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A nova união económica para criar valor social

Artigo publicado em “Valores, Ética e Responsabilidade” – ACEGE – 28janeiro2016

 

Em matéria de inovação, Portugal está “na linha da frente e alinhado com as principais práticas internacionais”. Em entrevista, o director académico do IES-SBS e o director do Laboratório de Investimento Social explicam como o empreendedorismo deixou (finalmente) de ser uma moda para envolver “em rede todos os agentes económicos” na criação de “soluções sustentáveis”, capazes de “resolver em escala” os principais problemas da sociedade
POR
GABRIELA COSTA

“Capacitar as organizações da economia social para a mobilização de capital privado é o desafio”

A propósito do lançamento da 2ª edição do “Manual para Transformar o Mundo” (cujos conteúdos foram desenvolvidos pelo IES-Social Business School  e pelo INSEAD a partir dos módulos de formação da iniciativa FAZ – Ideias de Origem Portuguesa, em parceria com o Programa Gulbenkian Desenvolvimento Humano), e do inovador Laboratório de Investimento Social (LIS), o director académico do IES-SBS, Carlos Azevedo, e o director do LIS, António Miguel, traçam o estado-da-arte da nova economia de impacto.

Hoje, um empreendedor social “é motivado pela criação de valor e não pela captura de valor na sociedade”, e age de forma resiliente “a partir de problemas que a sociedade enfrenta”, sublinham, em entrevista ao VER.

E, se falta ainda “dimensão e massa crítica” a Portugal, o país está a seguir “uma estratégia de incubação e experimentação” que permitirá “replicação e escala a nível europeu”. Os próximos anos irão, pois, “ditar as aprendizagens para uma adopção mais generalizada por parte de investidores, sector público e organizações da economia social”.

O Manual para Transformar o Mundo visa constituir um guia para empreendedores sociais. Face à actual tendência, nas áreas do empreendedorismo e inovação social, da economia de impacto, quais são as grandes ideias emergentes para resolver problemas sociais, contidas nesta 2ª edição?

Carlos Azevedo, director académico do IES-Social Business School e vogal da Direcção do IES-SBS

O Manual para Transformar o Mundo é um guia prático para todos os agentes que pretendem criar uma iniciativa de impacto. Entendemos que uma iniciativa de impacto é levada a cabo por um empreendedor ou um intra-empreendedor social cujo objectivo é maximizar a criação líquida de valor para a sociedade, independentemente da sua natureza jurídica (empresa, entidade pública ou organização social). Este empreendedor é motivado e está comprometido com a resolução de um problema que é importante, está negligenciado e tem efeitos negativos para toda a sociedade.

A partir daqui o guia propõe dez etapas que materializam um processo que começa com o estudo aprofundado do problema, passa pela estruturação da solução, do seu modelo de sustentabilidade e de impacto e acaba com a respectiva comunicação aos diversos stakeholders da solução, as quais permitirão que esta seja efectivamente implementada.

No fundo, o manual propõe uma abordagem em três fases – visão, desenho e acção. Pretendemos que a abordagem proposta tenha influência no funcionamento das iniciativas de impacto, sobretudo no que diz respeito ao trabalho em rede, à sua sustentabilidade e ao impacto gerado.

De que modo essas etapas, sistematizadas nos dez capítulos deste Manual, garantem a construção sustentável de projectos e negócios empreendedores?

As etapas têm uma sequência lógica que começa com um estudo aprofundado do problema e das suas principais causas e efeitos. De seguida propõe-se a criação da proposta de valor e a arquitectura da solução para a resolução do problema identificado, tendo como base a necessidade de foco, as principais causas do problema que devem ser atacadas, as paixões e a experiência do empreendedor social.

Uma iniciativa de impacto é levada a cabo com o objectivo de maximizar a criação líquida de valor para a sociedade – Carlos Azevedo, director académico do IES-SBS

Na fase seguinte, é apresentada uma metodologia para a construção do modelo de sustentabilidade e de impacto da solução. Finalmente, o Manual apoia a estruturação da fase que distingue verdadeiramente um empreendedor social – o teste da solução através do piloto, do respectivo processo de aprendizagem e viabilização.

Este Guia “propõe uma metodologia que desafia a repensar a forma como se constroem soluções para problemas negligenciados da sociedade”, com vista à criação de “causas maiores”. Quais são as premissas e ferramentas essenciais dessa metodologia?

As principais premissas do Manual para Transformar o Mundo assentam nas seguintes ideias base: um empreendedor social é motivado pela criação de valor e não pela captura de valor na sociedade, detecta oportunidades a partir de problemas que a sociedade enfrenta; e é resiliente e está comprometido com a acção. Esta é a razão pela qual age e monta um modelo de negócios capaz de garantir que a solução persiste o tempo suficiente, até à resolução do problema identificado.

As ferramentas propostas apoiam toda esta aventura. A árvore do problema, na sua análise, e os vários modelos de negócios propostos para a sustentabilidade são bons exemplos. O Manual recorre a muitos exemplos e ilustrações para que seja fácil perceber a implementação das várias ferramentas e instrumentos propostos.

