, finalmente, para podermos trabalhar num modelo de interdependência com os nossos concorrentes/parceiros. Um ano após o arranque em Portugal, a GEOfundos é um sucesso e, numa base semanal, este consórcio constituído por quatro parceiros reúne-se e trabalha em conjunto e como uma equipa.

No que respeita à B Corp, a cimeira revelou-se de importância extrema para se perceber de que forma este movimento pode ajudar a solucionar questões societais complexas, desde a pobreza, ao desemprego, às alterações climáticas, e só para citar algumas. Adicionalmente, é quase impossível escolher uma história inspiradora entre as muitas partilhadas nesta conferência.

O evento proporcionou também um intenso e interessante debate de como as empresas podem ser simultaneamente activistas para solucionar problemas societais profundos, seja a “solo”, em conjunto com outras empresas ou em colaboração com ONGs locais e nacionais

O conceito geral do evento privilegiou histórias inspiradoras que pudessem ajudar as B Corps a avançar com base nas melhores práticas. E para dar um exemplo concreto, talvez possamos escolher a Patagonia, enquanto um bom modelo de empresa sustentável. A declaração de missão da Patagónia é a seguinte: desenvolver o melhor produto, não causar danos desnecessários [ao ambiente], utilizar o negócio para inspirar e implementar soluções para a crise ambiental. Desde a sua fundação que a Patagonia tem estado comprometida tanto com a sustentabilidade como com a disrupção. A empresa tem concebido campanhas que encorajam as pessoas a ‘não serem os seus próprios produtos’ – no sentido de prevenirem o consumismo cego durante os Black Fridays -, tem desenhado roupas e equipamento para actividades ao ar livre duradouras e resistentes – para evitar os impactos negativos da produção excessiva de materiais -, e tem actualizado continuamente a sua posição face aos materiais que produzem – assegurando que os mesmos são os mais sustentáveis e os que menos danos provocam no planeta. Por outro lado, tem assumido, de forma corajosa, posições públicas contra as politicas e a política que promove as alterações climáticas, a poluição, as práticas não sustentáveis, sendo possível citar, como exemplo, as recentes campanhas contra Donald Trump.

Adicionalmente, o evento proporcionou também um intenso e interessante debate de como as empresas podem ser simultaneamente activistas para solucionar problemas societais profundos, seja a “solo”, em conjunto com outras empresas ou em colaboração com ONGs locais e nacionais. Foram vividos também excelentes momentos de reflexão sobre os lóbis, sobre acções de sensibilização e sobre o papel das empresas no que a estas questões diz respeito, e de como se pode ultrapassar os papéis tradicionais que a sociedade nos outorgou.

Toda a comunidade B Corp está preparada para trabalhar em interdependência para resolver este tipo de problemas. E foi uma experiência inesquecível sentir isto mesmo em Cascais: a generosidade e a partilha honesta que nos estimula a ser uma força para o bem. Boas ideias e boas soluções. E que bom foi ter estado rodeada por estas pessoas.

Nota: O presente artigo foi originalmente escrito em inglês, com posterior tradução do VER.

Publicado em “Valores, Ética e Responsabilidade” – ACEGE – 29 de junho de 2017