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O papa na mesquita de Roma: “Esperamos que ele venha durante o Jubileu”

Rayed Khaled A. Krimly, presidente do Centro Cultural Islâmico da Itália e embaixador da Arábia Saudita, fala do encontro com o papa, da Declaração de Marrakesh e dos conflitos no Oriente Médio

 

2 março 2016 - Em 20 de janeiro, antes da audiência geral, o papa Francisco recebeu uma delegação muçulmana que o convidou oficialmente a visitar a Grande Mesquita de Roma. Seria um evento histórico, já que nunca um bispo de Roma visitou antes o local, inaugurado em 1995 e hoje a maior mesquita do mundo ocidental.

A delegação foi lideranda por Rayed Khaled A. Krimly, presidente do Centro Cultural Islâmico da Itália e embaixador do Reino da Arábia Saudita. ZENIT conversou com ele, cerca de um mês depois, não apenas para falar daquele encontro, mas também de conflitos internacionais e da Declaração de Marrakesh, que o Centro Cultural Islâmico da Itália adotou na semana passada.

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ZENIT: Dr. Rayed, qual é o valor da Declaração de Marrakesh?

Rayed Khaled A. Krimly: É uma declaração histórica, porque em Marrakesh se reuniram os líderes da “umma” islâmica (países de maioria islâmica, ndr) de todo o mundo. Foi afirmado um valor básico do islã, que é a liberdade para todos, incluindo os não muçulmanos, de praticar a sua religião. Este direito deve ser garantido a todas as pessoas que vivem em países islâmicos. O Centro Cultural Islâmico da Itália o aprovou porque isto corresponde aos princípios do próprio centro. Eles refletem os valores do islã e o que há de melhor na convivência entre muçulmanos e não muçulmanos. Um bom muçulmano é um bom cidadão do seu país.

ZENIT: O encontro com o papa Francisco está em linha com os princípios expressos na Declaração de Marrakesh. Qual foi a sua impressão do encontro com o papa?
Rayed Khaled A. Krimly: Como delegação oficial do Centro Islâmico, nós ficamos muito honrados por ter encontrado o papa. Ele nos recebeu calorosamente e aceitou o nosso convite para visitar a Grande Mesquita de Roma. É claro que a data deve ser determinada de acordo com a sua agenda. O que nós esperamos é que a visita tenha lugar durante o Jubileu, porque o valor da misericórdia é central para todas as religiões, incluindo o islã. Nós somos gratos a Sua Santidade, o papa Francisco, pelo seu contínuo apoio moral e espiritual aos direitos de cada pessoa. Isso nos traz de volta à Declaração de Marrakesh: devem ser respeitados todos os muçulmanos na Europa e todos os cristãos no mundo árabe.

ZENIT: Falando de cristãos no mundo árabe, qual é a situação dos cristãos na Arábia Saudita?

Rayed Khaled A. Krimly: Os cristãos são considerados árabes-cristãos e parte integrante dos países em que vivem. Na Arábia Saudita, a população saudita é muçulmana. Os não muçulmanos são não cidadãos, mas residentes na Arábia Saudita, e são bem-vindos. A Arábia Saudita é uma exceção no panorama islâmico, porque é a sede das duas mesquitas sagradas (Meca, o local de nascimento de Maomé, e Medina, onde ele foi enterrado, ndr). É como se fosse o “Vaticano islâmico” e, como tal, só o islã pode se expressar publicamente. No entanto, aqueles que decidem viver em nosso país são livres para praticar o cristianismo de modo privado.

ZENIT: A Declaração de Marrakesh condena firmemente o uso da religião “com finalidade de atacar os direitos das minorias”. O Instituto Washington estimou que grande parte do financiamento dos grupos terroristas no Oriente Médio vem da Península Arábica e que mais de mil voluntários do Estado Islâmico são sauditas. Como avalia estas estimativas?

Rayed Khaled A. Krimly: O terrorismo é nosso inimigo e inimigo de todos os muçulmanos. Ele está tentando abusar da nossa religião e torná-la sua refém. Na Arábia Saudita, nós temos as leis mais rigorosas não só contra aqueles que aderem ao terrorismo, mas também contra aqueles que o financiam. E essas leis são supervisionadas por uma comissão internacional composta por agências americanas e europeias, coordenadas por comitês permanentes. São medidas tão severas que até doações inócuas enfrentam dificuldades para ser feitas, porque entram nas malhas dessa lei. A nossa firme tentativa é de combater o terrorismo, independentemente da nacionalidade da pessoa que o pratica. Muitas operações, aliás, tiveram alguns sauditas como alvo. O nosso povo, as nossas forças de segurança, os nossos líderes religiosos estão prontos para sacrificar as suas vidas para combater o terrorismo. Constantemente e publicamente nós o condenamos. É claro que isto não significa que não há jovens que são mal orientados e explorados pelas mentes desviadas, que vêm do Iraque, da Síria, do Iêmen, também de países europeus. Análises muito atuais demonstraram que a maioria dos europeus que se filiaram ao EI tinham se tornado extremistas dentro de presídios europeus. Talvez eles tenham ido parar na prisão por questões de drogas, roubos, crimes comuns. E depois, lá dentro, encontraram um ambiente de criminosos e de extremistas que os corromperam. A luta contra o terrorismo é uma luta que nós temos que realizar todos juntos.