Que desafios enfrentam, no actual contexto socioeconómico, os empreendedores sociais – quer em fase de arranque, quer de consolidação do projecto -, com vista à geração de valor com impacto?

Os empreendedores sociais enfrentam vários desafios actualmente. Destacaria os seguintes: dificuldade em montar soluções intrinsecamente sustentáveis; necessidade de uma rede de pares que garanta apoio e o encurtamento do espaço de aprendizagem; dificuldade em arrancar com as iniciativas, fruto da burocracia existente; e dificuldade em aceder a financiamento para a fase de lançamento da ideia e para a fase de crescimento, dada a existência incipiente de ferramentas e produtos financeiros adequados às suas necessidades.

Como sucede com todos os modelos de negócio, e como traduzem as duas edições deste Manual, o movimento do empreendedorismo social evoluiu, nas últimas três décadas, mantendo a sua base de actuação na ‘aventura’ de inovar a partir de ideias inspiradoras, mas adequando-se hoje às necessidades emergentes de aliança dinâmica entre os três sectores da economia (empresarial, público e social) – a nova economia de impacto. Qual é o actual estado-da-arte do empreendedorismo social?

Hoje o empreendedorismo social deixou de ser uma moda para entrar na fase de institucionalização, isto é, hoje todos os agentes económicos percebem a necessidade de criar soluções sustentáveis para os principais problemas da sociedade. Mais, hoje em dia estes agentes percebem que para resolverem problemas em escala, garantirem a sustentabilidade das suas organizações e transformarem a sociedade em que vivemos têm de o fazer em rede. Essa é cada vez mais uma realidade incontornável.

O IES-Social Business School tem contribuído para a agenda da economia de impacto através dos seus programas de formação, dos seus laboratórios, do conhecimento que produz e dissemina e da comunidade que foi construindo e vai facilitando.

A nível nacional, e considerando o recente enquadramento legal e regulamentar desta nova visão orientada para a avaliação e para os resultados das iniciativas com missão social, e a consolidação dos modelos de negócios sociais e investimento social, expressa em projectos como o LIS, como se está a estruturar a economia social de impacto, comparativamente às práticas internacionais nesta matéria?    

António Miguel, director do Laboratório de Investimento Social e vogal da Direcção do IES-SBS

Em matéria de investimento social, Portugal pode e deve orgulhar-se de estar na linha da frente e alinhado com as principais práticas internacionais.

Desde 2013, tem sido desenvolvida uma série de projectos que atraem atenção internacional para Portugal nesta área: a criação do Grupo de Trabalho Português para o Investimento Social, que foi convidado a juntar-se aos países do G8 numa reflexão global, a constituição da iniciativa Portugal Inovação Social (somos o segundo país do mundo a ter uma instituição grossista exclusivamente dedicada ao investimento social) e o lançamento do primeiro Título de Impacto Social na área da educação, com o projecto piloto Academia de Código Júnior (Portugal foi o quarto país da Europa a implementar um mecanismo deste tipo).

Pensando no cruzamento dos três sectores – público, privado e social –, tem existido uma grande abertura em Portugal por parte do sector público para a temática do investimento social. Entre outros, o principal desafio está na capacitação das organizações da economia social para poderem receber investimento porque será esse um factor preponderante para a mobilização de capital privado.

Comparativamente a mercados como o Reino Unido ou os Estados Unidos da América, temos uma dimensão e massa crítica muito menor. Contudo, acreditamos que Portugal pode seguir uma estratégia de incubação e experimentação – por sermos flexíveis e adeptos de inovação – que sirva de base para replicação e escala a nível europeu.

Como vêm evoluindo os conceitos e práticas relativos a investimento social – capital de risco, mecanismos de financiamento e avaliação de activos de fundos e sociedades no sector do empreendedorismo e inovação social?

A evolução tem sido feita por aproximação. Se pensarmos num espectro em que num dos extremos temos impacto social e no outro temos retorno financeiro, aquilo que verificamos é que alguns instrumentos partem do impacto social e tendem para o centro – como a filantropia de impacto (ou venture philanthropy, no termo original inglês); e outros instrumentos partem do retorno financeiro e tendem para o centro, como fundos de investimento social que integram o impacto na sua decisão de investimento. Existem ainda os Títulos de Impacto Social, que se apresentam como uma solução de financiamento para intervenções inovadoras que respondem a desafios sociais prioritários para política pública.

No investimento social os instrumentos financeiros são um meio para atingir um fim: criação de valor e resolução de problemas sociais – António Miguel, director do LIS

Todos estes mecanismos carecem de experimentação e os próximos anos em Portugal irão ditar as aprendizagens para uma adopção mais generalizada por parte de investidores, sector público e organizações da economia social.

Por fim, é importante considerar que os diversos instrumentos financeiros servem propósitos e tipos de entidades e projectos diferentes. O ponto de partida deverá ser inequivocamente o seguinte: de que forma consigo resolver um determinado problema social de forma eficiente? Consequentemente, o modelo de negócio será desenvolvido, assim como a respectiva fonte de geração de receitas – esse será o principal condutor que identifica o instrumento financeiro mais adequado.

No investimento social os instrumentos financeiros são um meio para atingir um fim: criação de valor e resolução de problemas sociais.