ZENIT: O papa Francisco reza constantemente pela paz na Síria e pede uma resposta eficaz da comunidade internacional para atingir esse objetivo. O senhor acredita que a trégua em vigor no país é um bom sinal?

Rayed Khaled A. Krimly: Nós apoiamos a trégua, mas ficamos vigilantes para que todas as partes em conflito a respeitem. Já foram identificadas várias violações da trégua por parte do regime de Assad e dos seus comparsas. Acreditamos que esta trégua é importante para se poder distribuir a ajuda humanitária à população. Depois será possível passar para uma transição e um processo político. A solução para nós é uma Síria sem Bashar al-Assad e sem o terrorismo.

ZENIT: O senhor acredita que esta solução é compatível com a geografia atual da Síria ou será preciso redesenhar as fronteiras do país?

Rayed Khaled A. Krimly: Nós apoiamos uma Síria soberana e unificada, com um sistema político que inclua todos, onde os sírios possam desfrutar de todos os direitos e da participação ativa na vida do seu país. Qualquer proposta de alteração constitucional deve partir dos próprios sírios e ser aprovada por eles.

ZENIT: E se os próprios sírios reafirmassem o seu apoio a Bashar al-Assad?

Eu lhe asseguro que isso é impossível. Ele assassinou centenas de milhares dos seus concidadãos, ele usou bombas contra os civis, ele usa a fome como arma, quase metade da população foi forçada a abandonar a sua casa. É claro que, considerando que Assad removeu pessoas de suas casas, se somente as tropas votassem, seria possível alguma chance de ele vencer a eleição. Temos que lembrar que seis milhões de sírios fugiram da Síria.

ZENIT: Há outro conflito em que a Arábia Saudita está envolvida, o do Iêmen. Como o senhor avalia a decisão do Parlamento Europeu de votar o embargo à venda de armas para o seu país?

Rayed Khaled A. Krimly: Provavelmente, alguns parlamentares europeus não se baseiam em informações corretas. É nosso direito e nossa obrigação fornecer informação fundamentada. As milícias huthi (que são xiitas e contra as quais a Arábia Saudita luta, ndr) estão saqueando as ajudas humanitárias, estão sitiando as cidades, estão forçando as crianças a se tornarem soldados, estão bombardeando áreas civis, incluindo áreas dentro do território da Arábia Saudita. Os ataques da Arábia Saudita são planejados e executados com muito cuidado. Nós somos capazes de oferecer livre acesso aos nossos amigos americanos e europeus para examiná-los.

ZENIT: Qual é a atual situação no Iêmen?

Rayed Khaled A. Krimly: A guerra no Iêmen pararia hoje mesmo se as milícias huthi e seus simpatizantes se adequassem às disposições da resolução 2216 da ONU (que prevê a retirada das milícias huthi, ndr), aprovada sem nenhum voto contrário. Os primeiros a se angustiarem com o que está acontecendo são o governo do Iêmen, reconhecido internacionalmente, e a Arábia Saudita, que é, de longe, o maior doador de ajuda humanitária para o Iêmen. Se este país caísse ainda mais em colapso, com um governo substituído por milícias sectárias e grupos terroristas, isto seria de benefício para os civis iemenitas? Os nossos amigos do Parlamento Europeu estariam pronto para acolher milhões de refugiados do Iêmen? Nós esperamos que, em vez disso, os parlamentares europeus se juntem a nós na prestação de assistência aos nossos irmãos iemenitas.

ZENIT: Até a data, a Arábia Saudita e a Santa Sé não têm relações diplomáticas. No entanto, nos últimos anos, as relações se desenvolveram bastante. Espera-se mais progresso no futuro?

Rayed Khaled A. Krimly: Nós temos que lembrar que o rei saudita visitou o papa no Vaticano em 2007. A Arábia Saudita e o Vaticano já trabalham em organizações internacionais a favor da paz. Eu creio, por isso, que pode haver novos progressos, até porque não há problemas que de forma alguma coloquem as duas partes em conflito.